A marcha da insensatez e a ‘gota de bom senso’ vislumbrada por Nassif

por Sulamita Esteliam

Devo confessar: domingo evitei botar a cara na rua; no máximo, acompanhei meu sobrinho – que com sua jovem parceira me hospedou este fim de semana -, ao açougue e supermercado. Mesmo estando em Santa Tereza, bairro que respira cultura em minha Macondo de origem e, há de se supor, civilidade de vanguarda.

Ainda assim, tropeçamos com alguns patriotas de ocasião, no retorno das manifestações na Praça da Liberdade. Com suas indefectíveis camisas da CBF, instalaram réplicas da Bandeira do Brasil na mesa do bar, no meio do caminho, junto com máscaras de Moro e do japonês-contrabandista (foi condenado, recorreu e perdeu) da Federal.

Haja contrassenso (eita que a reforma ortográfica consegue aleijar algumas palavras…)!

Bem, não posso analisar o que não vi.

Só posso dizer que, do pouco que ouvi, até no programa Esporte TV, a Globo golpista se empenhou em chamadas ao vivo de gatos pingados pelo calçadão de Copacabana, no Rio, pela Av. Paulista, em São Paulo e na Esplanda dos Ministérios, no Distrito Federal, dentre outras capitais.

Não há a menor intenção em disfarçar. Ou a emissora dos Marinho, que é concessão pública, daria informações também dos protestos contra o governo, a PEC 55 e a MP do ensino médio.

As ocupações estudantis, por exemplo, já ultrapassam um mês, e a notícia inexiste nos veículos do PIG, Globo à frente. Quando aparece é com foco no vandalismo, não nos milhares de manifestantes pacíficos atacados pela truculência policial, como ocorreu no último dia 29, sobretudo em Brasília.

Não é nada bom o que temos pela frente. “Estamos à beira de um convulsão social no País”, alerta o jornalista Franklin Martins, ex-secretário de Comunicação do governo Lula, em entrevista ao jornal digital Sul 21. E, no caso, é risco dizer: pior do que está não pode ficar…

De seu lado, o colega Luis Nassif vislumbra “gota de bom senso no oceano da insensatez”… Mas o cenário que prenuncia não reascende a esperança de restabelecimento pleno da democracia, o que somente se daria com o retorno ao primado da Constituição de 1988.

Portanto, como já escrevi aqui mais de uma vez, pressupõe-se anulação da fraude do impeachment e o retorno da presidenta legítimamente eleita, Dilma Roussef ao lugar que lhe cabe.

Aí sim, realizar a transição com uma  consulta popular sobre uma Constituinte para a Reforma Política profunda e eleições diretas para presidência.

Fora isso, é tão somente a sequência previsível do golpe.

Transcrevo a análise do Nassif:

Xadrez do desmonte da democracia

Os referenciais em torno dos quais montaremos nossos cenários:

  1. O maior agente político continua sendo a massa dos bestificados que saem às ruas impulsionados pelo ódio e pela intolerância exarados pela mídia e pela Lava Jato.
  2. Quase todas palavras de ordem pré-impeachment se esvaziaram. Agora, o alvo da mobilização é o Congresso, com todos seus defeitos, o último setor de manifestação do voto popular. E a turba sendo engrossada por procuradores e juízes, em uma nítida perda de rumo das instituições.
  3. Agora, se tem um Judiciário brigando com o Legislativo, procuradores de Força-Tarefa assumindo a liderança da classe, se sobrepondo ao Procurador Geral, em um quadro de indisciplina generalizada e crescente.
  4. Esse clímax se dará com a revelação das delações da Odebrecht, tornando mais aguda a crise, a desmoralização da política e a busca de saídas milagrosas.
  5. Se terá então a crise econômica se ampliando, o vácuo político se acentuando, e massas raivosas atrás de qualquer solução, por mais ilusória que seja, como esse cavalo de batalha contra a Lei Anti-abusos.

Vamos montar, por partes, esse mapa do inferno.

Peça 2 – o fim de Temer, o breve

A economia se moverá seguindo o roteiro abaixo:

  1. O governo Michel Temer acabou. Trata-se de um político menor e pior do que as piores avaliações sobre ele.
  2. A era Henrique Meirelles também acabou.
  3. O país está à beira de uma depressão, com convulsão social e com um governo sem diagnóstico e sem condição de comandar a recuperação. Mas o mercado insistirá em uma última tentativa, seguindo o jogo das expectativas sucessivas, conforme você poderá conferir no artigo “Como o marketing reduziu a economia a um produto de boutique”( https://is.gd/WXBqJW).

Henrique Meirelles e sua tropa deixarão de ser a equipe brilhante que salvaria a economia. Daqui para a frente, serão colocados no limbo, e a nova equipe brilhante será a do ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, que é um Meirelles elevado à tríplice potência.

O problema da equipe econômica que assumiu as rédeas é que o seu objetivo não é o de recuperação da economia, impedindo um desastre social, mas o de destruir qualquer vestígio do modelo anterior, um ideologismo barato e cego, marca, aliás, de boa parte do pensamento econômico brasileiro.

Peça 3 – o governo de transição

Com o fim do governo Temer, aventa-se uma eleição indireta com Fernando Henrique Cardoso, trazendo Armínio Fraga para aprofundar o ajuste fiscal.

Aparentemente, essa loucura não se consumará por dois motivos.

Motivo 1 – FHC refugou.

Em duas manifestações seguidas, FHC admitiu o óbvio: sem a recuperação do voto, através de novas eleições diretas, será impossível a implementação de qualquer programa econômico minimamente consistente. Na verdade, FHC tem noção de suas próprias limitações. Em momentos menos graves – como no processo inicial de consolidação do Real e no início do segundo mandato – FHC foi incapaz de uma ação proativa sequer. Limitou-se a seguir o receituário de seus economistas, de um enorme aperto fiscal, que contribuiu, nos dois casos, para uma economia estagnada durante seus dois mandatos.

Motivo 2 – a aposta errada no aperto

Além disso, caiu a ficha da classe empresarial sobre a loucura de persistir nessa política suicida. Mesmo no mercado, a sensação é que a persistência do quadro recessivo não permite ganhos a ninguém, mesmo ao mercado. E abre o risco de algum populismo de direita, que transforme o mercado no bode expiatório.

A discussão que se iniciará agora é sobre o momento e a oportunidade das novas eleições diretas, uma discussão que levará em conta o potencial eleitoral de Lula e do PT e as alternativas do atual grupo de poder.

O fator Nelson Jobim

Com o PSDB pedindo para afastar de si este cálice, o nome mais forte aventado – lembrado pelo Xadrez de algumas semanas atrás – é do ex-Ministro da Defesa e ex-Ministro do Supremo Nelson Jobim. Tem bom trânsito junto ao PSDB e ao PT e familiaridade com as Forças Armadas, pela condução do Plano Nacional de Defesa.

Como presidente, será uma incógnita. Como candidato potencial, é a melhor aposta até agora.

Mas todas essas alternativas caminham sobre o pântano, representado pelo estímulo fascista às manifestações de rua. Abriu-se nova temporada de estímulo à violência, mostrando que a marcha da insensatez se abateu também sobre os operadores da lei.

Peça 4 – sobre a irresponsabilidade dos golpistas

Não era surpresa para quem tem um mínimo de visão e de responsabilidade institucional. O golpe desmontou definitivamente a democracia brasileira, o modelo que garantiu o equilíbrio político do país desde a Constituição de 1988. Uma mescla de aventureirismo, oportunismo, despreparo, covardia promoveu a abertura da Caixa de Pandora.

Agora, a democracia está desmontada, a economia caminhando para uma depressão. E, no momento, o que se tem é o seguinte:

  • O Executivo liquidado.
  • Uma campanha pesada visando inviabilizar o Congresso.
  • Uma briga de foice entre instituições, com uma cegueira generalizada sobre a gravidade do atual momento.
  • E a ultradireita sendo definitivamente bancada pela parceria Lava Jato-Globo.

O fato de um mero procurador regional ousar afrontar o Congresso em nome pessoal, ameaçando “pedir demissão” de uma força-tarefa para o qual ele foi indicado, mostra a desmoralização institucional do país e a quebra total de hierarquia no próprio Ministério Público Federal. Qualquer deslumbrado, com um metro e meio de autoridade, e uma tonelada de atrevimento, coloca em corner não apenas o Congresso, mas o próprio Procurador Geral.

Até onde irá esse clima? Difícil saber.

Com a delação da Odebrecht, os procuradores da Lava Jato insuflando as manifestações, a crise se aprofundando, o caldeirão das ruas entrará novamente em ebulição, sem que haja uma saída institucional à vista.

A crise começou seu trabalho de espalhar um pouco de bom senso. Mas ainda é uma gota em um oceano de insensatez.

 

 


3 comentários sobre “A marcha da insensatez e a ‘gota de bom senso’ vislumbrada por Nassif

  1. Torço para que o Brasil retome o caminho do desenvolvimento e da justiça social, sobretudo, mas sem a restauração imediata da democracia, dificilmente o país sairá do atoleiro em que se meteu.

    Com o Golpe de Estado em curso, o Brasil caminha para dias difíceis e sombrios, marcados que poderão ser por intenso derramamento de sangue de inocentes, como costuma ocorrer sempre que a democracia é abatida pela tirania sanguinária de regimes totalitários, como aliás, já começa a esplender em nosso país, sob o comando de déspotas togados, mancomunados com a Mídia venal.

    Estamos muito próximos de uma guerra civil. O que não é bom pra ninguém, mas é a única maneira de se restabelecer a paz e a ordem sociais. Não custa, porém, lembrar aqui a lição do filósofo contemporâneo, Mario Sérgio Cortella, quando diz que: “guerra civil não tem vencedor, apenas sobreviventes.”

    Com a palavra, os fascistas que estão provocando essa guerra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s