Jornalista denuncia abuso da PM sobre sua família em Beagá

por Sulamita Esteliam

Quando vejo pessoas, que se acham gente acima do bem e do mal, celebrarem a desgraça alheia, sempre me pergunto: e se fosse com seu pai, sua mãe, sua irmã, seu irmão, seu filho, sua filha?

Não desejo para mim nem para ninguém ser alvo da exceção, mesmo para aquele que se porta como inimigo. Mas vivemos tempos de golpe, e  ninguém está a salvo dos verdugos do totalitarismo.

O Zé e a Maria Povinho, ainda que não o definam, sempre souberam o que é democracia seletiva ou ditadura da discriminação, mesmo em tempos menos bicudos.

Para a maioria dos brasileiros e brasileiras, o Estado quase sempre se apresenta com o pé na porta.

Mas uma coisa é certa, não se pode calar diante do arbítrio. Tem que denunciar e cobrar das autoridades a responsabilidade de respeitar e proteger seus cidadãos.

Transcrevo o texto-denúncia do colega Alan Rodrigues, parceiro de algumas boas batalhas da categoria ainda nas Minas Gerais. Postado na quarta-feira, 13, no Facebook:

Juiz Moro, Lula e dona Wanda (minha mãe)

por Alan Rodrigues – no Facebook

Ontem, às 9h00, a casa da minha mãe foi “invadida” por policiais militares lá em Santa Luzia, Minas Gerais – região metropolitana de BHte. Sem mandado de busca e apreensão ou qualquer tipo de documento, os PMs fortemente armados disseram que estavam cumprindo uma diligência em função de uma denúncia que uma idosa – ela – estava guardando drogas em casa. A truculência com que os policiais fardados, ocupantes de duas viaturas, entraram na casa dela e reviraram os móveis, com diálogos ásperos e já considerando-a uma “velhinha do pó”, causou-nos uma indignação profunda. Aos 77 anos, moradora da periferia e ministra da igreja católica, “dona Wanda”, como é conhecida, não entendeu até agora o absurdo de que foi vítima.

Longe dos direitos cidadãos, os moradores da periferia são vitimas dessas violência em seu cotidiano e, em muitos casos, até acreditam que os PMs estavam cumprindo o dever deles. Aqui cabe deixar evidente: Não estão! Minha mãe só percebeu que os referidos policiais passavam do limite na abordagem por causa da forma como interrogaram meu sobrinho e neto dela, um menino de 15 anos, que estava dormindo “na hora da dura”. Trêmulo e em pânico, ele foi tirado da cama e assistiu aos policias revirarem o quarto dele e seus pertences atrás de drogas. Ao fim e ao cabo, os PMs acreditavam que aquele menino era um “bera-mar”. Depois “da geral”, de deixar uma bagunça infernal no imóvel e sem encontrar nada, os policiais deixaram a casa dela e sequer uma desculpa pelo transtorno foi apresentada. Acredito que o governo do petista Fernando Pimentel nos devem desculpas pelos danos morais que acarretaram para minha família e para a imagem da minha mãe, além de uma explicação para o ocorrido.

Pois bem, escrevo este texto para, além de denunciar o fato, mostrar e chamar atenção de todo mundo, independente da coloração partidária que cada um tem ou que porventura tenham, do Estado de exceção que o nosso país se tornou. Não erra quem aposta que vivemos uma ditadura De costas para o estado de Direito, policiais, promotores, juízes… se sentem no direito de rasgar nossos direitos constitucionais, conquistas que nos foram tão caras, pelo direito de agir sozinho. Como pode, por uma simples denúncia alguém invadir a casa do outro sem qualquer legitimação para buscar pelo que nem sabe se existe.

Isso me lembrou outra realidade que tem colaborado por essas ações desmedidas. Nos últimos meses, acompanhamos operações espetaculosas determinadas pelo juiz Moro e Cia nas casas de vários investigados da Lava Jato. Assistimos, alguns comemorando, a invasão que a polícia fez na casa do filho do ex-presidente Lula, exatamente como aconteceu ontem na casa da minha mãe, como se fosse um triunfo de um juiz que caça corruptos. Pior. Tudo isso vem sendo repassado aos olhos das pessoas por uma imprensa que não cumpre o papel que se espera dela de informar e denunciar. Assim como a TV Globo e outras redes de televisão, além de grande parte da mídia impressa apoiou a ditadura, sem qualquer crítica, na verdade pelo contrário, jornais como a Folha de S. Paulo emprestavam seus veículos para transportar incontestes do regime, hoje esta mesmo imprensa não divulga a verdade dos fatos e os direito do cidadão. Por exemplo, que é proibido uma autoridade policial sem mandado ou qualquer documentação entrar na casa das pessoas. Aqui cabe dizer também que as pessoas que brindam a invasão da casa do Lula estão legitimando atos como esses na casa da minha mãe. Não existe qualquer diferença entre a invasão na casa de Lula, em São Paulo, como na casa da “dona Wanda” lá em Minas. Todas são ilegais.

Pois bem, a experiência que minha mãe viveu ontem, que, infelizmente, é uma ação recorrente nas periferias do Brasil, mostra-nos a certeza de que não devemos abrir mão de nossos direitos como cidadãos, que estão sendo atropelados pelo aparelho de segurança e de muitos tribunais e que precisamos ainda mais de uma imprensa livre que possa cumprir o papel que se espera do jornalismo. Por tudo isso e pela volta do Estado de Direito e o fim da ditadura do judiciário e seus órgãos de repressão, estamos no front!


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