A esquerda marcha desencontrada, e sem saber para aonde…

por Sulamita Esteliam

Preste atenção no recado de Eugênio Aragão, vice-procurador-Geral da República e ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, quando esta foi apeada do mandato legítimo por um golpe de Estado parlamentar-jurídico-midiático.

Deu-se no Parque da Redenção, em painel sobre “Defesa da Democracia e o Futuro da Esquerda, parte da programação do Fórum Social das Resistências:

“Nós podemos ser oposição a um governo eleito legitimamente, mas não podemos ser oposição a um governo golpista. Não se faz oposição a um governo golpista, se combate. Eles não são nossos adversários, são inimigos”.  

Assim como este blogue tem feito, desde a consolidação do golpe, Aragão critica, também, as propostas de eleições diretas já e de convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte, no atual contexto político.

“Neste momento, pautas como Diretas Já e Constituinte são agendas que mais nos dispersam que nos unem. A agenda fundamental é o golpe que não passou de um arrastão de trombadinhas. O tema central é o desfazimento do golpe e a restituição da presidenta Dilma. Não podemos abandonar essa agenda sob pena de sermos acusados de hipócritas. Não dissemos que esse golpe foi misógino, machista e antidemocrático? Tudo isso passou? Negar o nosso discurso e trocá-lo por uma variação é algo que nos enfraquece. Uma nova eleição direta agora significaria aprofundar o golpe, tornando a reconquista da legitimidade mais distante. Se tivéssemos uma nova Constituinte agora, a direita transformaria o Brasil num Estado teocrático.”

Será que só o PT – e os demais partidos e movimentos de esquerda, na mesma toada, por motivos diversos – não vê?

Por exemplo: custa-me a crer que o partido da presidenta deposta e do ex-presidente caçado como se meliante foss – e que tem parte dos seus quadros de maior valor presos e condenados sem o devido contraditório – tire da reunião do Diretório Nacional a decisão de apoiar, qualquer que seja o candidato, seus algozes na eleição da presidência da Câmara e do Senado.

Para assegurar um lugarzinho na mesa diretora?  O presidente do partido nega, e diz que a resolução conjunta do Diretório Nacional, com vistas ao Congresso anual do partido, em junho, “não indica apoio a nenhum candidato”.

De fato, o texto é liso, não escreve apoio, mas ensaboa a decisão futura, como um palavreado longe do assertivo.

Mas se não há candidato próprio nem candidato da frente de esquerda, como é que vai dar-se a “garantia da proporcionalidade” que reza a Constituição e os regimentos?

Conversa para boi dormir…

O conterrâneo Rogério Correia, deputado estadual pelo PT, diz tudo. E faz muito bem em somar-se ao senador pelo Rio, Lindbergh Farias, neste apelo e alerta. Alguém tem que chiar, não é possível…

A Constituição foi rasgada no momento da deposição fraudulenta da presidenta Dilma Rousseff. Será que a direção do partido não entendeu ainda que vivemos um golpe de Estado?

E que é preciso coragem, ousadia e firmeza para restabelecer o Estado Democrático de Direito?

A se confirmar o arrumadinho, o nome disso não é pragmatismo nem real política, é covardia, nojeira, mesmo.

É essa a tal reconstrução a que o partido se propõe!?

Será que todos esses anos de perseguição e desmonte não foram suficientes para o PT acordar para a realidade? São todos, mesmo, farinha do mesmo saco?

E Lula, concorda com toda essa bandalheira!?

O teor do discurso dele na abertura da reunião aponta noutra direção…

Então, quer dizer que a banda podre vai dar as cartas? E não venha me dizer que não existe, porque existe em todo partido; mas não deveria existir no PT ou qualquer outro partido que se quer de esquerda, ainda que partidos não sejam formados por anjos, mas por gente, concorda?

Não sou filiada ao PT nem a qualquer partido, nunca fui. Sou independente demais para seguir resoluções A ou B. Mas, desde 1982, o partido tem o coração, o meu voto e meu empenho nas eleições. Sinto-me no pleno direito de falar.

E nós, eleitores e militantes, ficamos pendurados na brocha? Para onde vamos?

Volto ao debate no Fórum da Resistência, por que é absolutamente pertinente.

O ex-senador chileno, Carlos Ominami, presidente a Fundação Chile 21 – que tenta rearticular as esquerdas em seu país – puxa a orelha da esquerda. Para ele, os erros das esquerdas serviram como uma espécie de força auxiliar na debacle democrática – tanto no Brasil, como em Honduras e no Paraguai:

“O futuro da esquerda passa pela democracia e o futuro da democracia passa pelo seu aprofundamento”.

“Nós temos democracias de baixa intensidade que são muito frágeis. Fizemos mal algumas coisas. Não devemos considerar a democracia como um meio para chegar a outra coisa, mas sim como um fim”, afirma Ominami.

Aragão também vê na debilidade do Estado brasileiro e na pasmaceira e falta de ousadia das esquerdas, as razões para o golpe; e cutuca a ferida do conservadorismo do Judiciário, desde antanho:

“Quando a República foi proclamada, em 1889, o superior tribunal de justiça da época manteve todos os seus juízes. Não houve nenhuma mudança na passagem da monarquia para a república. O golpe deles é permanente e muda de face a cada instante para nos confundir”.

“Quando saímos da ditadura, não fizemos nenhuma transição democrática de verdade. Quando o STF disse que a Lei da Anistia não permitia o julgamento dos crimes de tortura, desaparecimentos forçados e execuções, a anti-anistia se institucionalizou. Recusamos justiça a atrocidades do passado. Isso foi apenas o começo. Não quisemos discutir os temas da unificação e da desmilitarização das polícias. Fomos por demais lenientes e deu nisso: uma geleia geral em que a esquerda se amalgamou com aqueles que querem destruí-la.”

O debate foi promovido pela CUT e pela Fundação Friedrich Ebert. Confira a reportagem do colega Marco Weissheimer, no Sul 21.

 

Fotos: Lula Marques/Agência PT e Filipe Araújo/Fotos Públicas

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Postagem revista e atualizada ia 06.02.2016, às 10:50 h, hora do Recife: correção de impropriedades gramaticais em diferentes parágrafos, com minhas desculpas.


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