Memória do brasil: O INFERNO É AQUI!

por Sulamita Esteliam

O nosso azar é que o capiroto-presidente, quando intimidado, reverbera maldades por todos os orifícios, e tem cúmplices, e fôlego do demo. Melhor seria se fosse do psicopata o azar, que brasileiros e brasileiras não se intimidassem e o mandasse de volta para o quinto dos infernos, de onde não deveria ter escapulido jamais.

Peço perdão à memória do saudoso Ney Bianchi por malversar a frase com que ele abre o texto sobre o jogo Brasil x França, na Copa de 1958, em Estocolmo, Suécia para a revista Mundo Colorido: “O azar dos franceses foi que os brasileiros não se intimidaram”.

Por esses dias me lembrei do mestre na prática do jornalismo – que já é estrela já se vão quase 23 anos. A gente petiscava no Redondo, bar à beira da Lagoa da Pampulha, após uma entrevista e um rolê pela Casa do Baile. Ele, com aquela malemolência de carioca da gema, me disse:

– Gosto do seu texto, mas vou lhe dar um dica para você se dar bem escrevendo para revista: comece com uma frase completamente aleatória, só depois entre no assunto.

Não preciso dizer que fiquei encantada com o velho repórter. A ponto de provocar ciúmes em meu parceiro de trabalho, Nelson Aranha, fotojornalista sensacional, da mesma geração do Ney.

Em junho de 1958, quando Bianchi cunhou a frase citada, Euzinha ainda não tinha completado 5 anos, e meu pai só morreria cinco meses depois, deixando minha mãe viúva com 26 anos e prole de quatro, pobre. Antes que a filha primeira inaugurasse nova idade e a caçula pudesse engatinhar.

Extrato texto Ney Bianchi Copa de 1958

Pois o Universo colocou Ney Bianchi em meu caminho, vinte e três anos depois: ambos trabalhando para a extinta revista Manchete, da Bloch Editores. Ele um ícone do jornalismo esportivo, Euzinha aprendiz de feiticeira, havia me formado há apenas dois anos.

Era ano de preparação para a escalar a seleção para Copa do Mundo, a concentração seria em Teresópolis, no Rio de Janeiro, mas o técnico era o mineiro Telê Santana.

No que viria a ser o time dos sonhos – que no ano seguinte encantaria o mundo, mas não trouxe a estrela – teria três mineiros, todos no time principal e todos Atlético.

Não resisto à escalação: Valdir Peres (São Paulo); Leandro (Flamengo), Oscar (São Paulo), Luizinho (Atlético) e Junior (Flamengo); Toninho Cerezo (Atlético), Falcão (Roma-ITA), Sócrates (Corinthians) e Zico (Flamengo); Éder Aleixo (Atlético) e Serginho Chulapa (São Paulo).

Faltou Reinaldo, o Rei do Galo. Vetado pelos militares, intimidação aceita por Telê Santana, sob a desculpa de que o craque indiscutível – preferido pelos craques Falcão, Socráticas, Zico e Éder para envergar a camisa 9 – tinha uma série de contusões.

punho-cerrado - o livro do Rei
Para quem quiser conhecer a história do Rei

A missão a que Ney Bianchi se impunha em Beagá era entrevistar Telê, o dono da escalação; Luizinho, pela novidade possível, e o Rei pela dúvida e polêmica. A minha era acompanhá-lo e aprender, com direito a palpite e citação nos créditos. Nelson garantia a fotos.

A ditadura civil-militar vivia seus estertores. Na abertura lenta e gradual, havia o passo do retorno às eleições diretas para governadores, previstas para 1982. Capitais e estâncias hidrominerais só em 1985.

Começou com a Anistia “lenta, gradual e segura”, que incluiu o que deveria ser inaceitável: o “perdão” aos torturadores e assassinos dos opositores do regime.

Essa chaga a gente carrega até hoje, ou os militares não se arvorariam a apoiar um psicopata, expulso dos seus quadros, para voltar à tutela da República.

De qualquer forma, o processo de reabertura gradual foi uma conquista. E deu-se somente a partir da chacoalhada das eleições para o Congresso em 1974. A oposição, que se resumia ao MDB, deu uma verdadeira lavada nas urnas, o que colocou em xeque o projeto político dos militares encastelados no poder.

O regime daria o troco com uma série de casuísmos, que lhe devolveu a maioria na eleição seguinte, menos no Senado. Mas seus alicerces já estavam combalidos.

A ponto de os operários desafiarem a lei antigreve, já em 1978, quando os estudantes também arriscaram a botar a cabeça de fora depois da violenta repressão dos anos anteriores.

Os metalúrgicos de Beagá-Contagem saíram na frente, em 1978, e foram seguidos por Osasco. Depois veio ABC Paulista, em 1979, liderado por Luiz Inácio Lula da Silva.

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Lula comanda assembleia dos metalúrgicos na Vila Euclides, ABC Paulista, em 1979 – Foto: Memorial da Democracia

Tempos de povo lotando estádios, praças e ruas, desafiando os próprios medos em nome da sobrevivência.

Na Colômbia e 2021, o povo está nas ruas lutando por seus direitos. Há dezenas de mortos e feridos. Mas também os há, aos milhares, pela pandemia. O risco de morte, para eles, se equivale, por que o governo é pior do que o vírus.

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Aqui nossa gente tem outra têmpera, moldada pelo instinto de sobrevivência às piores crueldades e frustrações.

Genocídio indígena à frente. A escravidão de africanos por mais de três séculos, apesar da resistência e do sacrifício de tantos. E o “se virar” a que tiveram que adotar os libertos, abandonados pelo sistema, ainda hoje.

Basta olhar os dados dos mortos pela Covid-19, a maioria de pobres e negros, e também indígenas.

Basta olhar a lista de mortos nos massacres, a partir do exemplo recente do Jacarezinho, onde 28 o foram, não há como ser diferente.

Aqui é o país onde a polícia tem licença para matar de bala; e o Estado de vírus, barnárie e fome. Mesmo que, constitucionalmente, seu papel seja o de assegurar a vida, em seu sentido estrito e amplo, em quaisquer circunstâncias.

E há quem comemore, a começar pelo ser que ocupa a Presidência da República. O vice, não fica atrás: repete o mantra falacioso de que “é tudo bandido”.

E os pobres, e os pretos, e os indígenas, e as mulheres que se expludam.

protesto Jacarezinho 2021 - Av Paulista - Mídia Ninja

Este é o país da curra. O estupro coletivo acontece à média de um a cada 100 minutos por dia. São números de 2011-2019, e crescendo 13% desde a ascensão do inominável.

Este é o país onde se queima florestas, se libera terra indígena para garimpeiros armados, se envenena a água sagrada para o consumo dos povos originários.

Um país em que se deixa morrer criança indígena por inanição e falta de tratamento médico.

Há quem diga que falta sangue nas veias da brava gente brasileira. Há controvérsias. Talvez o correto seja dizer esse povo se especializou na “arte de dar um jeito de ficar vivo”.

A história das revoltas, das guerras e conspirações conta a história dos massacres dos nativos, dos gentios, dos pretos, do Zé e da Maria Povinho, dos trabalhadores, quando se levantaram contra a opressão – desde a invasão lusitana.

Conta também a história das revoluções burguesas, onde índios e negros foram usados como buchas de canhão, para defender o interesse do patrão, através dos tempos.

Sem esquecer a maioria de jovens que formaram a resistência massacrada pelo regime militar instalado em 1964, com o clamor equivocado da classe média burguesa e parte da gente operária.

É a história da democracia à brasileira, a partir do nascimento mesmo do Estado brasileiro, como tal. Um Estado cuja primeira Constituição foi escrita pelo imperador e chancelada pelo Congresso. E cuja res-pública é fruto de um golpe militar.

Longa e triste história, que de tempos em tempos se repete como farsa.

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Cena do Democracia em Vertigem – documentário sobre o golpe que depôs Dilma Rousseff – Foto: Captura de tela

Há cinco anos, no 12 de maio, o Senado instalava o processo que redundou na cassação do mandato da primeira mulher presidenta da República, eleita e reeleita, legitimamente: Dilma Rousseff. Uma farsa consolidada a 31 de agosto do mesmo ano.

O mesmo Senado que hoje leva adiante uma CPI para investigar a obviedade dos crimes de responsabilidades perpetrado pelo capiroto-genocida, que, por seus atos, palavras e omissões, carrega no lombo mais de 425 mil vidas, sem contar as subnotificações. Ao menos um terço delas seriam evitáveis.

O relator de agora presidia a Casa em 2016, e votou pelo impeachment, mesmo sem ser obrigado regimentalmente.

As consequências do golpe, que, hoje se sabe, tem seu germe inoculado em 2013, com as jornadas de junho. Não era pelos 0,25 do aumento da passagem, de fato.

Mas a moçada não se apercebeu da cooptação do movimento pela direita, e regada a financiamento e interesses internacionais.

Tudo, com o auxílio desabrido da mídia nativa, arvorada em oposição, depois que seus ungidos se revelaram incompetentes para ganhar no voto três eleições sucessivas. E apesar do chamado “mensalão” de 2005, que não restou provado.

O resto todo mundo sabe. Como no frevo, que amo: “Prenderam Lula, esculhambaram com o país”, mas agora Lula está livre, porque provado foi que “o bandido era o juiz”.

Sua liberdade elegível trouxe desassossego nas hostes do genocida

A eleição do capiroto em 2018 só foi possível porque Lula foi impedido, por todas as forças, inclusive o STF, de concorrer.

E o desmantelo também foi permitido, quando não se tomou as providências para caçar a chapa por irregularidades eleitorais patentes.

Afundamos no pântano da vergonha, do lodaçal sanitário, da volta da fome, do genocídio de pobres, pretos e indígenas, mas não só.

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Projetemos – cartunistas pelo impeachment

Talvez por isso, algumas pedras voltam a se mover, ainda que em velocidade de lesma, diametralmente oposta ao tamanho do desespero.

Há pelo menos 100 requerimentos de impeachment contra o presidente-genocida, acumulados desde seu primeiro ano de desgoverno e triplicados a partir da negação da pandemia.

E esta semana mais um manifesto dirigido ao Congresso, puxado por artistas. Já soma quase 30 mil assinaturas, está aberto à sociedade, e veio corroborar o inadiável.

Há, por tudo, ao menos duas notícias-crimes em exame no STF e na PGR.  Um deles, corroborado pela assinatura de 1,5 milhão de pessoas, reunidas pelo movimento Vida Acima de Tudo. A PGR é contra, mas os demandantes recorreram, e a bola está com o plenário da Corte.

Ao fim e ao cabo, tudo depende de autorização do Congresso Nacional. E lá não se pode ter ilusões: é  onde a maioria tem boca superlativa e ganância saciada apenas com benesses.

Cargos e dinheiro são fornecidos a rodo pelo Planalto. A última investida tem até “orçamento secreto”, e ilegal: o “bolsolão” ou “tratoraço”.

Corrupção, em bom português. E era para acabar com a mamata.

Bolsolão

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