Lucília Rosa agora é estrela, vermelha. Presente!

por Sulamita Esteliam
Lúcida, aos 98 anos - fotos: luciliarosavermelha.blogspot.com/
Lucília, aos 19 anos

Não pretendia blogar no Carnaval. Mas não podia deixar de registrar a passagem de Lucília Rosa para o universo das estrelas, aos 98 anos – em plena madrugada de sexta, 04. Presente! É o que se diz quando se morre um/a comunista. Clique para ler sobre Lucília , mineira guerreira, e o livro, neste blogue. E aqui para saber mais sobre essa mulher revolucionária, do Triângulo Mineiro.

Meu amigo jornalista e escritor, Luiz Alberto Molinar, biógrafo da nossa Rosa Vermelha, deixou a informação nos comentários da última postagem.  Transcrevo:

MORREU AOS 98 ANOS A COMUNISTA LUCILIA ROSA.

“VOU DE ALMA LAVADA. ESTOU FELIZ!”

A “comunista convicta” – como sempre fazia questão de reafirmar – Lucilia Soares Rosa, 98 anos, morreu de causa natural. O velório está ocorrendo na Funerária Irmãos Pagliaro, na av. Dr. Fidélis Reis, e o enterro será às 12h, no Cemitério Medalha Milagrosa, na Univerdecidade. Lucilia deixa dois filhos dentistas: Calixto Rosa Neto, que foi vereador pelo PSD em Campo Florido (MG), de 1963 a 1964, e depois em Uberaba, de 1983 a 1988, pelo PMDB, e Moizés Soares Rosa, diretor a cooperativa Uniodonto, além 13 netos, oito bisnetos e uma trineta.

Ela será homenageada pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, no final deste mês, juntamente com nove mulheres, entre elas Clara Charf, ex-mulher do deputado baiano constituinte de 1946 e guerrilheiro, Carlos Marighela.

Lucilia Rosa, aos 35 anos, foi uma das 17 primeiras vereadoras eleitas em Minas. Ela era de Uberaba, mas morava em Campo Florido, a 70km, onde conquistou, em 1947, uma cadeira da Câmara Municipal. Foi escolhida pelo PSD, porém era militante do PCB (Partido Comunista do Brasil) desde os 18 anos, quando filiou-se e foi batizada como “Lucrécia”, seu “nome de guerra”.

Ousou e enfrentou preconceitos ao ligar as trompas, em 1939, depois de ter dois filhos. Essa operação somente realizava-se na Europa. Foi presa duas vezes. Em 1949, ao cuspir no rosto do delegado, em Campo Florido. Ficou detida por 13 dias ao participar de manifestação contra o envio de jovens brasileiros para a Guerra na Coreia. Foi em 1951, em Uberlândia. Morou, em São Paulo, durante 15 anos, de 1958 a 1972, quando trabalhou como doméstica, entre outras patroas, para a deputada federal Ivete Vargas (PTB), sobrinha do presidente Getúlio Vargas, que conseguiu-lhe emprego na Caixa Econômica e nos Correios. Rejeitou e manteve-se na profissão que possibilitou-lhe as formaturas, em odontologia, dos dois filhos.

Ela chegou aos 98 anos, em agosto de 2010, e tinha memória extraordinária. Deixou um acervo rico de documentos, entre eles, correspondências que manteve com Luiz Carlos Prestes, secretário-geral do PCB entre os anos de 1930 e 1980, e com Anita Leocádia, filha dele com Olga Benário, morta em campo de concentração nazista, na Alemanha. Lucilia mantinha contato permanente com ela há mais de 30 anos. Moraram juntas durante dois anos e meio, entre 70 e 72, clandestinamente, durante os mais sangrentos da ditadura militar, em São Paulo. Passava-se por tia de “Alice Nascimento”, codinome de Anita. Residiu também, durante três meses, em 1962, com a família de Prestes, a quem ajudava a cuidar de seis dos sete filhos.

Sua vida vai ser registrada em livro: Lucilia – Rosa Vermelha. O projeto de pesquisa sobre sua história surgiu durante visita do presidente da Câmara de vereadores de Uberaba, Lourival dos Santos (PC do B), a ela. Estava, em 2006, com a saúde debilitada após 25 dias em coma. Ao ser indagada sobre seu sonho, disse que gostaria de ter sua trajetória publicada em livro. A partir daí a diretora de Comunicação do Legislativo, Evacira de Coraspe, coordena o trabalho desenvolvido pela historiadora Luciana Maluf Vilela e pelo jornalista Luiz Alberto Molinar. A obra, que será lançada brevemente, vai revelar a personalidade, os caminhos de Lucilia, de libertários, anarquistas, socialistas. Enfim, a origem dos movimentos populares e de seus protagonistas em Uberaba e região, desde o final do século 19 até 2000.

“O Capital” e a “Bíblia”

Lucilia era filha de anarquista. Não foi batizada na igreja. Nunca pintou as unhas e nem se maquiou. Namorou muitos. Dois primos a pediram em casamento. Foi costureira de vestido de noiva. Casou por contrato com homem casado. Foi professora, faxineira, doméstica e cozinheira de ‘mão cheia’. Ateia desde criancinha. Espiritualista aos 90 anos: “Há algo mais. Eu não acredito em Deus, mas alguns amigos acreditam e eu acredito neles”.

“O Capital” – principal livro sobre as ideias socialistas – foi sua cartilha durante décadas, mas agora gosta que leiam a “Bíblia” para ela. Dedicou toda sua vida à causa revolucionária. Lutou por uma sociedade justa para todos. Lucilia significava solidariedade, sinceridade. Disciplinadora, porém doce, amável, às vezes, até angelical. Gostava muito de conversar. De contar causos seus e dos outros. Todos sem censura.


3 comentários sobre “Lucília Rosa agora é estrela, vermelha. Presente!

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