O inverno e o inferno de cada um

por Sulamita Esteliam
Foto capturada na rede
Foto capturada na rede

Cenas de uma sexta-feira, em Belo Horizonte, temperatura média de 16 graus.

Prólogo: Sexta-feira, 19, estava na rodoviária à espera do ônibus que me levaria para Sete Lagoas, quando fui abordada por um rapaz dos seus 25 anos. Vestia com simplicidade apurada: jeans e camisa esportiva de botão por dentro da calça adornada por cinto, suéter displicentemente jogado nas costas, mochila no ombro direito, tênis.

Pediu licença e sentou-se ao meu lado, enquanto tecia o seguinte monólogo, quase que de um fôlego só:

– Desculpe, moça, mas preciso de ajuda para inteirar uma passagem para Montes Claros. Tenho que ir embora desta cidade desgraçada. Estou aqui há três meses, procuro mas não consigo emprego, durmo na rua, como quando consigo alguns trocados ou alguém paga a minha comida. Não sou mendigo, sou homem descente, quero voltar para minha terra, onde as pessoas me chamam pelo nome. Tenho que voltar antes que eu vire marginal.

– Já procurou a Assistência Social?

– Procurei, sim, mas eles só têm vaga para daqui a dois ou três dias, e eu não quero passar mais nem uma noite neste lugar de ninguém.

Tirou o dinheiro do bolso, um maço bem razoável de notas de dez, cinco e dois reais, para mostrar que havia arrecado algum. Perguntei:

– Quanto custa a passagem para Montes Claros?

– R$ 150 reais.

Vi que ainda faltava quase a metade.

– O que eu posso lhe dar ajuda muito pouco.

– Não tem importância, o que for será menos que eu tenho que pedir. Não é fácil pedir.

Dei ao moço o pouco que podia, ele agradeceu vivamente, e seguiu adiante. Observei-o durante 15 minutos, o tempo que faltava para eu descer as escadas para o embarque. Repetiu a estratégia de abordagem da plataforma C, onde me encontrava, até a plataforma A. Provavelmente, fez o mesmo desde a H, na ponta Leste.

O moço não me saiu da cabeça toda a viagem, no pinga-pinga até meu destino, pois que tomei o ônibus para Cordisburgo – a Macondo de Guimarães Rosa – para abreviar o tempo de espera. Torci para que ele tenha logrado seu intento. Fosse o sonho de retornar à origem, fosse o de torrar o arrecadado com alguma necessidade premente, seja qual fosse.

Há que concordar com ele: não é fácil pedir.

Euzinha, que tenho andado pela cidade da Zona Sul a Leste, passando pela Noroeste e pelo hipercentro, tenho estado cada vez mais agoniada com o que vejo e ouço nas ruas. Em grupos e isolados, a cada dia parece crescer mais e mais o número de moradores ao relento.

Debaixo das marquises,  nichos de pontes e viadutos, a cada esquina do centro expandido da capital. Pergunto-me o que aconteceu com os programas sociais da Prefeitura Municipal voltados para moradores de rua.

Reportagem do jornal O Tempo, de março deste ano, traça o panorama e sugere a trilha. Em oito anos, a população de rua mais que dobrou em Beagá, e o número de vagas em abrigos estacionou há 10 anos.

Poucos têm o discernimento de tentar a volta para casa.

A culpa é da Dilma? Com certeza não. Tal responsabilidade é da seara municipal, mas quem sabe disso?

Imagem capturada no Vi o Mundo
Imagem capturada no Vi o Mundo

Cena 1: Na entrada lateral esquerda do Fórum Lafaiete, em Belo Horizonte, policiais militares guardam o desembarque de detentos para ouvida judicial ou julgamento. Reduzo o passo para amostragem visual: três algemados um no outro, um sozinho, outros três na fieira – quatro negros, três pardos, um branco.

Retrato em preto e branco dos habitantes do sistema prisional brasileiro. A despeito das vestes laranja fosforescente.

Corta para o estacionamento lateral, ao lado da sede da OAB-MG, na Paracatu: um lavador de carros gargalha, respondendo a um passante que comentara em tom audível: “Só tem gente boa…” E devolve:

– Quem devia ser preso é o Lula, ladrão.

Digo a ele para não dizer besteira, e ouço um “é ladrão mesmo, dona, todo mundo sabe…”

Sigo meu caminho, pois não vale à pena bater boca.

Corta para uma senhorinha que caminha ao meu lado, rua baixo. Ela protesta:

– E eu lá quero saber de Lula. Preciso é de um advogado e não posso pagar. Aposto que aqueles lá, também não podem.

Pergunto se ela procurou a Defensoria Pública, ela diz que já deram para ela o nome do advogado, mas saiu de casa sem o endereço.

– Caí, bati a cabeça, e agora dei pra esquecer as coisas…

Desejo boa sorte e cruzo a rua no sentido do meu destino, pensando como pode uma pessoa nesse estado andar por aí sozinha. E se ela não se lembrar do caminho de casa?

E tem gente que se acha dono da razão, e só ouviu o galo cantar…

Conceição Lemes, do Vi o Mundo escreve sobre as acusações contra Lula, a farsa do Habeas Corpus e o comportamento da Folha de São Paulo e da mídia venal.

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Brasília-DF 23-06-2015 Fotos Lula Marques/Agência PT. Solenidade de lançamento dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas e abertura do Congresso Técnico Estádio Mané Garrincha
Brasília-DF 23-06-2015 Fotos Lula Marques/Agência PT. Solenidade de lançamento dos I Jogos Mundiais dos Povos Indígenas e abertura do Congresso Técnico Estádio Mané Garrincha

Cena 2:  No caixa de um supermercado “gourmet” (agora tem isso) no Bairro de Santa Tereza, Zona Leste da cidade ( único no trecho onde estou hospedada esta semana),  a moça do caixa acaba de estornar o valor da sacola retornável da minha compra. Uma mulher que aguarda atendimento pergunta o preço do objeto:

– R$ 5,99 – diz a moça, que minutos antes não soubera responder à mesma pergunta feita por mim, daí ter registrado e estornar, quando me recusei a pagar o preço.

– Que absurdo! Eles são burros, pois se vendem mais barato incentivam a gente a levar, não acha, senhora.

– Concordo plenamente. Até porque no concorrente do mesmo padrão custa a metade.

A caixa entra na conversa para nos dar razão, mas diz que tem cliente que compra uma por dia. Respondo:

– É porque tem dinheiro sobrando. O meu é curto e suado…

– O meu também – acorre a mulher da fila. E acrescenta: “ainda mais com a crise da Dilma, que só faz piorar…”

Ouso contrapor:

– Piorou porque antes tinha melhorado, enquanto o mundo estava de ponta-cabeça.

E ela retruca, sob o olhar zombeteiro da moça do caixa:

– Só se melhorou para a senhora, porque para mim sempre foi ruim.

Larguei para lá.

A moça, provavelmente, teve que reconhecer o direito da empregada, acha que o Bolsa Família é bolsa esmola. Estudou em faculdade particular ou fez anos de cursinho para ingressar na faculdade, casou cedo e não pode aproveitar o Ciência sem Fronteiras. Comprou o carro em 30 meses, renovou a linha branca da casa aproveitando a renúncia fiscal do IPI pelo governo federal, mas isso é só detalhe…

Sim a vida dela, provavelmente é um droga, mas ela compra em supermercado gourmet.

Cada um tem o inverno e o inferno que merece.

a culpa é da Dilma.

Devo confessar, está difícil. Mas não passarão.

 

 


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