Sonhos de meninas em tempo de chuva

por Sulamita Esteliam

Outro dia, em um dos grupos de mulheres dos quais participo, o Coalas Mineiras, alguém compartilhou uma postagem capturada numa das redes sociais em que uma mulher conta uma história pouco rotineira e interessante, mas não surpreendente.

Uma história emocionante, envolvendo três mulheres, uma delas apenas uma menina.

Tinha sido um dia especialmente difícil, e a narradora da história aproveitou a volta para casa, de trem, para respirar fundo, refletir sobre a própria vida e, sem medo de ser infeliz, deixar rolar algumas lágrimas.

No banco à frente, havia outra mulher, mais ou menos da sua faixa de idade, com uma menina dos seus 5 anos, presumíveis.

Mesmo concentrada em seus problemas, a moça angustiada pôde perceber que falavam dela, pois a menina se dirigia à mãe e alternava o olhar em sua direção. Apurou o ouvido e pôde captar:

– Deixa, mãe, por favor, é rapidinho; foi você que me ensinou…

– Tá, filha, mas se ela não quiser falar, você volta…

Em quatro passos a criança se pôs em frente à mulher, que, meio desconcertada, já secara as lágrimas. Abriu o sorriso e perguntou:

–  Está tudo bem?

– Está, sim, obrigada – respondeu a mulher, tentando devolver o sorriso, que certamente saiu um arremedo.

A menina não era de desistir, assim, tão facilmente. Caprichou, e tornou a sorrir, um riso franco e compassivo. E lacrou:

– Você quer um abraço, moça? Minha mãe diz que nós, mulheres, precisamos cuidar umas das outras.

Então, cuidemos umas das outras, recomendou a moça lá na postagem, sentindo-se acolhida.

O nome desse carinho e atenção solidária é so-ro-ri-da-de.

E que maravilha nos traz esse relato: mulheres jovens têm essa consciência, e educam suas filhas para passá-las adiante.

Há esperança.

Rivânia, a menina que es colheu salvar os livros – Foto: Valter Rodrigues/Blog Tenório Cavalcante

Faz tempo quero escrever sobre isso, mas a pauta se acumula em tal velocidade que um blogue anão como o A Tal Mineira, que tem apenas uma pessoa em todas as funções, e vai ao ar em esquema de voluntariado, não raro sucumbe à profusão de assuntos.

Ademais, os tempos estão sombrios. Tem horas que baixa um desespero básico e, para não sucumbir ao pânico, melhor desplugar geral, ou quase.

Deu-se com esta velha escriba esta semana. Até me arrisquei, aqui e ali, nas redes sociais, mas com afinco refugiei-me na leitura. Li 300 páginas em três dias, fora o noticiário elementar via blogosfera.

O tempo chuvoso favorece a hibernação. E como choveu aqui pelo Nordeste esse final de maio!

E Pernambuco não foi exceção, e a gente do Recife e da Mata Sul, sobretudo, pagou caro o alívio das águas. Rios transbordaram, e casas, e bichos e plantações foram cobertos pela inundação, e arrastados na enxurrada.

O balanço dramático dá conta de milhares de desabrigados e desalojados: 3081 pessoas perderam suas moradas em 11 municípios, e estão em abrigos temporários; outras 43.050 tiveram que deixar suas casas por conta das enchentes, contabiliza o governo estadual. Duas mortes na capital e três no interior.

Ontem, o sol voltou a dar as caras, ainda que brevemente. Fiz minha caminhada na praia, e sem conseguir distinguir o dia da semana, voltei a postar.

E acabei viajando no tempo.

Chorei ao ver a foto de uma menina pernambucana sobre uma balsa tosca, agarrada a uma mochila, onde reunira todos os seus livros escolares.

Mergulhei no túnel e revi, eu mesma menina, aos 9 anos, coberta de perebas, sendo carregada pela minha mãe – faz 17 anos que encantou-se – em busca de socorro médico numa distante Belo Horizonte, que já não há mais.

Uma menina franzina, que não conseguia andar,  pois a sola dos pés estavam cobertas de bolhas e feridas, mas que não desgrudava dos livros, qualquer livro que lhe caísse nas mãos. A ponto de a avó preocupar-se e recomendar à mãe da menina uma certa vigilância sobre o que tanto lia a sua neta.

Cicatrizadas as feridas na pele, outras afloram ou ressuscitam na alma que teima em vicejar. A vida é isso, um morrer e renascer constante.

A menina pernambucana estava sendo resgatada de sua vila, em São José da Coroa Grande, município do litoral sul do estado, na divisa com as Alagoas. E a avó lhe recomendara pegar apenas o que fosse mais importante.

Não importa a dimensão da pobreza ou da miséria humana. Viver é mais do que comer, trabalhar, dormir e esperar a morte chegar. Há que ter abraço, há que ter sorriso, há que ter sonho.

Sonho… penso que é o objetivo revestido de amor, o outro nome da utopia.

Rivânia, 8 anos e Bruna, 5 anos, em seus gestos de meninas valentes e ternas, sabem muito bem qual o futuro desejam para si.

Sim, meninas como elas, um dia, hão de dominar o mundo.

É o que costuma dizer meu companheiro sobre o poder de certas mulheres e o nosso destino.

Ele, que se esforça para  exercer seu lado feminino-feminista, embora não tenha extinguido seus ranços machistas, e não os negue.

Até porque, vive rodeado de mulheres, que os apontam ao menor sinal. Só filhas tem três, mais duas herdadas de minha parte. Quando nos juntamos, não há machismo que sobreviva.

Lembro-me, entretanto, que, depois da caçula já grandinha, quando eu disse ao meu filho, o primogênito e único, que ainda arriscaria outra gravidez para testar a possibilidade de outro menino, devolveu de primeira: “Então a senhora vai ter que mudar de marido, pois o Júlio só sabe fazer mulher”.

Não fizemos outro bebê. Tornei-me avó muito cedo, e arquivamos o projeto.

Veio um menino, depois uma menina, depois outro e mais outro menino.

Este ano, a 3 de fevereiro, o grande acontecimento: meu filho, que já tinha um casal, fruto de duas relações distintas em espaço geográfico e tempo, tornou-se pai de gêmeos – e esta avó só vai segura-los no colo em agosto.

Como o Universo é bom cúmplice, minha mais velha, que já tem dois rapazes, agora vai ser mãe de uma menina; a primeira genuinamente pernambucana – ou mineiribucana, como a avó da banda materna.

Desembarca no comecinho de novembro, e é muito bem-vinda, e já é muito querida!

Vem desempatar o traço regional na prole da prole: três cearenses, ou mineirenses – dois rapazes e uma moça; e três mineirinhos.

Quando o assunto é gênero, entretanto, o jogo está perto do empate: se o time da filharada é  5 x 1 para as mulheres, na descendência é 5 x 2 para os homens.

Tudo junto e misturado, até agora a soma é 13.

É preciso apostar na vida, apesar de.

*******

Postagem revista e atualizada dia 03.06.2017, às 7:05 horas: correção de erros de digitação em diferentes parágrafos e do mês de nascimento dos netos gêmeos; inclusão da palavra “ternas” no parágrafo 32.

 

 

 


2 comentários sobre “Sonhos de meninas em tempo de chuva

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