Visita de Dilma a Cuba incomoda, ainda

por Sulamita Esteliam
A presidenta chega a Habana, dia 30 - Roberto Stuckert Filho/PR

Na fila do supermercado, agora pela manhã, um senhor de seus presumíveis 70 anos, brinca, simpaticamente, com a moça do caixa; parece ser habitué da loja. Entrementes, em direção oposta, manifesta ao freguês que vem logo atrás sua crontrariedade: “O que Dilma foi fazer em Cuba? Fidel é um degenerado, matou muita gente, acabou com a ilha …”

O homem provocado, na faixa de seus 40 e tal, ameaça concordar com o interlocutor, mas olha na direção da fila vizinha, e seu olhar se encontra com o meu, atento à conversa – vício de repórter. Não sei porque, decide sair pela tangente: “É, aquilo lá é complicado…!”

Talvez tenha lido nos meus olhos, ainda que estes sorrissem, o reflexo do que meus botões cismavam:

“Coitado! Viu o galo cantar e não sabe onde! Ou é um milico reformado, com saudades dos tempos em que davam as cartas a peso do terror…” Não se pode iludir-se com as simpatia de alguns velhinhos. Como dizia a minha tia, “os canalhas também envelhecem”.

O assunto morreu na fila ao lado, mas meus botões insistiam em se perguntar: “E os mortos e “desaparecidos” da nossa ditadura? E as vítimas da nossa polícia nos dias atuais? E os milhões trucidados nas guerras que o império norte-americano promove em prol dos cofres do Tio Sam? E Guantânamo e a barbárie da tortura em pleno território cubano? E o bloqueio econômico criminoso dos Estados Unidos contra Cuba, que já dura mais de meio século?”

Dilma desembarcou ontem em Havana, em sua primeira visita oficial a Cuba. Vai tratar de acordos econômicos – aqui, no Blog do Planalto.

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Uma imagem de Cuba, na lente do amigo blogueiro Rogério Tomaz Jr, que esteve em Cuba em dezembro de 2010:brasiliamaranhao.wordpress.com

Visitei a ilha uma única vez. Passei lá a virada do ano de 2006 e a primeira semana de 2007. Foi minha primeira, e única, viagem internacional. Fidel estava doente, e o irmão Raul era quem de fato já governava, embora, oficialmente, o poder ainda não lhe tivesse sido transmitido pelo Comitê Central do Partido Comunista Cubano. O que só ocorreria em 2008.

Lembro-me que muitos conhecidos, daqui, questionaram a minha escolha com uma galhofa: “Vais para o funeral do homem?” A que eu respondia, no mesmo tom: “O homem tem fôlego de sete gatos, vou levar o meu para reserva…”

E Fidel está aí, vivo e lúcido, cinco anos depois. A inspirar lendas e mistificações.

Havana é linda, a despeito da pobreza que habita o entorno do centro histórico. Vi muitos problemas, decorrentes das dificuldades econômicas enfrentadas. Mas lá não existe analfabeto, todos têm direito à educação, à saúde e à moradia.

Travei amizades com locais, chegamos a nos corresponder. É um povo extremamente simpático, alegre, jovial, simples e educado. Mas, sobretudo, transpira dignidade, responsabilidade cidadã e altivez. Voltarei quando puder.

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Deixo a quem tem mais propriedade a análise sobre a Cuba de ontem e de hoje. Transcrevo artigo do sociólogo e cientista político, professor Emir Sader, postado na manhã de hoje em seu blogue na Agência Carta Maior:

29/01/2012 – Blog do Emir/Carta Maior

 A Cuba que Dilma visita

Assim que Fidel e seus companheiros tomaram o poder e o governo dos EUA acentuou suas articulações para tratar de derrubar o novo poder, a grande burguesia cubana e uma parte da classe média alta foram se refugiar em Miami. Bastava esperar que mais um governo rebelde capitulasse diante das pressões norte-americanas ou fosse irremediavelmente derrubado. Afinal, nenhum governo latinoamericano rebelde tinha conseguido sobreviver. Poucos anos antes Getulio Vargas tinha se suicidado e Peron tinha abandonado o governo. Os dois governos da Guatemala que tinham ousado colocar em prática uma reforma agrária contra a United Fruis – hoje reciclada no nome para Chiquita -, sofreram um violento golpe militar.

Como um governo cubano rebelde, em plena guerra fria, a 110 quilômetros do império, conseguiria sobreviver? Cuba era o modelo do “pátio traseiro” dos EUA. Era ali que a burguesia cubana passava suas férias como se estivesse numa colônia sua. Era ali que os filmes de Hollywood encontravam os cenários para os seus melosos filmes sentimentais. Era ali que um aristocrata cubano tinha importado Esther Williams para inaugurar sua casa no centro de Havana, mergulhando numa piscina cheia de champanhe. Era em Cuba que os milionários norteamericanos desembarcavam com seus iates diretamente aos hotéis com cassinos ou às suas casas, sem sequer passar pelas alfândegas. Era ali que os marinheiros norteamericanos se embebedavam e ofendiam os cubanos de todas as formas possíveis. Era para Cuba que a Pan American inaugurou seus vôos internacionais. Era ali que as construtoras de carros norte-americanas testavam seus novos modelos, um ano antes de produzi-los nos EUA. Foi em Cuba que a máfia internacional fez seu congresso mundial no fim da segunda guerra, para repartir os seus mercados internacionais, evento para o qual contrataram o jovem cantor Frank Sinatra para animar suas festas. Em suma, Cuba era um protetorado norteamericano.

Os que abandonaram o país deixaram suas casas intactas, fecharam as portas, pegaram o dinheiro que ainda tinham guardado e foram esperar em Miami que o novo governo fosse derrubado e pudessem retomar normalmente sua vida num país de que se consideravam donos, associados aos gringos.

Há um bairro em Miami que se chama Little Havana, onde os nostálgicos ficam olhando para o sul, cada vez menos esperançosos de que possam retornar a uma ilha que já não podem reconhecer, pelas transformações radicais que sofreu. Participaram das tentativas de derrubada do regime, a mais conhecida delas a invasão na Baía dos Porcos, que durou 72 horas, mesmo se pilotada e protagonizada pelos EUA – presidido por John Kennedy naquele momento. Os EUA tiveram que mandar alimentos para crianças para conseguir recuperar os presos da invasão, numa troca humanitária.

Cuba mudou seu destino com a revolução, conseguiu ter os melhores índices sociais do continente, mesmo como país pequeno, pobre, ao lado dos EUA, que mantem o mais longo bloqueio da história – há mais de 50 anos -, tentando esmagar a Ilha.

Durante um tempo Cuba pode apoiar-se na integração ao planejamento conjunto dos países socialistas, dirigida pela URSS, que lhe propiciava petróleo e armamento, além de mercados para seus produtos de exportação. O fim da URSS e do campo socialista aparecia, para alguns, como o fim de Cuba. Depois da queda sucessiva dos países do leste europeu, a imprensa ocidental se deslocou para Cuba, instalou-se em Havana Livre, ficaram tomando mojitos e daiquiris, esperando para testemunhar a ansiada queda do regime cubano. (Entre eles estava Pedro Bial e a equipe da Globo.)

Passaram-se 23 anos e o regime cubano está de pé. Desde 1959, 10 presidentes já passaram pela Casa Branca e tiveram que conviver com a Revolução Cubana – de que todos eles previram o fim.

Cuba teve que se reciclar para sobreviver sem poder participar do planejamento coletivo dos países socialistas. Cuba teve que fazer um imenso esforço, sem cortar os direitos sociais do seu povo, sem fechar camas de hospitais, nem salas de aulas, ao invés da URSS de Gorbachev, que introduziu pacotes de ajuste e terminou acelerando o fim do regime soviético.

É essa Cuba que a Dilma vai encontrar. Em pleno processo de reciclagem de uma economia que necessita adaptar suas necessidades às condições do mundo contemporâneo. Em que Cuba intensificou seu comércio com a Venezuela, a Bolívia, o Equador – através da Alba -, assim como com a China, o Brasil, entre outros. Mas que necessita dar um novo salto econômico, para o que necessita de mais investimentos.

Necessita também aumentar sua produtividade, para o que requer incentivar o trabalho, de acordo com as formulações de Marx na Critica do Programa de Gotha, de que o principio do socialismo é o de que “a cada um conforme o seu trabalho”, afim de gerar as condições do comunismo, em que a fartura permitira atender “a cada um conforme suas necessidades”.

Cuba busca seus novos caminhos, sem renunciar a seu profundo compromisso com os direitos sociais para toda a população, a soberania nacional e a solidariedade internacional. Cuba segue desenvolvendo suas políticas solidárias, que permitiram o fim do analfabetismo na Venezuela e na Bolívia e o avanço decisivo nessa direção em países como o Equador e a Nicarágua.

Cuba mantem sempre, há mais de dez anos, a Escola Latinoamericana de Medicina, que já formou na melhor medicina social do mundo, de forma gratuita, a milhares de jovens originários de comunidades carentes todo o continente – incluídos os EUA. Cuba promove a Operação Milagre, que ja’ permitiu que mais de 3 mil latino-americanos pudessem recuperar plenamente sua visão.

Cuba é um sociedade humanista, que privilegia o atendimento das necessidades dos seus cidadãos e dos de todos os outros países necessitados do mundo. Que busca combinar os mecanismos de planejamento centralizado com incentivos a iniciativas individuais e a atração de investimentos, na busca de um novo modelo de crescimento, que preserve os direitos adquiridos pela Revolução e permite um novo ciclo de expansão econômica.

Aqueles que se preocupam com o sistema politico interno de Cuba, tem que olhar não para Havana, mas para Washington. Ninguém pode pedir a Cuba relaxar seus mecanismos de segurança interna, sendo vítima do bloqueio e das agressões da mais violenta potência imperial da história da humanidade. A pressão tem que se voltar e se concentrar sobre o governo dos EUA, para o fim do bloqueio, a retirada da base naval de Guantanamo do território cubano e a normalização da relação entre os dois países.

É essa Cuba que a Dilma vai se encontrar, intensificando e ampliando os laços de amizade e os intercâmbios econômicos com Cuba. Não por acaso o Brasil só restabeleceu relações com Cuba depois que a ditadura terminou, intensificando essas relações no governo Lula e dando continuidade a essa política com o governo Dilma.

Postado por Emir Sader às 10:39

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Revisto e atualizado às 14:49, hora do Recife.

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