E em meio ao caos, você se depara com um samba em clipe e uma entrevista do Criolo…

O artista em show no #OcupeEstelita, em 2014 – print de tela da apresentação
por Sulamita Esteliam

Navegava distraída pela blogosfera, conferindo as novidades do dia que poderiam ter-me escapado do Twitter, a rede social que acesso com mais frequência, e que toda noite dão linha ao meu tricotar cotidiano neste blogue.

Eis que me deparo com uma crítica na coluna de Sheila Jacob no Brasil de Fato sobre a música de trabalho do novo disco do rapper paulistano Criolo – um disco inteiro de samba, Espiral da Ilusão, album puxado pelo samba Meninos Mimados, quentinha na crítica sócio-política.

Queixo caído é pouco para minha postura diante do Criolo. Sou fã derramada.

E pensar que deixei de dar-lhe um abraço, ele que gosta tanto de boa energia, quando o vi a um passo, sorvendo um chopp em pé, no melhor estilo belo-horizontino, num bar à entrada do Mercado Central, há coisa de dois anos!

Fiquei tão nervosa e encantada, que deu um branco e nada me fazia lembrar o nome dele. Então, a abordagem morreu sem ter nascido…Desde criança é assim: meu lado tímido aparece nas horas menos apropriadas, fazer o quê.

A primeira vez que soube de Criolo – nascido Kleber Cavalcante Gomes, filho de “pai metalúrgico, preto e favelado” e mãe galega, neto de cearenses pelo dois lados, agora sei – foi num vídeo, sofrível, do festival RecBeat no Cais da Alfândega, aqui no Recife, em 2012.

Cantava Cálice de Chico Buarque, em protesto-homenagem às vítimas da desocupação barbarizada de Pinheirinho, em São José dos Campos, São Paulo. A Tal Mineira publicou.

Tornou-se figurinha carimbada nos anos seguintes, nos shows de apoio às manifestações do #OcupeEstelita, movimento que barrou a derrubada do casario antigo do Cais para a construção de espigões que tornariam a vista da Bacia do Pina e do estuário privilégio de poucos. Aqui no blogue 12 Torres do Cais – “do cais, da lama, do drama aos cartões postais…”

E ganhou para sempre meu coração, respeito e admiração. Daí que espero seja do seu gosto também.

Confira o clipe de Meninos Mimados e, lá no Youtube, a ficha técnica detalhada e longa:

Então, você termina de ver e ouvir o clipe, sorvido com vagar junto a uma taça de vinho, e topa com o aperitivo para um jantar de primeira classe na lateral. Clica, e lá está um bate-papo de alma transbordante do artista com o jornalista, crítico musical e escritor Pedro Alexandre Sanches, que assina a coluna Farofafá em Carta Capital.

Anotei algumas passagens:

“Acontecer é muito relativo. Só de a música estar dentro de você, e você se permitir, já aconteceu.”

“A sociedade cobra de você respostas pra tudo. Você é um ser humano. Não existe isso de ser pá em tudo. Tento passar isso com leveza.”

“Não há Amor em São Paulo caiu como uma provocação, mas foi um desabafo. Não sou dono desse texto que deságua. Esse texto é do mundo.”

“Levou 36 anos pra eu desabafar desse jeito, e veio nessa canção. Então, saiu muito mais como desabafo de desespero, porque as grandes cidades te sufocam, não respeitam sua individualidade. (…)  de não aguentar mais ver uma cidade tão plural, com pessoas do Brasil todo, e todas essas pessoas são completamente desrespeitadas.”

“Monetarizam a nossa desgraça e isso não vai para a planilha do Excel. Agora, quanto de remédio se vende pra quem está em desespero emocional? Quanto a indústria farmacêutica ganha com uma legião de pessoas doentes? Quanto ganha estarmos mal alimentados? Quanto ganha estarmos infelizes?”

“Por toda São Paulo, por todo o Brasil e no planeta, está acontecendo um movimento de “nós não aguentamos mais o jeito que vocês estão fazendo”. E nós vamos pra cima.”

“Menino Mimado? Quem mimou quem, quem agrada quem para se dar bem nessa estrutura que é imposta. Quem criou toda essa situação de mando de poder que se arrasta?”

Mãe e pai de Criolo, em foto da revista que acompanha o álbum ‘Espiral da Ilusão’

“Meu pai  sempre teve orgulho em falar que o pessoal do Ceará, de todo o Nordeste, sempre ganha medalha das olimpíadas de matemática. Temos a Carolina de Jesus, que veio do povo e hoje tem seu livro editado por vários países. Então, nas exatas e nas humanas, na matemática e na literatura o povo mostra que sabe fazer. Então, por que não vai? Gerações após gerações, por que não vai?”

“As canções que brotam em ossos corações é um alicerce. E cada um vai, em seu momento, sua bagagem, construir o seu entendimento.O sofrimento é de quem sente. É de quem come todo dia sua colher de sal – pela cor da sua pele ou por sua condição de pobre. O que é absurdo.”

“O extermínio já acontece todos os dias – da falta de luz ao transporte do trabalhador. Eles não se importam com o país, com o povo. E não dá mais para aguentar. “

“(O golpe) Não vai se sustentar. Eu tenho que ter essa fé. Não vai se sustentar porque não pode. Não dá mais para ser assim.”

Estou velha, não burra nem morta. Impossível não se apaixonar.

Eis o link da para a íntegra do texto publicado na revista e que vai muito além da edição do vídeo.

Compartilho o vídeo postado no Youtube:

 

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Postagem revista e atualizada dia 15.06.2017, às 12:29h: correção de frases truncadas e outros erros de digitação. Peço desculpas pelo desleixo.


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