A quem serve a falta de memória seletiva

por Sulamita Esteliam
Charge de 2010: Maringoni em homenagem ao PIG - Partido da Imprensa Golpista
Charge de 2010: Maringoni em homenagem ao PIG – Partido da Imprensa Golpista

democracia-1A ausência de memória nacional é recorrente e, (in) convenientemente, seletiva. Quanto se trata de política, ou mesmo de economia, então… E nunca como dantes se tem tantos exemplos diários desse fato como agora.

O que mais preocupa é o nível de intolerância a cada esquina, em terra, mar e ar.

Pessoas com visão limitada ao próprio umbigo, a repetir, feito maritaca desarvorada, o que ouve ou lê aqui ou acolá. Não há o menor compromisso com a verdade história ou com os fatos  mais ou menos recentes.

Parecem decididas a crucificar o que consideram “o inimigo”. Ainda que seja alguém a exercer, simplesmente, o direito de escolha – sem agredir o mais próximo possível adversário.

Um mói de gente , como se diz em Pernambuco, disposta a atirar a primeira pedra, a segunda e a terceira… Em nome do moralismo hipócrita, do equívoco retroalimentado, em demonstrações públicas e virtuais de grosseria explícita e inaceitável, só possíveis em estados de tirania infantil. É de causar engulhos.

Digo que não passarão.

Pois bem. É preciso conceder o benefício da dúvida. Tirante a minoria ideológica à direita – que sempre existiu, mas andou enrustida por absoluta falta de espaço, e agora resolveu sair do armário. Afora os manipuladores de plantão, boa parte desse arrivismo vem da desinformação; ou da informação distorcida, ou da má qualidade da informação.

Falta de discernimento é muito triste. Mas a mídia venal, mestra em apontar o dedo, é a grande responsável por essa mistura de alhos com bugalhos – sempre a postos, empenhada em servir  aos senhores de sempre.

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É disso que trata o artigo do colega jornalista e blogueiro, Altamiro Borges. Ele preside o Centro de Mídia Alternativa Barão de Itararé, reduto da blogosfera progressista. Transcrevo mais abaixo.

O foco é o diário paulista Folha de São Paulo e sua mais recente “crise de consciência”. O que, aliás, é comportamento típico do jornal: quase sempre na ferradura, e de vez em quando no cravo. Tipo, me engana que eu gosto.

Este é o jornal, não se pode esquecer, que já foi o queridinho da esquerda, que se deixou engalobar pela cobertura da campanha das Diretas Já, nos anos 80.

Tempo em que boa parte da juventude que acredita liberar a campanha pró-impeachment de Dilma, não era, sequer, intenção de semente.

A lembrar que os donos da Folha foi um dos financiadores do terrorismo da ditadura civil-militar que vicejou no país por 21 anos, a partir de 1964. Os estragos desse tempo de triste memória perduram ainda hoje.

 

Mensalão tucano e o rabo preso da Folha

Por Altamiro Borges – em seu blog

MensalaoTucanoAzeredoEm editorial publicado neste sábado (6), a Folha critica os “passos lentos” no processo judicial do “mensalão tucano” de Minas Gerais e afirma que “o atraso registrado até hoje já ultrapassa o tolerável”. “Tolerável” para quem? Para os caciques do PSDB, como o ex-governador mineiro Eduardo Azeredo, que escaparam do julgamento e da cadeia e que hoje posam de vestais da ética? Ou para a mídia tucana, que fez de tudo para abafar os escândalos dos seus amiguinhos de bico alongado e para criar no imaginário popular a falsa ideia de que o PT é o criador universal da corrupção e deve ser execrado da vida política nacional?

O editorial da Folha é de um cinismo impressionante. Não há qualquer autocritica da “cobertura jornalística” seletiva diante das denúncias contra o PSDB – seja no caso do “mensalão tucano”, que ela insiste em chamar de “mensalão mineiro”; ou no já esquecido do “trensalão” de São Paulo, que ela batizou carinhosamente de “cartel dos trens”. Isto para não falar de outras velhas denúncias, como a da compra de votos na reeleição de FHC ou da privatização criminosa das estatais no reinado entreguista e neoliberal do “príncipe da privataria”. No seu caradurismo, a Folha opta por culpar unicamente a “lentidão” da Justiça – que nunca foi lenta ou imparcial no julgamento midiático do chamado “mensalão do PT”.A Folha cita fatos concretos que deveriam encher de vergonha o próprio veículo: “Completa-se praticamente uma década desde que o chamado escândalo do mensalão tucano começou a ser investigado. O esquema de desvio de recursos que, conforme o Ministério Público, alimentou a campanha pela reeleição de Eduardo Azeredo (PSDB), então governador de Minas Gerais, só foi descoberto em 2005, em meio às revelações do mensalão petista – do qual teria sido espécie de ensaio geral. Dois anos depois, o procurador-geral da República apresentou oficialmente a sua denúncia sobre o caso, que remonta a 1998… Entre o fato e a denúncia passaram-se nove anos; daí até hoje, mais oito”.
“Nesse intervalo, dois personagens do mensalão mineiro – o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia e Cláudio Mourão, tesoureiro da campanha do PSDB – se beneficiaram das delongas judiciais. Tendo completado 70 anos, ambos têm a seu favor a circunstância de que diminui pela metade o prazo legal para a prescrição dos crimes a eles imputados. Dentre os suspeitos mais importantes, restam o próprio Eduardo Azeredo e seu vice na época, o atual presidente da Confederação Nacional do Transporte, ex-senador pelo PMDB-MG e ex-sócio de Marcos Valério, Clésio Andrade. Azeredo festejará os seus 70 anos só em setembro de 2018, mas ainda assim são boas as chances de que a prescrição de pelo menos um delito (lavagem de dinheiro) o beneficie antes dessa data”, registra “indignado” o jornal da famiglia Frias.

É verdade que a Folha não menciona sequer uma vez o nome do ex-presidente FHC – que foi citado pelo próprio Eduardo Azeredo como um dos beneficiários do esquema de Caixa-2 do “mensalão tucano” – ou do ex-governador de Minas Gerais, o cambaleante Aécio Neves. Mas, ao final do editorial, o jornal “apela” para que se faça justiça. Lembra que o escândalo voltará a ser analisado pela 11ª Vara Criminal de Belo Horizonte. “Só resta esperar que não se interponham novos obstáculos no caminho desse processo – mesmo sem atrasos adicionais, já terá atrasado muito mais do que o tolerável”. Tentando se apresentar como “neutra e imparcial” para enganar os mais ingênuos, a Folha novamente exibe o seu rabo preso!


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