O racismo de cada um e de todos nós oprime a democracia

por Sulamita Esteliam

Bombou nas redes, com repercussão negativa, o anúncio da Bombril de esponja de aço de nome “Krespinha”, que o marketing tratou de definir coo “ideal para limpeza pesada. A hashtag #BombrilRascista esteve entre os assuntos mais comentados do Twitter na manhã desta quarta, 17.

Rápida no gatilho, a empresa usou a rede social para pedir “sinceras desculpas”. Promete retirar o produto de seu portfólio e rever sua estratégia de comunicação, de modo a refletir “ainda mais” seu “compromisso com a diversidade”.

Menos mal que a Bombril tenha pedido desculpas e prometido rever sua estratégia de comunicação de modo a “contemplar mais o compromisso com a diversidade”.

Mas uma esponja de aço de nome “Krespinha”, há 70 anos no mercado -Euzinha nem era projeto ainda – como a própria companhia admite, prova que a naturalização do racismo está incorporada.

Não se trata de ato falho, apenas. Reflete o quão impregnada de racismo é, não está, a nossa sociedade, e não é de hoje.

Chequei no sítio da empresa: a esponja não está mais no rol de produtos para limpeza pesada. Livrar-se do racismo estrutural, porém, vai levar mais tempo e trabalho de educação para a igualdade.

A democracia real brasileira de que tanto falam é uma falácia, que vem de tempos imperiais, e não há negacionismo de herdeiros da coroa, que inexiste, que mude os fatos.

Estão aí as estatísticas das mortes por coronavírus e por violência policial a esfregar na nossa cara branca a realidade crua.

No domingo, o Movimento Negro lançou campanha, com manifesto de página inteira publicado nos principais jornais do país.

“Qualquer projeto ou articulação por democracia no país exige o firme e real compromisso de enfrentamento ao racismo. Convocamos os setores democráticos da sociedade brasileira, as instituições e pessoas que hoje demonstram comoção com as mazelas do racismo e se afirmam antirracistas: sejam coerentes. Pratiquem o que discursam”

Imagem da publicação do manifesto, como informe publicitário, na Folha de São Paulo

O manifesto foi lançado com 132 assinaturas, uma para cada ano da abolição inconclusa. Dentre os assinantes, não-negros como Fernando Haddad, professor e advogado, ex-candidato à Presidência da República pelo PT. Clique para assinar também, e participar da campanha.

O racismo estrutural escancara aquilo que, no plano institucional é mal-disfarçado, e no plano individual é negado, até para si próprio. Todavia, nos termos do manifesto, a prática é o critério da verdade.

E é sobre isso que fala o texto que compartilho abaixo, com autorização do autor, Eduardo Paysan, um homem branco. Mestre em Serviço Social e advogado especialista em Direitos Humanos, tornou-se amigo nas redes, a partir de entrevista que fiz com ele anos passados, reproduzida aqui no blogue.

 

Desconstruindo o Opressor que há em mim

por Eduardo Paysan Gomes – no Facebook/Jornalistas pela Democracia – PE

Meu sentimento é de que essa mensagem deveria ser óbvia, mas tem gente que não quer entender. Então, a gente desenha, quase…

Difícil se assumir Racista, querendo negar seu próprio Racismo… Pois bem, a desconstrução só acontece se a gente se permite! Todos nós fomos formados em uma sociedade Racista! Estamos impregnados do Racismo. Tanto que ele é banalizado, naturalizado, justamente por ser tão escancarado na nossa realidade brasileira!!!!!!!!!!!!

E se você pertence a algum grupo vulnerável e não se percebe como tal ou nega a opressão que sofre, só te digo pra ter mais atenção, pois está cumprindo o Script que traçaram pra você direitinho, de ser dócil e pacífico diante da dominação e, às vezes, até agradecido de ser “incluído” por isso!

Você é gay que faz piada com gay?! Mulher que faz piada machista?! Negro/a que faz piada racista?! Pois é! Por isso eles são fortes! Você ainda está dando mais força pra sustentar a opressão de que é vítima! Sabe por que? Eles te ensinaram que é vitimismo ou mi mi mi lutar por igualdade, por seu direito de se fazer respeitado!!!!!!!!! Aí você repete que é só uma brincadeira e não tem nada demais!!! Acorde!!!

Sei que é duro assumir uma dor que é tão grande que a gente não sabe se dá conta de olhar pra ela. Então o jeito que a gente vai aprendendo a lidar com ela é fingir que essa dor não está ali. Fingir que ela não existe e ir levando!!! Só que se a gente não se levanta e não diz basta, você vai continuar a ser violentado/a e se violentando também!!!!

Por isso, o melhor é olhar pra essa dor pra poder cuidar desse machucado, sarar a ferida, mesmo que fique a cicatriz. Mas foi curada! Senão a ferida vai ser sempre aberta, novamente! Reproduzimos uns contra os outros essa opressão! Por isso Paulo Freire, através do livro “A Pedagogia do Oprimido” diz que temos que tirar de dentro de nós o Opressor.

Mesmo o Oprimido cultiva em si o Opressor. É um processo complexo se dar conta disso e passar a desconstruir essa realidade! Assim explica-se porque as pessoas não devem ter acesso à Cultura, à Educação, com um viés de liberdade e autonomia!!!!

A Educação bem quista pela nossa Sociedade Autoritária e Hierárquica é ensinar a disciplina, no sentido da obediência e até da subserviência!!!!!! Seja agradecido, ainda, se não for duramente punido só por pensar em se rebelar contra o que te oprime!!!!

Entende?! Reflita a respeito, com carinho… Ouça lá no fundo do seu coração a centelha que te diz que você não merece esse tratamento, que não respeita a sua dignidade como pessoa e dê um basta!!! Venha revolucionar nossa forma de conviver em sociedade!!! Não, a desigualdade não é natural! Ela é naturalizada! Assim, ela é construída, socialmente…

 

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