Digressões em torno do ninho tucano e os vôos de Itamar Franco

por Sulamita Esteliam

O noticiário do dia na blogosfera dá conta de que o PSDB, como de hábito, decidiu não decidir se sai ou fica no desgoverno do mordomo usurpador. A tentativa de salvar a pele do seu ex-presidente, AhÉCim, é conversa fiada. Sabe-se que não há salvação para o mineirim nem para a inviabilidade eleitoral do ninho nas urnas; ainda mais com apoio do PMDB.

Na verdade, a tucanada fica por que não tem para onde ir, e o faz mantendo um pé na porta de fuga. À espera, talvez, de que o vento vire, ou que possa tirar algum dividendo desse vai-não vai.

O sonho de chegar à Presidência, que seja via Colégio Eleitoral, não é quimera, ainda. E Tasso Jereissati, que posa de contrariado, não costuma dar ponto sem nó. Sorte ou azar é que, muitas vezes, não consegue desata-lo.

Fez-me lembrar do ex-presidente da República, governador de Minas e senador pelo estado, Itamar Franco, que é estrela desde 2011.

Registre-se que, em todas as instâncias, foi o responsável pela chegada dos tucanos ao poder na frágil República à brasileira: primeiro, ao encomendar ao seu quarto ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, um plano econômico substancial e definitivo, dando-lhe carta branca para buscar os melhores nomes disponíveis na economia política e ousar; segundo, ao ungi-lo candidato a sucedê-lo, dado o sucesso do Plano Real.

Foi uma espécie de retribuição política, uma vez que a base mineira da dissidência peemedebista, que formou o partido tucano, apoiou em peso sua candidatura pelo PL, o Partido Liberal, ao governo do estado, em 1986, e que tinha na vice Aécio Cunha, pai do AhÉCim. A eleição foi ganha por Newton Cardoso, com a então deputada federal Júnia Marise na vice, por apenas cinco pontos percentuais ou 300 mil votos.

Itamar havia se entocado em seu refúgio, um sítio nos arredores de Juiz de Fora, seu berço político e município do qual foi prefeito em de 1966/71, pelo MDB. Recusava-se a reconhecer a derrota. Só o fez depois de três dias de encerrada a contagem de votos, e após insistentes apelos de sua assessoria e, a pedido desta, de dois ou três  jornalistas que desfrutavam de alguma empatia, inclusive esta escriba.

No comecinho de 1989, Itamar  estava sem partido. Cumpria o que restava de seu último mandato de senador por Minas Gerais. Havia se desentendido com a direção do antigo PL, o Partido Liberal, mas procurava valorizar o passe antes de aceitar convites variados:

  1. o PDT de Leonal Brizola namorava seu passe;
  2. retornar ao PMDB, de onde saíra por ter sido preterido pelo governador Hélio Garcia para concorrer ao governo de Minas. Queria chegar à convenção ungido pelo maior partido mineiro, que é o PL – Partido do Palácio da Liberdade. Não o sendo, ajudou a organizar o PL. Pimenta da Veiga, já nas tratativas para criar o PSDB, perdeu a convenção para Newton Cardoso;
  3. ir para o PRN  de Fernando Collor, que em vão bateu às portas de Hélio Garcia, ex-governador, e Júnia Marise, vice de Newton Cardoso, para formar chapa na primeira eleição direta para presidente da República desde 1961;
  4. aportar no PSDB, berço da dissidência peemedebista, que em Minas se consolidou no apoio à sua candidatura pelo recém-criado PL.

Editora-Adjunta do jornal Hoje em Dia, esta escriba tinha trânsito livre com Itamar, adquirido em vários anos de cobertura política, especialmente de sua campanha ao governo do estado, então pelo jornal O Globo.

O colunista do jornal estava de férias, e a interina que vos fala liga para saber do senador qual seria seu destino partidário. Como de hábito, a conversa foi longa, mas toda e qualquer informação importante ele colocava um parênteses: “estou falando para a amiga, não para a jornalista”.

Precisava fechar a nota principal da coluna e aquele lenga-lenga esgotara a minha paciência. Disse a ele que esta no exercício do meu trabalho, e portanto havia ligado para ele como jornalista. Ademais, estava decidida a arrancar a informação de que precisava, e fui para o ataque; costuma funcionar com ele.

Perguntei se era verdade que recusara o convite do PDT, ele confirmou. Concordou que a hipótese de retorno ao PMDB não era a mais sedutora, para quem tinha brios. Restavam o PRN e o PSDB.

– Então, o senhor vai para o PSDB, tipo retribuição pelo apoio no passado?

Itamar fez um longo silêncio e limitou-se a dizer:

– O PSDB é PhD demais para o meu gosto.

Claro que publiquei a nota, e a frase ganhou repercussão nacional. O que o levou a me telefonar em tom ácido, ressentido pelo que chamou de “quebra de confiança”. Repeti o que havia dito na conversa: havia ligado para ele a trabalho, não para trocar figurinhas. “O senhor há de convir que essa eu tinha que publicar.”

E o Itamar, quem diria, foi parar no PRN do Collor de Mello, e acabou presidente da República, assumindo a vaga com a renúncia do titular, em 1992.  A essa altura, já estava sem partido.

Mas foi pelo PMDB que chegaria, finalmente, ao Palácio da Liberdade, em 1998, onde peitou o governo FHC negando-se a privatizar a Cemig. Era um nacionalista convicto, defensor do patrimônio dos brasileiros e questionador ferrenho do pagamento dos juros da dívida externa.

Nesse sentido, não cabia no ninho tucano. Os governos do PSDB venderam o Brasil na bacia das almas – mesmo caminho trilhado pelo agora desgoverno do mordomo, ao qual se associa para dar sustentação no desmonte. E foi o candidato derrotado do PSDB, agora ex-presidente do partido, que jogou o Brasil no limbo “só pra encher o saco deles”, do PT.

O PSDB é parte indissociável da lambança, que inclui o colapso institucional em que estamos mergulhados, e ao qual A Tal Mineira já se referiu  ene vezes nesse ano e meio de suplício do caos.

O mesmo não se pode dizer das convicções partidárias de Itamar. Dizia que seu norte eram seus princípios, mas deixou-se seduzir por Collor, o caçador de marajás; depois por FHC, o príncipe dos sociólogos e, mais adiante, por Roberto Freire, o indômito sem voto e sem pudor.

Itamar voltaria a deixar o PMDB para apoiar a candidatura de Lula em 2002. Tornaria a filiar-se e a desligar-se,em 2006, quando foi novamente preterido, desta vez como candidato do partido à Presidência, em favor de Garotinho. Terminou seus dias no PPS, partido pelo qual foi eleito senador, em 2010.

Moral da história: ave de arribação pega rota no inverno.

E tucano não tem hábitos migratórios. O bico é duro, mas o vôo é curto.

 

 


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