A dor não passa: 10 dias do desastre-genocídio da Vale em Brumadinho

À margem do Paraopeba, a desolação – foto: Lucas Hallel/Ascom-Funai
por Sulamita Esteliam

Dez dias passados, as 142 mortes confirmadas, das quais 122 identificadas, não nos autoriza a ter esperança de encontrar sobreviventes entre as 194 “desaparecidas” no desastre e genocídio da Vale em Brumadinho.

A cerimônia de adeus promovida pelos bravos soldados do Corpo de Bombeiros de Minas, auxiliados por companheiros de outros estados, na sexta-feira, passada, foi simbólica.

Pétalas de rosas jogadas dos helicópteros essenciais ao resgate dos tragados pela lama da irresponsabilidade – para que os mortos descansem em paz.

Agora é a vez das retroescavadeiras, que ainda cavam o território, a mexer com o sossego e os juízos das gentes – as que se foram para nunca mais e as que ficaram para até depois… Até quando?

É de uma tristeza e revolta atrozes acompanhar, mesmo à distância, a desolação das pessoas atingidas pelo desastre-genocídio da Vale em Brumadinho.

Um município inteiro em estado de choque, a testar sua resiliência movida à força interior e à solidariedade.  Combustíveis poderosos, que tendem a esgotar-se quando não resultam em horizonte visível.

Renascer da lama e do caos é um processo que exige energia superior. É fundamental vislumbrar a luz. 

A gente só pode tentar se colocar no lugar das pessoas que perderam seus entes queridos, suas casas,  seu modo de sobrevivência, sua paz para a tsunami de lama e minério, para a irresponsabilidade do capital movido pela ganância.

Tudo se repete como pesadelo elevada à undécima potência, e que mexe com os sobreviventes de outros abusos que tendem a se diluir na memória, através do tempo, mas que não podem ser esquecidos.

Até porque, a repetição cruel, assassina e impune assombra viventes à espreita das possibilidades indesejáveis.

Minas são várias, e pode até soar poético. Rios de minério em trânsito e tráfego de influências a rodo. Poços de riquezas e rejeitos à beira da eclosão.

Profético Drummond.

Milhares de pessoas vivem sob barragens a montante, num tempo em que a tecnologia assopra sobre nossas ventas a nossa obsolescência.

É inadmissível que ainda hoje se faça a opção pela tragédia anunciada. 

Uma avalanche de rejeitos tóxicos e água imprópria que engoliu gente, edificações, matas, animais, soterrou o Córrego do Feijão, contamina o Rio Paraopeba, instalou o caos em Brumadinho e a desolação e pode espalhar doenças ao longo do curso do Paraopeba, até pelo menos, e por enquanto, cerca de 100 quilômetros a jusante.

No fim do caminho, tem o São Francisco, que vem bater no meio do mar do Nordeste…

A unidade nacional dispensa contaminação das água, a socialização das doenças, da miséria e da destruição.

Um amigo querido, atento às emoções e à razão, sugere que se pare de revolver a lama endurecida que cimenta corpos e destroços no Córrego do Feijão e em Parque da Cachoeira, em Brumadinho.

Ao invés, que se plante flores e grama sobre o rastro de destruição e morte. Nascerão!?

Como nos cemitérios-parques, e na possibilidade de jazigos ou campas identificadas, que se crave ali um memorial em granito, com nomes em metal de todas as vítimas do massacre da Vale.

A proposta do meu amigo mineiro, Márcio Metzker é o nome dele, é que a desgraceira se transforme num imenso jardim. 

Que se plante bancos sob árvores para que as famílias e amigos possam, sim, chorar suas perdas, orar por sua gente encantada e se consolar na saudade das boas lembranças.

– Vai doer, mas é preciso entender que os mortos já estão sepultados e devem descansar em paz.

É uma ideia bastante razoável, embora creia ser difícil superar a falta de despedida.

A proposta do Metzker tem uma segunda parte, bem objetiva e a um só tempo lúdica e metafísica: o poder público obrigar a Vale a descomissionar as centenas de barragens espalhadas Minas e Brasil afora, transformando-as em locais de lazer, de descanso e meditação.

Claro que a medida não a redimiria dos crimes que tem cometido, anos a fio, sobretudo desde a privatização. Não adianta prender engenheiros, eles são técnicos, mas são bagrinhos.

A responsabilidade é corporativa, tem que ser cobrada e devidamente paga por quem deve, toma as decisões e lucra com a desgraça alheia.

A lentidão das soluções é agravante do descaso que caracteriza o crime, com dolo. É óbvio que cabe ao sistema de Justiça, à luz do bom Direito, investigar e definir as responsabilidades.

Mas veja bem, Bento Rodrigues e seus mortos e desabrigados da Samarcio/Vale/BHP, na Mariana ancestral, e a gente atingida ao longo de centenas de quilômetros até a foz do Rio Doce, no Espírito Santo, só estão a pouco mais de três anos passados. 

Nada se resolveu em benefício das vítimas, que padecem de vários males, além da dor das perdas humanas e dos prejuízos materiais não ressarcidos. Muito menos, nada se fez pelo rio, ainda acre.

Assista ao vídeo Re No Va: O Crime é Periódico, sobre as consequências do crime da Samarco/Vale/BHP em Mariana. Realizado pelo MAB – Movimento dos Atingidos por Barragem, com apoio do Brasil de Fato/MG, foi lançado nesta terça, 05: 

Em tempo: leio na Revista Fórum, onde capturei a foto que abre esta postagem, que três organizações ligadas à causa socioambiental formalizaram denúncia junto à ONU contra a Vale e o Estado brasileiro pelo crime ambiental ocorrido em Brumadinho.

O documento é assinado pela Conectas, pela Clínica de Direitos Humanos da UFMG e pelo MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens.

Aponta falhas e omissões que resultaram no desastre-genocídio e cobra providências imediatas, e lembram que, desde Mariana, quando rompeu a Barragem do Fundão, de propriedade da Samarco/Vale/BHP,  mantando 19 pessoas, nada foi feito pela mineradora para prevenir nova tragédia.

“As organizações elencam sete medidas urgentes que devem ser adotadas pelas Nações Unidas junto ao governo brasileiro para prevenir que haja danos irreparáveis. Entre elas, está o pedido de informações sobre as medidas de emergência que foram tomadas até agora e as planejadas no futuro, a adoção de ações para impedir a contaminação do rio São Francisco, monitoramento da qualidade das águas e transparência sobre o nível de toxicidade dos resíduos existentes na lama”.

Clique aqui para ler a íntegra da denúncia.

Imagens para não esquecer o desastre foram divulgadas, dias depois, pela TV Globo e outras emissoras. Resgato, a bem da memória:

 

 

 


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