Um olhar qualificado sobre o Irã, em tempos de revolta, trapalhadas e desinformação

por Sulamita Esteliam

Nem se preocupe que não me atrevo a tamanho propósito. Simplesmente, após a ausência da rebordosa de semana festiva, quero dizer que estamos de volta para iniciar nova jornada.

Recomeçamos com texto do colega de lides e amigo mineiro, Eduardo Nunes Campos, sobre o assunto, atualíssimo. Publicado originalmente no FB do coletivo Jornalistas Livres.

A meu ver, análise substanciosa sobre assunto que está na boca do povo, em toda e qualquer esquina do país: o cabo de guerra – econômico, bélico e mortal -, capitaneado, como sempre, pelos Estados Unidos, desta vez contra o Irã, via Iraque, e que coloca na rota de colisão, ao menos, a outra potência armamentista, a Rússia.

Vamos esquecer o papelão-Brasil, porque não vale à pena dissertar sobre asneiras. Ainda que elas possam vir a ter consequências sobre o lombo de todos nós. Mas, por ora, apenas cruzemos os dedos.

O artigo associa, segundo as palavras do autor, o assassinato do general iraniano, a mando de Trump, e seu contexto geopolítico, aos acontecimentos internos no Irã.

Dudu, como o tratamos na intimidade, é jornalista e advogado. Homem maduro, culto e viajado, e já visitou a terra dos aiotolás em tempos recentes e lá mantém contatos de amizade.

Modestamente, ele ressalta que não é um especialista no assunto. Ora a plim-plim está repleta de especialistas que dizem o que os filhos do Roberto Marinho querem para embotar consciências.

Diante de rasgados elogios de coleguinhas, vários e diversos, com os quais partilhou o artigo, meu amigo diz, simplesmente:

Espero apenas ter conseguido mostrar um pouco do que captei no país, já que, como disso, não sou nenhum especialista na matéria.

Ao texto. enfim:

Irã terá apoio popular em resposta ao assassinato de Soleimani

Não importa que o inimigo seja incomparavelmente mais poderoso. Importa, sim, não se deixar humilhar pelo Império e seus interesses expansionistas

por Eduardo Campos – no Jornalistas Livres

A mídia ocidental hegemônica sempre comprou a narrativa contemporânea do Império, segundo a qual o Irã é um país satânico. Não por acaso, George Bush, então presidente dos Estados Unidos, incluiu o Irã no tripé que caracterizou, em 2002, como “Eixo do Mal”, que contava ainda com Iraque e Coreia do Norte. Da “ameaça” do Iraque, o Império se livrou já no ano seguinte, invadindo o país e derrubando seu governo. A Coreia, continua levando em banho-maria, tendo Trump participado, nos últimos anos, de um
jogo cênico bilateral, simulando falsos acordos de paz. Já o Irã, este não apenas não se dobrou, nem sequer esboçou fazê-lo, muito
embora tenha se disposto a celebrar um acordo de não-proliferação de armas nucleares, com as maiores potências do mundo, reduzindo seu estoque de urânio enriquecido e adotando outras medidas afins. O acordo permitiu acabar com o embargo comercial imposto pelos Estados Unidos e seus aliados ao país dos aiatolás, que enfrenta, desde então, sérios problemas econômicos.

Foi, contudo, rompido unilateralmente por Trump, em 2018, a pretexto de que não estaria conseguindo cumprir seu objetivo de conter a ameaça nuclear. O Irã não se curvou à chantagem estadunidense, permitindo-se, ao contrário, relaxar com cláusulas do pacto, diante da retomada das sanções pelo Império. O novo embargo, contudo, voltou a provocar grande impacto na economia do
país, que ainda não havia se recuperado da crise e viu se agravarem as restrições à venda de seu petróleo e ao seu sistema bancário.

O objetivo de Trump, na verdade, mais que o histórico interesse dos Estados Unidos no petróleo do Oriente Médio, foi o de conter o avanço da influência iraniana na região, já bastante acentuada no Iraque, na Síria, no Líbano e no Iêmen, tendo como contraponto Israel e a Arábia Saudita. O assassinato do general Soleimani, no último dia 3, se enquadra nesse contexto. Soleimani foi o principal articulador da expansão da influência iraniana no Oriente Médio nas últimas décadas, ele que, em 1998, assumiu a direção da Força Quds, divisão da Guarda Revolucionária Iraniana responsável por ações militares extraterritoriais. Não por acaso era considerado o segundo homem mais forte do país, abaixo apenas do Aiatolá Kamenei, líder supremo, e acima mesmo do presidente Rohani e do líder do Parlamento.

As expectativas, agora, se voltam para a reação do Irã e de seus aliados na região, em face do atentado terrorista perpetrado pelos Estados Unidos no território do Iraque, que vitimou também importantes líderes iraquianos. A primeira resposta importante foi a decisão do Parlamento iraquiano, tomada neste domingo, 5, de pedir ao primeiro-ministro do país a expulsão das tropas
estadunidenses e aliadas de seu território. Como a proposta partiu do próprio primeiro-ministro, não há dúvida de que será implementada, tornando-se a primeira vitória iraniana na contraofensiva que se anuncia.

Ao lado dela, o Irã já anunciou, também neste domingo, que não mais se subordinará às restrições para enriquecimento do urânio, muito embora esteja disposto a continuar sendo monitorado pela Agência Internacional de Energia Atômica, vinculada à ONU. O país condiciona a revisão da decisão à suspensão das sanções comerciais lideradas pelos Estados Unidos. O regime iraniano, na verdade, está com um abacaxi na mão, e saber descascá-lo é essencial para que o país e seus aliados não sofram revezes ainda maiores. Não pode deixar de dar uma resposta contundente ao assassinato de seu líder, sob pena de se desmoralizar, não apenas na região, mas, sobretudo, diante de seu próprio povo. Corre o risco de, ao fazê-lo, sofrer novos ataques, tendo Trump já ameaçado bombardear o país, em caso de represália a alvos americanos.

Trump, por sua vez, também não está em situação confortável, já que disputa a reeleição no fim deste ano e seu discurso populista de direita sempre incorporou o combate às guerras, focando nos interesses internos do país, como querem os seus concidadãos. O assassinato de Soleimani foi, na verdade, uma jogada de grande risco. Se não houver reação de impacto, sai fortalecido ainda mais para o pleito, somando-se sua demonstração de força à boa situação econômica vivida pelo país. Uma reação dura, contudo, tende a 
provocar nova ofensiva de sua parte, fugindo ao controle por ele planejado e com importante potencial de desgaste junto ao seu eleitorado.

Embora não se possa prever, com o mínimo de segurança, o que acontecerá nos próximos dias, não é razoável supor que o Irã se absterá de novas medidas, em contraponto ao ataque sofrido. As possibilidades aventadas são múltiplas, desde a mais arriscada de todas, de atingir alvos estadunidenses na região, até a guerra cibernética, área em que o país vem se especializando e já possui força considerável, passando por ações no Estreito de Ormuz, por onde transitam de 30% a 40% do tráfego de petróleo do mundo, e ataques a aliados dos Estados Unidos, particularmente Israel.

Um dado nesse jogo de xadrez não pode ser desconsiderado: o apoio do povo iraniano ao enfrentamento do país aos interesses hegemônicos estadunidenses. Os iranianos têm um grande orgulho da história de seu país, o que impulsiona seu espírito de defesa da soberania nacional. Este sentimento não se confunde com apoio ao regime teocrático que se impôs ao país com a Revolução Islâmica de 1979. Domina tanto os que sustentam o regime, quanto a crescente parcela que o rejeita e que aspira por liberdade e democracia.
O povo iraniano quer paz, mas sabe que ela não será alcançada com a capitulação dos interesses nacionais, diante dos constantes ataques dos Estados Unidos contra o país e seus aliados na região. Defensores e opositores do regime se unem no combate à política hegemonista do Império.

Além de seu espírito nacionalista, todos sofrem, no dia a dia, as consequências das sanções econômicas impostas ao país. A inflação e o desemprego estão fora de controle. As filas nas casas de câmbio não dão trégua, evidenciando o enfraquecimento do rial, moeda nacional, e a busca de um mínimo de segurança no dólar e no euro. Praticamente não se vê mendicância no Irã, mas as condições de vida da população se deterioram de maneira progressiva. O regime dos aiatolás manteve a política de concentração de riqueza da monarquia que substituiu, liderada pelo Xá Reza Pahlev, ainda que o dinheiro tenha mudado de mãos. As desigualdades, agravadas pela crise, potencializam o descontentamento com a teocracia vigente.

A sociedade iraniana se encontra em estado de ebulição. Parte expressiva da população percebe claramente que o regime vem utilizando o manto religioso como instrumento de manipulação das consciências e de sua própria manutenção. As mulheres já se rebelam contra a opressão a que são submetidas. Já se veem, com certa frequência, manifestações públicas de contestação ao uso do hijab, o véu obrigatório que cobre suas faces. Os jovens querem liberdade. O álcool, proibido, circula com desenvoltura crescente. Muita gente, em contato com turistas, critica abertamente o regime, mesmo tendo a consciência dos cuidados necessários para não publicizar em demasia suas opiniões. Alguns dizem mesmo que tudo o que lhes é proibido faz a festa dos aiatolás, como orgias regadas a drogas e álcool.

Tudo no Irã parece ter duas faces, uma interna, outra externa, contraditórias. Em suas casas, na intimidade, as pessoas se dão o direito de ser e agir livremente, como lhes convém; nos espaços públicos, transformam-se, por instinto de sobrevivência. Até mesmo a arquitetura iraniana simbolizaria esta dualidade: por fora, a simplicidade; por dentro, a suntuosidade, como se pode verificar no complexo de palácios de Reza Pahlev, transformado em museu.

Toda transgressão é passível de prisão ou mesmo de morte, dependendo de quão ofensiva ao Islã é considerada. Todavia, segundo alguns iranianos, há muito já se percebe um certo jogo de faz de conta em relação a certas práticas. A proibição às bebidas alcoólicas, por exemplo, seria um pouco mais relaxada em Shiraz, onde a produção de vinho se iniciou em 2500 a.c. O mesmo aconteceria com a maconha. Em ambientes internos, mesmo públicos, mulheres de despem dos véus. Até o homossexualismo feminino seria tolerado, em alguma medida, enquanto o masculino resultaria em morte implacável. Na verdade, a mudança das mentalidades e as lutas que se travam em favor da modernização da sociedade acabam por ser, ainda que de forma limitada, absorvidas pelo regime. A política de linha dura já não se sustenta com facilidade. Os mais jovens querem conhecer outras possibilidades, mesmo sabendo de sua existência apenas pelas mídias sociais, cujas restrições ao acesso acabam conseguindo burlar, e por contatos com estrangeiros. Os mais velhos se dividem, entre os que têm saudade daquilo que identificavam como liberdade na época do Xá e os que se apegam aos dogmas religiosos supostamente encarnados pelos aiatolás.

É fato que a mídia ocidental conseguiu demonizar o Irã perante a opinião pública mundial, como parte da estratégia hegemonista do Império estadunidense. O que ela talvez não se dê conta é de que, a despeito das contradições internas do país e da fratura que ocorre em seu tecido social, em que os anseios por mudanças profundas se contrapõem ao conservadorismo e à ditadura dos aiatolás, os iranianos se unem quando se trata de defender os interesses nacionais e de se contrapor à dominação que os Estados Unidos pretendem impor à região. Sabem, como ninguém, que a política externa estadunidense é diretamente responsável pelo surgimento de grupos como a Al-Qaeda e o Estado Islâmico, e que o Império navega conforme a corrente.

O Irã está para explodir, mais dia, menos dia, por suas contradições internas. Onde vai parar, os próprios iranianos não se arriscam a dizer. Sabem apenas que a ditadura religiosa se enfraquece a cada dia e que dificilmente se prolongará por muito tempo. É provável, contudo, que, neste momento, os conflitos sejam colocados de lado, e que Estado e sociedade se unam para defender sua história e sua soberania. Não importa, para o povo mais simpático do mundo, que o inimigo seja incomparavelmente mais poderoso. Importa, sim, não se deixar humilhar pelo Império e seus interesses expansionistas.

Que o digam as multidões nas ruas no funeral de Soleimani!

*******

Fecho com o vídeo dos funerais do general Soleimani e seu parceiro também morto no ataque dos Estados Unidos no Iraque.

Impressionante.

Recebi agora à noite, depois de ene tentativas minhas de remessa, por meios diversos, todas infrutíferas.

Traduz, ainda na visão de Dudu, o grau do “fanatismo religioso no Irã. Assustador, ainda que invoque a resistência ao imperialismo e seus aliados no Oriente Médio”,

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