A folia que resgata o brio

por Sulamita Esteliam

Testão, vulgo Ricardo Moreira, um pernambucano dublê de fisioterapeuta respiratório e poeta, me renova o convite anual para a Sexta-feira de Cinzas: a troça Parou Por quê, que ele preside, dentre outras, está a postos no Mercado da Ribeira, para provar que em Olinda ainda é Carnaval.

Concentração às 20:00 horas. O desfile sai às vinte e uma.

De minha parte, a quinta se perdeu na expectativa da cirurgia de retirada da vesícula que eu faria agora à noite, e que foi cancelada pelo plano de saúde no início da tarde. Esta velha escriba de malinha pronta e já adentrada no jejum, até de água, desde as dez da matina.

Ironicamente, o adiamento se deu pelo mesmo motivo pelo qual empurrei para o Recife o procedimento que deveria ter sido feito em Belo Horizonte: não há leito disponível. Já relatei aqui a pane que sofri por lá – e em pleno aniversário -, o que recomenda cortar o mal pela raiz.

_parou-por-que-_olindaBom, como estou bem desde a virada do ano, posso perfeitamente esperar mais oito dias.  E de quebra, aproveitar, quem sabe, mais um pouco as ladeiras de Olinda, desta feita com o boneco Sexta-Feira, que desde 1990 homenageia “o dia internacional da cachaça e dos amores proibidos”.

Um parenteses: conheci Ricardo Testão nos tempos em que fazia o programa Violência Zero pela Rádio Olinda, a convite do amigo Ruy Sarinho, que dividia a bancada comigo.

Voluntariado que nos obrigava a madrugar todos os sábados, a princípio no estúdio, depois pelos mercados, feiras, praças e até presídios para debater direitos humanos.

Ricardo, sua companheira e mais dois ou três casais amigos nos acompanhavam nas apresentações públicas; meu parceiro fazia o mesmo.

Era uma farra boa que atravessava as manhãs, com a greia/brincadeira do Banco de Feira, comandado pelo Veio Mangaba/Valmir Chagas, que focava em atrações da cultura pernambucana, na sequência, e ganhava as tardes na mesa do bar.

O programa incomodou, não obteve patrocínios, e saímos do ar em seis meses.

Pois é assim que a banda toca. Quem não se enquadra pega o boné e sai de fininho.

Não é o caso do Mordomo. A usurpação já é quase uma gestação de burro, a empurrar este País ladeira abaixo, com o auxílio luxuoso da mídia venal. Enquanto ele e sua camarilha não saem do lugar.

segurucu_dedo segurucu-_-etandarteE a Suprema Corte repete a história dos três macacos: não ouve, não vê e não se manifesta sobre o golpe do qual é parte indissociável, sob o verniz das conveniências rituais.

De sua parte, a canalha, aquela que segundo Montesquieu precisa ser guiada, que andava silenciosa – à direita e à esquerda – despertou aos sons dos clarins e tamborins momescos.

Este Carnaval foi praticamente um despacho, com direito a voz coletiva à luz do dia e da noite, nos sete cantos do Brasil: Fora, Temer! Fora, Temer!, Fora, Temer!, cantado alto e bom tom em ritmo de frevo, samba, marcha, carimbó, axé, maracatu…

Haja tambor!

Aonde isso vai dar é o que veremos…

Não vi sombra de outros carnavais, porque Euzinha e o maridão estávamos muito ocupados em brincar.

Exceção feita à segunda-feira, quando fizemos pausa para reabastecer. Só que a tentativa de ver o desfile das escolas de samba do Rio pela TV, vamos combinar, esbarram na transmissão indigesta global.

Somos gatos escaldados da segundona no Marco Zero, além disso. Nos dois últimos anos, chegar, ficar e sair do Antigo foi um parto de rinocerante. A Tal Mineira falou sobre e o contexto.

Este ano, contudo, quem conferiu de corpo presente, como dizem os recifenses, assegura que estava tranquilo. A mesma percepção que tivemos no domingo, quando brincamos por lá.

Opção feita, já madrugada da segunda, devidamente instalados no berço, acompanhamos a transmissão ao vivo dos shows dos Titãs, conformados, e do JotaQuest, direto do Marco Zero.

Pura empatia o grupo mineiro, que agradeceu efusivamente sua segunda estada no Carnaval recifense, a primeira como banda principal.

Bonito ver Rogério Fausino envergar o manto sagrado do Caboclo de lança e incorpar a voz para injetar Chico Sciense e Nação Zumbi, manguebeat na veia da galera.

Sábado e terça-feira reservamos a Olinda, que sempre fervilha.

Curioso que, este ano, a terça estava com cara de sábado, quando sempre é mais tranquilo brincar nas Olinda. Mesmo nos Quatro Cantos ou na Prudente de Morais ou na Prefeitura era possível acompanhar os blocos sem a sensação de queijo prensado.

Todavia, o que vale é beber a energia das ruas, o descompromisso, a irreverência e a alegria dos foliões. Isso é Carnaval!

Desta vez, não vimos um baculejo (revista policial pesada), um sururu nem assistimos qualquer violência ladeira acima ou abaixo.

mijoes-_-beco volta-pra-casa-2Três problemas permanecem em Olinda, entretanto:

1) a incontinência urinária de parte dos brincantes, a despeito dos banheiros químicos nunca suficientes, torna o odor de certos becos irrespirável; haja água para lavar o rio de mijo que escorre ladeira abaixo!

2) dá agonia enrolar pés e pernas no lixo em profusão, apesar do trabalho incansável dos catadores, homens e mulheres e, infelizmente, crianças, que nos livram das latas, mas não dos plásticos e que tais;

3) falta iluminação, policiamento e segurança de tráfego para quem depende de ônibus regular para voltar para casa à noite, que dirá de madrugada – e ainda por cima bêbado.

Não obstante, o Antigo para nós se resumiu ao fim de tarde e parte da noite do domingo. Gostoso talvez seja a palavra que defina o clima da folia, a lembrar outros carnavais em tempos não muito distantes.

Encantador o espetáculo do pernambucano Antônio Nóbrega, impecável como sempre, maravilhoso em sua simplicidade e maestria.

Um resgate de sambas de todos os tempos, um breve passeio pela cultura da terra. E, ao final,  o saculejo com uma canção-síntese do Brasil que envergonha.

O vídeo que gravei ficou só no grito de guerra da multidão, o resto perdi. Para completar, embora o tenha postado nas redes sociais, não consegui incorporá-lo aqui.

Então, capturei no Youtube. A imagem não está lá essas coisas, mas o som está legal. Vale muito à pena ir até o fim:

 

 

 

 


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