Ainda não viu ‘Aquarius’? Pois, corra, é maravilhoso!

No saguão do Cinema São Luiz - clicados por uma gentil pernambucana
No saguão do Cinema São Luiz – clicados por uma gentil pernambucana
por Sulamita Esteliam

Você ainda não viu Aquarius!? Pois, corra! Repasso o que já havia me recomendado a amiga Rosa, querida pernambeira como eu, mas também paulistana. É ma-ra-vi-lho-so! Assim mesmo, com todos os suspiros gráficos que o filme merece.

Roteiro, direção, fotografia, luz, trilha sonora, performance da estrela Sônia Braga e toda a equipe de atrizes e atores. Emocionante, instigante, impecável. Vale todos os adjetivos.

Um filme feito com o coração de quem conhece o Recife, no explícito, nas entrelinhas e pelo avesso.

É a história de uma mulher culta, forte e indomável, a lutar contra a opressão dos poderosos, traduzidos na desfaçatez da especulação imobiliária, das construtoras que representam a plutocracia nacional- vide Ocupe Estelita. Uma metáfora perfeita ao nosso Brasil dos tempos atuais.

Mas não apenas. Uma mulher a sacudir os tabus e preconceitos de uma sociedade machista, de uma classe média conformadinha, enquadradinha em seus padrões de comportamento e ascensão, alienada, reproduzindo tristemente o status quo.

Sim ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais…, já cantou Belchior. E digo, às vezes, somos infinitamente mais caretas, o que dirá nossas proles.

Uma mulher que venceu um câncer, a lutar por seus direitos de cidadania e a exercer com desassombro seu direito ao prazer múltiplo, diverso e infindo; seu tesão pela vida, seu direito ao sexo sem barreiras e quimeras.

Sim, as cenas de sexo são instigantes, nada que adolescentes de 16 anos não possam ver pela internet – se já não praticam. Daí que o desgoverno temeroso e vacilante recuou da classificação para 18 anos imposta ao filme. Vingancinha mesquinha pelo protesto contra o golpe em Cannes.

Aquarius é, também, uma ode ao Recife e às suas idiossincrasias. Um filme cheio de pertencimento. E o público se reconhece, e aplaude do início ao fim.

Kleber Mendonça Filho, recifense, conhece a alma da gente pernambucana, e sabe como explora-la, desperta-la, excita-la.

“Porra, que filme do caralho…!”, à falta ou à preguiça de vocabulário, sintetizou uma jovem ao fim do espetáculo, jogando -se na cadeira de volta, enquanto subiam os créditos.

Êxtase.

Fez-me recuar no tempo e lembrar um show do cearense Belchior, no Francisco Nunes, numa Beagá de meados dos anos 70, eu grávida do meu primeiro filho. As pessoas, jovens, mulheres e homens, se afundavam na cadeira, algumas em pleno orgasmo, literalmente.

De volta ao cinema no Recife, alguém se antecipou a mim e gritou “Fora, Temer!”. Euzinha e outra meia dúzia reproduzimos o que a garganta nacional já se habituou a proclamar. Não insisti.

Estávamos todos tomados pela beleza e, sou obrigada a concordar, embora me custe: às vezes o silêncio diz tudo.

Valeu a fila, que eu detesto. Valeu a experiência de atravessar a cidade para assistir ao filme. E voltar para casa sem tomar nem uma cervejinha, sequer. Outros tempos.

Na terça-feira passada, véspera do feriado da Independência – que mal beliscamos e já nos tomaram -, Euzinha e o maridão fomos ao cinema. Pagamos seis reais as duas meia-entradas; afinal, entrar na idade sex tem suas vantagens…

Seis reais é o preço do dia, terça-feira; nos demais, o ingresso custa 10 paus, e a meia é a meia.

(Não é por nada não, mas desconfio que Júlio teria preferido usar a carteirinha de estudante universitário que é…)

O São Luiz de tantas memórias não é qualquer cinema, é um monumento arquitetônico, e também é sexagenário. Foi inaugurado um ano, três meses e 22 dias antes de esta velha escriba brotar lá nas Gerais. É um dos últimos remanescentes dos cinemas de rua do Brasil.

Está uma beleza. Foi totalmente restaurado após seu tombamento como patrimônio histórico, em 2008.

Fica bem ali na Rua da Aurora, à beira do Capibaribe, Boa Vista, bairro central onde trabalhei por 13 dos 19 anos desde quando vimos parar no Recife.

Não é só um cinema, é um templo da cultura recifense. Tanto que Kleber Mendonça o escolheu para a pré-estreia de Aquarius, e lá esteve na segunda para uma sessão seguida de debate – que incluiu seu outro filme  emblemático, O Som ao Redor.

Vou lhe contar um segredo: você pode não acreditar, mas esta terça-feira, 06 de setembro de 2016, vai ficar na nossa história pessoal como a primeira vez que o casal Sulamita Esteliam e Júlio Soares Teixeira, em 25 anos de vida em comum, foram ao cinema juntos.

Absurdo, como assim…!?

Tudo tem explicação. Vou tentar resumir.

Quando nos encontramos, em Brasília, em 1991, eu tinha desenvolvido o hábito de ir ao cinema sozinha. Ele visitava as filhas em Belo Horizonte a cada quinzena, e as levava ao cinema.

Nos finais de semana em comum na capital federal, se estava em cartaz um filme que eu queria ver, ele já tinha assistido lá em Beagá. E aí, a gente dançava, jogava sinuca, botecava, e namorava – apesar da prole.

E eu continuei indo ao cinema sozinha, ou com amigas nos fins de semana de ausência dele, que também viajava muito a trabalho. O mesmo se deu em Fortaleza. Até que, já no Recife, restaram os cinemas de shopping, que só frequentamos para levar a nossa cria para ver o filme da hora, cada qual por sua vez.

E já havia o vídeo, depois veio a internet, o USB, a Netflix…

Enfim, precisou que viesse Aquarius, que para nós tem o mérito particular de tirar a dupla de casa para ver um filme juntos, e no Cine São Luiz. Memória afetiva é para sempre.

Postagem revista e atualizada às 22.40h: correção de erros de digitação e ortografia.

 


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