Quando a arrogância comanda os pés pelas mãos…

por Sulamita Esteliam

Achei na medida o artigo do cientista político Antônio Lassance, em Carta Maior, sobre a, aparentemente, precipitada saída da senadora Marta Suplicy do Ministério da Cultura.  A carta de demissão foi entregue na manhã da terça, 11, na Casa Civil. Enquanto a presidenta Dilma Roussef seguia para o Quatar, de onde segue para a reunião G-20, na Austrália.

Foi assunto da nossa conversa, logo após o café da manhã da terça-feira, puxado pelo meu companheiro. Ele tinha visto no Facebook, e comentou:

– Tem alguma coisa errada. Marta Suplicy se demitiu do Ministério da Cultura, e saiu atirando.

– Como assim? Ela se antecipou, sabe que Dilma não a manteria na equipe.

– É, mas saiu atirando… Criticou, de forma pouco sutil, a condução da economia … – e leu o respectivo trecho da carta, que o Conversa Afiada reproduziu.

– Então, eu disse: “A Marta sempre mete os pés pelas mãos, quando abre a boca. É feito o ex-marido dela, Eduardo Suplicy. A diferença é que ele se atrapalha ao tentar agradar gregos e troianos, e ela gosta de aparecer, e não tem pudor em ser desagradável. Não podemos esquecer que são ambos paulistas (que me desculpem as pessoas queridas da terra), se acham superiores, e da elite.”

Não estamos sozinhos na avaliação. Veja o que escreve Fernando Brito, no Tijolaço.

Imagem capturada no Conversa Afiada
Imagem capturada no Conversa Afiada

 

Transcrevo o texto do Antônio Lassance:

MARTA SUPLICY E SUAS RAZÕES ÍNTIMAS

Marta nunca foi nem dilmista, nem lulista, nem sequer Suplicy. Marta é martista. Ela sempre andou em raia própria e buscou montar o seu próprio grupo.

Antonio Lassance (*)

A bola da vez das teorias conspiratórias é a saída de Marta Suplicy do Ministério da Cultura.

Falta pouco para alguém aparecer dizendo que, na carta de exoneração endereçada a Dilma, a frase “desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho” foi obra dos Illuminati.

Mas, por enquanto, a teoria que lidera a bolsa de apostas é a de que a mensagem da carta da ex-ministra da Cultura revela uma cisão entre lulistas e dilmistas.

Aposta errada. É público e notório que Lula não manda recados via Marta Suplicy.

Ambos já não tocam o mesmo apito desde que o ex-presidente preferiu Fernando Haddad para a disputa da prefeitura de São Paulo, em 2012, afastando a possibilidade que Marta acalentava de retornar ao cargo e reagrupar suas forças no PT paulistano.

Marta nunca foi nem dilmista, nem lulista, nem sequer Suplicy. Marta é martista. Ela sempre andou em raia própria e buscou montar seu próprio grupo de influência, aproximando-se de quem ajudaria a pavimentar seu caminho.

A senadora saiu antes do Ministério porque sabia que era carta fora do baralho para o segundo mandato de Dilma.

Marta enfraqueceu-se politicamente desde o erro de fazer cara de paisagem na campanha de Haddad, em 2012. O caminho errado levou-a ao isolamento em relação à nova administração municipal.

Sem Haddad, sem Lula e sem Dilma, Marta ficou sem chão.

Sua saída é uma tentativa de voltar às bases e reconstruir seu cacife político. Mas que ninguém pense que essas “bases” estão na Zona Leste e são formadas por gente de boné ou lenço na cabeça.

Inconformada em ter sido posta para escanteio no cenário paulista, ela usará sua posição no Senado como trincheira.

Sua carta prematura, entregue quando Dilma estava a caminho do Catar – de onde seguirá para a reunião do G20, na Austrália -, é um gesto que demonstra que Marta está pintada para a guerra.

Todos os ministros já estavam sendo orientados pelo chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, a entregar uma carta colocando o cargo à disposição – ou, como se brinca em Brasília, “à deposição”.

Seguidora da máxima de que todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros, a ex-ministra preferiu antecipar-se e ganhar uns holofotes – a vida inteira ela bem soube como fazer isso.

Marta teve uma lista invejável de realizações em seus curtos dois anos à frente do Ministério da Cultura. Mas preferiu sair falando de economia do que cultura. A cultura é pequena demais para suas pretensões.

A frase completa que atraiu a atenção dos fãs dos Illuminati é a seguinte:

“Todos nós, brasileiros, desejamos, neste momento, que a senhora seja iluminada ao escolher sua nova equipe de trabalho, a começar por uma equipe econômica independente, experiente e comprovada…” etc, etc, etc.

A frase, senhoras e senhores deste respeitável público, não é para Dilma, é para a Avenida Paulista – para os bancos, as indústrias e os donos do grande comércio.

O tal do “independente”, a princípio, nos leva a crer que Marta Suplicy estava dormindo quando o assunto foi objeto de discussões acirradas entre os candidatos à Presidência, quando tratavam da política econômica e da gestão do Banco Central.

Talvez Marta também não tenha visto a apuração das eleições e tenha se enganado de candidato eleito.

Mais certo é entender que Marta se coloca no Senado como uma das vozes do alto empresariado e das altas finanças que querem a chave do cofre do Governo Federal. Por coincidência, são exatamente os que podem dar a ela um novo fôlego político, daqui a dois anos.

São eles que dirão a Marta se ela deve ou não ser candidata, com seu apoio financeiro e midiático, para depois sair às ruas para visitar o pessoal que usa lenços e bonés.

Marta termina sua carta afirmando o óbvio: “volto para o Senado Federal para representar o Estado de São Paulo”. E reforça: “Senadora pelo Estado de São Paulo (2011/19)”. Ou seja, o “Tudo por São Paulo!” está mesmo de vento em popa – imaginem se houvesse água.

Nas entrelinhas, o que está escrito é: “Marta Suplicy, senadora independente, candidata a prefeita em 2016, com ou sem o apoio de Dilma, de Haddad, do PT e de Lula”.

A ameaça pode até não ser levada até o final, mas é para isso que servem as ameaças no jogo político –  para deixar todos de orelha em pé e cabelos eriçados.

(*) Antonio Lassance é cientista político.

 


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