O simbolismo do assassinato de Marielle, a desfaçatez e a estupidez galopantes, e o que nos resta

por Sulamita Esteliam

Não é sempre, mas, às vezes, cumpro o doloroso dever de passar os olhos pela mídia venal. Ossos do ofício.

Deu-se pela manhã, logo que abri meu portátil para checar meu correio eletrônico. Aliás, do qual nos últimos tempos também ando em fuga. Só que hoje tinha obrigação profissional a cumprir, e à distância; e ainda bem.

Eis que me deparo com esta escalada matinal de O Globo:

“O essencial” para quem, cara-pálida!?

“Brasil tem um político executado por mês.”

É mesmo? E a lista de ativista sociais e militantes políticos sem mandato, executados nos diferentes cantos do País, por que põem o dedo na ferida, e incomodam, são 24 só de 2014 para cá, sabia? Fernando Horta foi o primeiro a escrever sobre o assunto, no Ópera Mundi, conforme registro deste blogue.

E o genocídio cotidiano de jovens e mulheres, negros e negras principalmente, as crianças mortas por balas perdidas, algumas ainda no ventre de suas mães muitas vezes pelas mãos e braços que deveriam protegê-los!?

Quando foi que O Globo ou qualquer veículo do PIG fez esse levantamento e com que propósito?

Voltemos à escalada global:

“Mortos na Política: levantamento de O Globo mostra que  morre um político por mês no Brasil. Rio registra o maior número de assassinatos em campanha eleitoral.”

“Guerra às fake news: assassinato de Marielle Franco provoca uma guerra contra notícias falsas. E CNJ recebe duas representações contra desembargadora.”

Aí, depois da foto da cantora Perry entre a irmã e a filha da mulher executada, vem a pérola, ou a arenga que não pode calar…

“Luto e luta: Depois do abração de Katty Perry, irmã de Marielle assume o ativismo e promete seguir em frente.”

Então, a sobremesa, a cereja do bolo – estragado na lambança da véspera…

“Falta muito: Dinheiro que o governo federal vai destinar à intervenção no Rio não paga as dívidas do ano passado ou as despesas deste ano em segurança.”

É ou não é de dar engulhos?

Ah, sim! Quem viu o Fantástico no domingão, certamente ficou absolutamente tranquilo quanto aos destinos da segurança pública carioca. Em particular, quem bate palmas para a intervenção militar no Rio.

Eu não vi, por que não assisto a Globo. Mas li a respeito, na dissecada da pena esperta dos coleguinhas da Fórum, revista eletrônica editada pelo Renato Rovai, blogueiro e pioneiro da mídia alternativa.

Escreve Rovai, em seu blogue, a propósito da capa de O Globo da segunda-feira, e da matéria da revista dominical da emissora de TV do oligopólio:

(…) reportagem manipulada para jogar mais lenha e gasolina na defesa da intervenção militar no Rio de Janeiro.” 

Antes, já no título, aponta que “a capa é a prova dos 9 da manipulação do caso Marielle pelo Fantástico”.

Registre-se, às vésperas dos sete dias da execução de Marielle Franco e de Anderson Gomes, motorista que conduzia seu carro.

É do conhecimento público que a vereadora pelo PSol, ativista das causas sociais, dos direitos humanos, das mulheres, dos negros e dos desvalidos, era crítica da intervenção que aponta armas para a cabeça tão somente da gente da favela, seu lugar de origem. E certamente não apenas por isso.

Tanto que integrava comissão encarregada de fiscalizar a ação político-militar em seu município.

E acusava os motivos, como prova seu artigo publicado na capa da edição impressa do Jornal do Brasil redivivo, da sexta, 16, com o título “Últimas Palavras”. O pretexto de combater o tráfico, a criminalidade, só reforça o preconceito, legitima o desrespeito, distribui licença para matar.

Como se o crime e o tráfico se resumissem ao morro. Como se o comando-central, assim como o consumo monumental, não residisse no asfalto – ou em alguns campos de pouso, convenientemente, rurais.

É mais do mesmo.

Prossegue o colega da Fórum, todavia:

“A narrativa foi sensível. Os repórteres envolvidos conversaram com os familiares, seus companheiros do PSoL, como Marcelo Freixo e Tarcísio Motta, que é o candidato do partido a governador, e conseguiram um furo ao ouvir a namorada de Marielle, a arquiteta Mônica Benício. Houve até militante graúda do PSoL comemorando o fato de Mônica ter falado apenas com o Fantástico, porque isso teria valorizado e humanizado a história delas.

Ao final da matéria, um repórter entra ao vivo de Brasília e na frente do Palácio do Alvorada anuncia que o presidente Temer acabara de encerrar uma reunião com seus ministros e que destinaria “alguns bilhões”, desse jeito mesmo, sem dizer nem quanto e nem como, para a área de segurança pública e para incrementar a intervenção no Rio de Janeiro.”

“Alguns bilhões” insuficientes para quitar dívidas ou bancar despesas com a intervenção este ano, conforme a escalada do que é “o essencial” e matéria com o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, publicadas pelo próprio O Globo.

De outro lado, sobre a reportagem do Fantástico, a esquerda não se emenda. Leva chibata no lombo, é desconstruída diuturnamente e cotidianamente, mas não aprende. Não pode ver um microfone, uma câmera, que se pavoneia, mesmo em dor e luto. Depois reclama.

Então, aos desavisados, Rovai desenha as artimanhas do fazer jornalístico no PIG, para o bem e para o mal.

“Quem conhece a fábrica de salsichas do jornalismo não se deixa enganar:

a) Não se monta um link ao vivo no domingo para cobrir uma reunião do governo sem que se saiba do que se vai tratar nela.

b) Mesmo que isso ocorra, não se “invade” o Fantástico ao vivo ao final de uma matéria como a de Marielle sem que tudo estivesse esquematizado antes.

c) Se a reunião de fato existiu, o governo marcou neste horário exatamente porque já havia acertado com os editores do Fantástico que o anúncio a favor da intervenção se daria após a matéria de Marielle.

Poderia ir listando pontos aqui até a letra z. Mas a capa de O Globo de hoje é a prova dos 9 da manipulação abjeta da narrativa do Fantástico. O jornalista Lendro Uchoas foi quem me chamou a atenção para isso. No destaque principal está a frase; “governo federal vai liberar crédito extra para a segurança”. E a imagem que ilustra a chamada é a de uma das muitas manifestações denunciando a execução de Marielle.”

A disputa pela narrativa sobre o assassinato de Marielle Franco, vereadora do PSol, mulher negra, mãe, feminista e lésbica, não consegue esconder o que está em jogo: quebram o pote, e agora não têm como enterrar os cacos.

Não obstante, sempre se pode matar mais uma vez.

O colega Renato Rovai tem razão quando diz que “a Globo é uma organização perigosa”.

Tenho dito, no mote da campanha do movimento pela democracia da mídia, ou da informação como direito humano, e à qual é preciso somar forças se se quer um País decente: desliga, que o Brasil melhora.

O blogue Intervozes – coletivo pela democratização dos meios de comunicação, ancorado em Carta Capital, também trata da manipulação da narrativa em postagem que foca na descontextualização da luta. O que define, apropriadamente, como “antítese do espetáculo midiático“.

Disseca, também, a plantação de notícias falsas, via redes sociais, que têm sido manipuladas por grupos do tipo MBL. Lembra que ameaça, calúnia, difamação e injúria são crimes previstos no Código Penal brasileiro, sejam por quais meio se manifestem.

E divulga o correio eletrônico de um grupo de advogados que está coletando denúncias a respeito: evelyn@ejsadvogadas.com.br/. Até a manhã da segunda, 19, somavam um total de 14.235 denúncias.

“Entre os usos midiáticos e as tentativas de controle do discurso estão esforços para destruir a imagem e reputação de Marielle, a descontextualização de sua luta contra a intervenção militar, a apropriação do assassinato para deslegitimar os direitos humanos e esforços de despolitizar o crime.”

Ainda sobre a narrativa de desconstrução do símbolo que representa Marielle Franco , da manipulação e do desrespeito que campeia, recorro às palavras de Xosé Hermida, na edição de domingo do El País – clique para ler a íntegra de “O  segundo assassinato de Marielle”:

“Todas as vidas humanas têm valor e todos os crimes são abomináveis, seja o de um presidente de um país, o de um policial ou o de um garoto da favela; o de um negro ou o de um branco; o de uma mulher ou o de um homem; o de um gay ou o de um heterossexual.

Mas nem todos os crimes têm a mesma carga simbólica. Nem a intencionalidade dos assassinos é sempre a mesma. O pistoleiro que mata o dono de uma loja durante um assalto não persegue os mesmos objetivos que o fanático islâmico que executa um desenhista de caricaturas. Apesar de as duas vidas terem valor idêntico e os dois assassinatos serem igualmente condenáveis, o segundo encerra uma mensagem muito mais forte: não pretende só matar uma pessoa, seu propósito é destruir um modo de convivência social.”

Quando um político é assassinado por sua própria condição de político, o assassino pretende algo mais do que matar uma pessoa. Quer acabar com suas ideias e, sobretudo, com seu direito a expressá-las. Se além disso ainda se trata de um cargo eletivo, as balas não são dirigidas apenas contra essa pessoa, mas contra todos aqueles que a elegeram para que as representasse. Por isso um crime político é algo mais que uma morte violenta, é uma tentativa de desestabilização, um atentado à democracia (…)

Quando alguém morre, nas circunstâncias que forem, as pessoas costumam respeitar a dor de sua família, deixar que seus amigos honrem a memória do falecido, demonstrar um pouco de solidariedade humana. Ninguém com o mínimo senso de convivência social se dedica a ofender quem perdeu a vida, muito menos inventar fofocas para sujar sua memória. É também próprio das sociedades civilizadas e é o que fizeram milhões e milhões de brasileiros nos últimos dias.”

É pura iniquidade, que faz sangrar o Brasil, aponta editorial de Carta Maior.

“A sociedade brasileira tem motivos para sentir medo da própria imagem refletida num cotidiano de sobressalto, sangue e dor”, escreve Saulo Leblon.

Compara o desafio que se descortina para o País àquele da Revolução Francesa, e alerta:

“Para derrubar a bastilha da iniquidade, aqui, os sans-culotte precisam se unir e ousar vencer”.

Estancar a hemorragia não é obra que se possa atribuir a uma liderança ou a um partido isolado.

O Brasil necessita urgentemente viabilizar um novo braço coletivo.

Que seja maior do que a soma das partes, capaz de sacudir o torpor da cidadania aturdida, afrontar a soberba da direita, abrir espaço à organização popular e, assim, preencher o vácuo de futuro e esperança no qual a elite pretende asfixiar o destino de mais de 200 milhões de pessoas na oitava maior economia do planeta.

É preciso reunir todos os sans-culotte.

E fazer da campanha eleitoral uma nova referência de credibilidade da população nela mesma. Devolvendo-lhe a confiança e a prerrogativa de assumir o comando do seu próprio futuro.”

Grafite em muro no Rio de Janeiro: ‘Marielle, presente!’ – Foto: Jornalistas Livres

Sim, escolho fechar com Ruy Guerra, cineasta, dramaturgo e poeta, que nesta terça publica belíssimo artigo no Jornal do Brasil desta terça-feira. É como que o resumo da ópera que nos angustia: “Terra sem lei”

“(…)

Marielle foi escolhida a dedo, abatida como um animal perigoso, para servir de exemplo, por representar com vigor os valores de uma nova sociedade em construção. Que luta para existir com dignidade.  

Um crime hediondo, bárbaro, inaceitável. Crime brutal, que é o aviso de outros crimes, na agulha, que busca espalhar aos quatro ventos quem manda de verdade no país e mostrar a implacável punição a quem lhes fizer frente. A própria vida. 

Um desafio direto, desaforado, feito frontalmente, com desprezo, num e a um país que se diz democrático.

O País está assustado, já estava. 

A violência assusta, o desemprego assusta, a fome dos filhos assusta, as balas perdidas e com endereço assustam, as ameaças assustam, a impunidade, a corrupção… Hoje o brasileiro é um ser assustado. 

Mas os assassinos e seus patrões de colarinho branco esquecem-se de uma coisa. 

Somos a maioria. 

A grande e imensa maioria. Uma grande e imensa maioria cansada de ser os sobreviventes deste caos que nos puxa para o abismos do passado e com a dura missão de ter de viver a mesquinhez do dia após dia, cada dia mais desesperançoso.

O que nos resta? 

A nossa indignação. 

E as ruas, as praças, a voz  

Nos resta nós.

Nós, que temos o dever cívico de defender os nossos ideais; nós, que temos o dever moral de não nos deixarmos intimidar; nós, que temos todos os deveres e direitos do mundo de convocar e caminhar junto de quem tem a mesma memória do futuro que queremos. 

Porque Marielle, mataram.”

*****

PS: Na tarde desta terça, no Recife, houve ato inter-religioso em homenagem a Marielle Franco e Anderson Gomes, convocado pelo PSol e pelo coletivo APArtida-Recife.

No Rio, no momento de publicação desta postagem, novo ato político-cultural #MarielleVive e #AndersonPresente começava, reforçando que não só Marielle era contra a intervenção militar.

“Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem mexeu com a Marielle atiçou o formigueiro”

Eis o vídeo compartilho via FB/Mídia Ninja


Um comentário sobre “O simbolismo do assassinato de Marielle, a desfaçatez e a estupidez galopantes, e o que nos resta

  1. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    A quadrilha não vai apear assim tão facilmente do poder que surrupiaram de nós. Fica esperto!
    #LULALIVRE
    #LULALIVRE
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2018/03/20/a-quadrilha-nao-vai-apear-assim-tao-facilmente-do-poder-que-surrupiaram-de-nos-fica-esperto-lulalivre-lulalivre/

    Alguém aí dúvida de que o circo está armado?
    Vão prender o Lula e vão fazer um estardalhaço mundial com isto.
    A quadrilha não vai apear assim tão facilmente do poder que surrupiaram de nós.
    Fica esperto!…

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