De mulheres, encontros e caminhos

por Sulamita Esteliam

7016Estou em viagem de descanso, e desde terça em Natal, desfrutando da hospitalidade da Gê, prima-irmã muito querida. Ela se mudou, recentemente, de Beagá para a capital potiguar, e eu no Recife me constituo posto mais avançado de combustível familiar, por telefone ou ao vivo e em cores.

Desci de Fortaleza de ônibus, algo que não fazia há anos. São oito horas e meia de viagem, num pinga-pinga só explicável pelo fato de apenas um empresa deter o meio no percurso. Ninguém merece. Mas a alternativa avião me obrigaria ir ao Recife para retornar para a capital potiguar, um zig-zag, para mim, inexplicável.

Enfim, cheguei estrupiada, mas aqui estou. Tenho tido dificuldades com o sinal do meu 4G aqui. Daí que atualizar o blogue é tarefa um tantinho mais difícil. Conto com a compreensão de quem me honra com o acesso diário.

Além do que, eu e a Gê sempre temos muito o que tricotar, seja qual for o intervalo de tempo entre nossos encontros, pessoais ou por telefone. O meio digital ainda é território inesperado para ela.

Pego-me a pensar sobre tal particularidade – a empatia – enquanto escrevo. Quem, à distância, pudesse nos observar em tertúlia, sem conhecer a natureza da nossa relação, por certo estranharia o tom e a profusão de assuntos da nossa conversa. A qualquer tempo.

Somos verborrágicas e absolutas. Mas, embora nossas vidas estejam conectadas desde que eu nasci, tivemos trajetórias um tanto diversas sob alguns aspectos, sobretudo na formação do pensamento e também nas oportunidades na vida. Embora ambas tenhamos tido que cavar, arduamente, nossas trilhas – aliás, como a grande maioria de nossos consanguíneos até a quarta geração, na qual me situo.

E há uma geração a nos separar. Quase o mesmo se dá entre nossas mães, que entretanto eram inseparáveis, também nas alegrias e tormentos. Famílias expandidas têm dessas coisas.

Às vezes, nós mesmas nos surpreendemos como podemos nos entender tão facilmente. Certamente, o traço de amor que nos une, para além do sangue fraternal, opera a empatia a desmentir a máxima de que as semelhanças se repelem; e a confirmar aquela que aponta para a harmonização das diferenças.

Na verdade, Gê é arauto do meu nascimento.

Dei com a cara no mundo depois de longo e tenebroso trabalho de parto – coisa de 36 horas, segundo a crônica familiar. Minha avó foi a minha parteira, como da maioria dos seus 47 netos, dos quais ela é a segunda e Euzinha, se não erro as contas, sou a trigésima terceira – mulheres e homens computados.

Naquele tempo, início dos anos 50, os partos eram domésticos em sua maioria. As crianças acabavam participando de alguma forma. Mas, a elas se dizia que o bebê esperado seria trazido por uma cegonha que pousaria na janela, entregaria a criança à parteira, que, por sua vez, a colocaria nos braços da mãe…

Claro que as crianças achavam aquela história um grande mistério a ser desvendado. E se punham a vigiar o céu para flagrar a ave que traria um nenem no bico, sobre uma fralda à guisa de páraquedas – ou o avião, alternativa alada de transporte de bebês…

E devia ser bastante desconfortável, pois que todo bebê chorava aos berros no desembarque…

Naquela manhã do 28 de dezembro de 1953, a espevitada garota de 14 anos se cançou de vigiar os céus, e se postou na cadeira em frente ao relógio de parede na sala. Os ouvidos atentos aos movimentos do quarto onde a avó dava assistência à tia, há duas noites e um dia.

Que cegonha mais relapsa com suas responsabilidades! Um atraso desta monta é inexplicável… poderia ter pensado a garota, já então ciosa do senso de dever que a acompanharia vida afora…

Lá do quarto, ouviu-se o choro-protesto da criança. Gê levantou-se de um salto, olhou para o relógio e gritou prontamente:

— Dindinha, onze e meia.

**************

PS: Texto reescrito,  pois um acidente na hora da postagem original truncou o final e desfez várias correções sem que eu percebesse. Meu companheiro, leitor atento, me alertou pelo FB. Peço desculpas pelo descuido.

 

 


2 comentários sobre “De mulheres, encontros e caminhos

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