Um memorial “vivo e ativo” para as vítimas de Brumadinho

por Sulamita Esteliam

Semana passada, recebi num grupo de amigos mineiros no zap-zap o vídeo do projeto vencedor para construção do Memorial Brumadinho: espaço de memória em homenagem às quase três centenas de vítimas fatais do rompimento da Barragem da Vale naquele município da Região Metropolitana de Belo Horizonte, a Barragem Córrego do Feijão. Posto mais abaixo.

O projeto leva assinatura de um dos mais prestigiados escritório de arquitetura do meu estado e do Brasil, o GPA&A – Gustavo Penna & Associados, fundado pelo arquiteto Gustavo Penna. Ele assina, por exemplo, obras como o useu da Imigração Japonesa, em São Paulo; a Galeria Walls, em Beagá; e Museu de Congonhas.

É de sensibilidade notável o projeto do Memorial. Uma proposta arquitetônica que ao tempo em que preserva a memória dos mortos, busca o acolhimento das famílias das vítimas e o usufruto coletivo e reflexivo do espaço.

Mais importante, se abre à participação da comunidade, num tema de extrema delicadeza:

“Para que este memorial seja vivo e ativo nos abrimos à participação da comunidade na sua constituição, a fim de que ele se materialize como espaço de pertencimento, de identificação, de coletividade.”

Sábado passado completou-se um ano e meio do desastre ambiental genocida, que deixou Minas Gerais e o Brasil, mas sobretudo o município em estado de choque.

Uma avalanche de rejeitos tóxicos e água imprópria que engoliu gente, edificações, matas, animais, soterrou o Córrego do Feijão, contamina o Rio Paraopeba, instalou o caos em Brumadinho e a desolação e pode espalhar doenças ao longo do curso do Paraopeba, até pelo menos, e por enquanto, cerca de 100 quilômetros a jusante.

Este é um trecho da crônica que escrevi aqui no A Tal Mineira nos 10 dias do tragédia-crime.

A escolha do projeto do Memorial foi feita pela Avabrum – Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão Brumadinho, em assembleia virtual em 26 de março último.

Quando assisti o vídeo, lembrei da sugestão do amigo jornalista Márcio Metzker, a quem me referi no mesmo texto, e pensei que ele deve estar feliz com a propagação e concretização, ao menos em parte, de sua ideia-força.

Escrevi, em 5 de fevereiro de 2019:

Um amigo querido, atento às emoções e à razão, sugere que se pare de revolver a lama endurecida que cimenta corpos e destroços no Córrego do Feijão e em Parque da Cachoeira, em Brumadinho.

Ao invés, que se plante flores e grama sobre o rastro de destruição e morte. Nascerão!?

Como nos cemitérios-parques, e na possibilidade de jazigos ou campas identificadas, que se crave ali um memorial em granito, com nomes em metal de todas as vítimas do massacre da Vale.

A proposta do meu amigo mineiro, Márcio Metzker é o nome dele, é que a desgraceira se transforme num imenso jardim. 

Que se plante bancos sob árvores para que as famílias e amigos possam, sim, chorar suas perdas, orar por sua gente encantada e se consolar na saudade das boas lembranças.

– Vai doer, mas é preciso entender que os mortos já estão sepultados e devem descansar em paz.

É uma ideia bastante razoável, embora creia ser difícil superar a falta de despedida.

A proposta do Metzker tem uma segunda parte, bem objetiva e a um só tempo lúdica e metafísica: o poder público obrigar a Vale a descomissionar as centenas de barragens espalhadas Minas e Brasil afora, transformando-as em locais de lazer, de descanso e meditação.

A última parte continua valendo. Tarefa para deputados inteligentes e sensíveis se dedicarem.

O Memorial Brumadinho, é projetado para cerca de 1.220 metros quadrados de área construída em terreno de oito hectares, incluída área de preservação, escolhido pela Associação e adquirido pela Vale. A empresa vai arcar com os custos da construção.

O processo de seleção teve o apoio técnico da arquiteta e urbanista Jurema de Sousa Machado, ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), e do museólogo Marcelo Mattos Araújo, ex-presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), informa a Avabrum.

Deixo o vídeo. O texto, narrado em voz acolhedora, dispensa comentários.

 

 

 

 

 

 

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