A difícil arte de representar jornalistas em Minas

por Sulamita Esteliam

O ano mal começou e o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais já teve que colocar a boca no trombone duas vezes, só nos últimos 15 dias, contra o cerceamento do trabalho profissional e em defesa da dignidade dos jornalista. Na primeira delas, no último dia de janeiro, contra atitudes arbitrárias da Federação Mineira de Futebol – aqui, neste blogue. A segunda, no último dia 2, contra a agressão de ninguém menos que o presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Léo Burguês, contra um repórter de rádio, especificamente; e contra a categoria como um todo, cujos salários comparou com os dos vereadores. Tremenda piada de mau gosto – aqui.

Eneida: “Precisamos de mais coragem para enfrentar os fatos” – Foto Alessandro Carvalho

Sobre o assunto, A Tal Mineira conversou, via chat no Facebook, com a presidenta do SJPMG, Eneida da Costa. Jornalista de longa experiência, sobretudo em televisão, Eneida está à frente da entidade desde maio de 2011. É jornalista concursada da TV Assembleia, onde produz, dentre outros, o programa Sala de Imprensa. A conversa está reproduzida mais abaixo.

Minas são várias. Ou, como escreveu João Guimarães Rosa, “Minas são muitas, e poucos são os que conhecem as mil faces de Minas Gerais”. Um deles é a relação imprensa/poder público estadual/local, o que deixa os profissionais de jornalismo à mercê da boa ou má vontade dos todo-poderosos de plantão, com os quais são coniventes os donos ou prepostos dos veículos de comunicação.

Não é muito diferente, Brasil afora. Todavia, especialmente nos últimos 10 anos, o estado tem-se notabilizado pelo cerceamento à liberdade de imprensa e de expressão. Começa no governo do estado, passa pela prefeitura da capital e outras do interior, e agora chega ao Legislativo do município que é capital, mas não é mais sede-administrativa das Gerais, transferida, a peso de ouro, para a vizinha Santa Luzia.

Quanto à Federação Mineira de Futebol, segue a trilha da cartolagem verde-amarela, empenhada no favorecimento dos mesmos, ou da emissora de sempre…

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Vamos à ENTREVISTA com ENEIDA DA COSTA:

A Tal Mineira: O Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas soltou duas notas enérgicas na semana passada. Ambas dizem respeito a desrespeito ao exercício profissional. Virou moda, agora?

Eneida da Costa: Sula, não sei se virou moda…

ATM: No caso da Federação Mineira de Futebol, há antecedentes…

Eneida: Nós decidimos responder com agilidade e de forma enérgica, como você disse, às tentativas de cerceamento, intimidação ou censura ao trabalho dos jornalsita em Minas. Não é a primeira vez: logo no início do nosso período frente ao Sindicato (tomou posse em 20 de maio de 2012), entramos com uma representação contra o prefeito de Uberaba,  Anderson Adauto (PMDB).

ATM: O que fez o prefeito?

Eneida: Ele expulsou uma jornalista de seu gabinete e a probiu de entrar na prefeitura. Entramos com uma queixa criminal contra ele no Ministério Público Federal. Depois,  fizemos a mesma coisa em relação a outro município da região de Santa Maria do Suassuí. Foi, também, ameaça a um companheiro jornalista.  Este ano mal começou, e nos posicionamos contra a Federação Mineira de Futebol, que divulgou um comunicado determinando regras nada democráticas para a cobertura de jogos. É um absurdo total. Não basta a Rede Globo ter o direito de transmitir os jogos ao vivo,  com exclusividade, a FMF faz uma bula para, na palavra deles, “não comprometer o trabalho de quem está transmitindo ao vivo”.

ATM: Tais regras afetam o trabalho do profissional, mas afetam, também, o interesse dos jornais e emissoras de rádio e tv que não detêm o direito de transmissão dos jogos. Todavia, não vi em jornal algum a divulgação da nota…

Eneida: É um absurdo. O pior é que apenas um repórter fez contato com o Sindicato. Afetam (o interesse das empresas),  sim. Mas o nosso Sindicato defende o direito ao trabalho dos jornalistas. As empesas têm poder. Se acham que estão sendo prejudicadas, que se manifestem. Não vamos defender direito de empresa.

ATM: Sim, mas não é estranho que não tenham dado repercussão a um ato do Sindicato que visa a defesa da liberdade de imprensa, que pretensamente preconizam?

Eneida: Defendemos o Direito Constitucional ao Trabalho, o direito de informar e o direito do cidadão ser informado. Essa empresas não estão nem aí pra isso não. Elas querem o direito de ganhar dinherio, de apoiar governos, que fazem publicidade cara. Publicidade que banca o estilo de vida de seus proprietários.

ATM: E a FMF deu alguma resposta?

Eneida: A FMF não respondeu. Eles são prepotentes demais. E têm o respaldo do silêncio dos repórteres,  fotográfos, repórteres cinematográficos, que também não se manifestaram em relação à nota do Sindicato.                                                                                                    Dois jornalistas ligaram. O Márcio Fagundes (colunista do jornal Hoje em Dia), criticando a ação do Sindicato. Dizendo que demoramos. O comunicado da FMF foi no dia 26 (quinta-feira), soltamos a nota no dia 31 (terça). Ele também criticou a nota não ter a assinatura da presidenta.  Disse que eu deveria botar a cara. Enfim. Opinão.

A outra manifestação foi de apoio. Esta sim, importante, pois se trata de um repórter esportivo, Ivan Drumond (Estado de Minas). Estamos convocando os repórteres esportivos para uma reunião. Vamos sintonizar com eles. De repente , estamos indo contra a corrente.

ATM: Antes de entrar com medidas judiciais? Quais os próximos passos?

Eneida: Nossa Assessoria  Jurídica está providenciando isso.

ATM: E quanto ao presidente da Câmara, Leo Burguês (PSDB)? Houve repercussão da nota nos veículos locais? O Sindicato vai tomar outras medidas?

Eneida: Sim, houve repercussão. Ouvimos a Rádio CBN dando a nota durante os boletins da programação. O jornais O Tempo e Estado de Minas também repercutiram. Mandamos um ofício para o o vereador  Léo Burguês. Esperamos resposta.                                         Soube que ele ligou para a CBN e pediu desculpas. Ele agrediu um repórter daquela rádio. Léo Burguês está mal na fita. Tudo que ele faz cresce.

ATM: Como assim?

Eneida: Ele tentou censurar a marchinha de carnaval Na Coxinha da Madrasta, a marchinha ganhou o 1º lugar no concurso de marchinhas da Banda Mole. Como você  sabe, a Banda Mole é o maior e o mais tradicional bloco da cidade. Sábado foi a final, A Coxinha ficou em 1º e Na Estação, em 2º.

ATM: A história da Praia na Praça, que é do povo, e o prefeito que a quer para ele…

Eneida: Léo Burguês, portanto, só aparece na mídia com pautas negativas. Comprou 1.500 (R$) por mês de coxinha na mercearia da madrasta. Tentou censurar a marchinha, deu no que deu. Está com a bomba do salário dos vereadores, e veio comparar os ganhos deles com o dos jornalistas…

ATM: E o que ele tem a ver com a Estação…?

Eneida: Não tem. Na Estação é a marchinha que fala do Márcio Lacerda (o prefeito, PSB). Ficou em 2º no concurso da Banda Mole.

ATM: Afora esses casos que você relata, a relação do jornalismo mineiro com os poderes constituídos sempre foi simbiótica. Piorou de uns tempos para cá? Em que medida isso dificulta o trabalho do Sindicato dos Jornalistas Profissionais?

Eneida:  Dificulta na medida que o jornalista não vê o Sindicato como seu legítimo representante.

ATM: Mas na hora das festas está todo mundo lá…

Eneida: É, e isso é triste.

ATM: Mas isso que você afirma, de jornalista não ver no Sindicato seu “legítimo representante”, é muito grave. Alguém poderia entender que o Sindicato não cumpre seu papel… Ou não?

Eneida: Acho que o nosso Sindicato, como de resto todo o movimento sindical, passou por um momento de esvaziamento. Agora vemos uns novos rurmos. A greve dos professores é um exemplo que temos de seguir. Claro que não pretendemos ter a mobilização dos professores. Nossa categoria não tem esse perfil.  Mas temos de tentar mobilizar.  Estamos no momento de Campanha Salarial. Vamos traçar estratégias. O problema é que nos faltam grana, braços e pernas.

ATM: Verdade! O jornalista não se considera trabalhador. Talvez pela relação cotidiana com o poder – político, econômico, social. É osso duro conduzir um sindicato da categoria – que aliás, está mais para “falta de classe”, como diria um amigo nosso… hehe

Eneida: Nosso dever é achar um caminho, uma fórmula. Tentar tocar o coração dos nossos companheiros. Não gosto dessa frase. Desmobiliza e ofende.

ATM: Creio que o autor da frase quis dizer, “falta de espírito de classe”, mas a coisa ficou assim, jocosa… (NE: e na minha opinião, não muito distante da realidade. Infelizmente para todos nós).

ATM: A propósito, tem alguma ação do Sindicato contra a censura do governo de Minas?

Eneida: Tomamos atitudes  pontuais,  como no caso do vídeo Liberdade, essa Palavra*. Sempre que chega a té nós um caso, denunciamos. Mas está muito devagar. Precisamos de mais coragem para enfrentar os fatos.

ATM: Boa sorte, presidenta – para toda a diretoria!

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* Liberdade, essa Palavra é um vídeo-documentário produzido como trabalho de fim de curso de Jornalismo da Universidade Federal de Minas Gerais, em 2004, e que teve repercussão nacional, via internet.

O então presidente do SJPMG, Aloísio Lopes, é um dos entrevistados, e confirma o recebimento de denúncias de colegas, de várias redações, sobre o cerceamento e a condução editorial dos veículos pelo Palácio da Liberdade, à época dirigido por Aécio Neves, que esta reles blogueira nomeia 1º Neto. Andréa Neves, a 1ª Neta, é quem fazia o trabalho sujo.

Assistam ao documentário:

Parte 1

Parte 2:

Parte 3:


2 comentários sobre “A difícil arte de representar jornalistas em Minas

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