31 de agosto: o dia da vergonha final e o começo do caos

“Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.”
Dilma Vana Rousseff, 31 de agosto de 2016
Dilma e Maiakovski para fechar o discurso de despedida – Foto: FB/Dilma Rousseff
por Sulamita Esteliam

O 31 de agosto está cravado em nós como os cravos que crucificaram um homem chamado Jesus, que veio ao mundo como filho de Deus, segundo a bíblia, para resgatar os pecados dos homens.

Um revolucionário no proceder. Foi condenado e morto junto com dois ladrões porque ameaçou o sistema estabelecido.

Não se trata de religião ou crença, apenas. Trata-se de política e de História. E a História, provado está, se repete tão somente como farsa.

O 31 de agosto que nos persegue, e envergonha, e dilacera, tem uma mulher como alvo simbólico, usada como tabela para demolir o alvo de fato:  um projeto de Brasil, que não cabe na mesquinhez e ganância plutocrata, como meta a ser destruída.

Um projeto que começou com Lula, ameaça a ser extirpada, e que sobrevive ao desmonte – ao menos na consciência dos desvalidos e na memória de quem enxerga além do próprio umbigo.

A caravana que já dura 15 dias pelos estados do Nordeste, o prova – à revelia da mídia venal, golpista e míope.

Dilma Vana Rousseff foi apontada, achincalhada, acusada, julgada e deposta do cargo ao qual havia sido guindada por 54,5 milhões de votos, e a despeito da Constituição Federal.

De farsa, fraude, golpe se trata.

A presidenta Dilma caiu, também, porque é mulher num país de machistas e misóginos. Mas, sobretudo, caiu porque se recusou a pactuar com a camarilha. Caiu porque é correta, honesta, honrada e, graças a Deus, teimosa, valente, persistente, resistente, resiliente.

Hoje não há mais dúvida de que é golpe, e golpe permanente: contra a nossa Lei Maior, contra as instituições, contra a Democracia, o Estado de direito e o Estado democrático de direito; contra os direitos sociais, trabalhistas, previdenciários; contra o patrimônio, a sobrevivência e a soberania nacionais.

Golpe contra a Nação, contra o povo brasileiro.

E as consequências aí estão: desemprego, fome, entreguismo, ladroagem, espoliação, lambança ampla, geral e irrestrita.

Caos.

E quem torceu, vestiu camisa da CBF, profanou a bandeira brasileira e reverenciou o pato amarelo, agora finge de égua.

Não resisto, e espero não ser mal interpretada, à lembrança da musiquinha de Toquinho e Vinicius de Moraes, que meu neto de 7 anos, o primeiro dentre os mineirinhos, adora que Euzinha cante pra ele:

“O pato pateta pintou os canecos/surrou a galinha, bateu nos marrecos/pulou do puleiro no pé do cavalo/levou um coice, criou um galo./Comeu um pedaço de jenipapo/ficou engasgado, com dor no papo/caiu no poço, quebrou a tijela/tantas fez o moço, que foi pra panela./Quá-quá-quá-quá…quá-quá/Quá-quá-quá-quá…quá-quá… (bis)”

O problema é que o pato bagunçou o coreto geral, e somos nós que temos que arrumar a bagunça.

Para começar, não nos pode faltar a memória desta data que se conforma como o terceiro dia da vergonha neste país. Depois do 17 de abril, quando a Câmara dos Deputados aceitou o requerimento de impeachment, naquele espetáculo dantesco que correu o mundo. Depois do 12 de maio, quando o Senado acatou o processo e afastou a presidenta por 180 dias.

No dia 31 de agosto de 2016, os 61 senadores que representam os 27 estados e o distrito federal brasileiros, eleitos com o nosso voto, formalizaram o golpe parlamentar travestido de impeachment – sem crime de responsabilidade.

O teatro absurdo foi presidido pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowsky. Seguiu-se o rito. Mas nas gavetas da Corte dorme em sono profundo o mandato de segurança que requer a anulação da fraude – a despeito do lamaçal e do abismo infindo em que se afunda o País.

Eis o vídeo com o discurso de despedida da presidenta Dilma Rousseff. Mais abaixo transcrevo o texto na íntegra, capturado no sítio dilma.com.br.

Clique para ler, também, a íntegra do discurso no dia em que a presidenta enquadrou seus algozes no Senado.

 

 

“Ao cumprimentar o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cumprimento todos os senadoras e senadores, deputadas e deputados, presidentes de partido, as lideranças dos movimentos sociais. Mulheres e homens de meu país.

Hoje, o Senado Federal tomou uma decisão que entra para a história das grandes injustiças. Os senadores que votaram pelo impeachment escolheram rasgar a Constituição Federal. Decidiram pela interrupção do mandato de uma presidenta que não cometeu crime de responsabilidade.

Condenaram uma inocente e consumaram um golpe parlamentar.

Com a aprovação do meu afastamento definitivo, políticos que buscam desesperadamente escapar do braço da Justiça tomarão o poder unidos aos derrotados nas últimas quatro eleições. Não ascendem ao governo pelo voto direto, como eu e Lula fizemos em 2002, 2006, 2010 e 2014. Apropriam-se do poder por meio de um golpe de Estado.

É o segundo golpe de Estado que enfrento na vida. O primeiro, o golpe militar, apoiado na truculência das armas, da repressão e da tortura, me atingiu quando era uma jovem militante. O segundo, o golpe parlamentar desfechado hoje por meio de uma farsa jurídica, me derruba do cargo para o qual fui eleita pelo povo.

É uma inequívoca eleição indireta, em que 61 senadores substituem a vontade expressa por 54,5 milhões de votos. É uma fraude, contra a qual ainda vamos recorrer em todas as instâncias possíveis.

Causa espanto que a maior ação contra a corrupção da nossa história, propiciada por ações desenvolvidas e leis criadas a partir de 2003 e aprofundadas em meu governo, leve justamente ao poder um grupo de corruptos investigados.

O projeto nacional progressista, inclusivo e democrático que represento está sendo interrompido por uma poderosa força conservadora e reacionária, com o apoio de uma imprensa facciosa e venal. Vão capturar as instituições do Estado para colocá-las a serviço do mais radical liberalismo econômico e do retrocesso social.

Acabam de derrubar a primeira mulher presidenta do Brasil, sem que haja qualquer justificativa constitucional para este impeachment.

Mas o golpe não foi cometido apenas contra mim e contra o meu partido.

Isto foi apenas o começo. O golpe vai atingir indistintamente qualquer organização política progressista e democrática.

O golpe é contra os movimentos sociais e sindicais e contra os que lutam por direitos em todas as suas acepções: direito ao trabalho e à proteção de leis trabalhistas; direito a uma aposentadoria justa; direito à moradia e à terra; direito à educação, à saúde e à cultura; direito aos jovens de protagonizarem sua história; direitos dos negros, dos indígenas, da população LGBT, das mulheres; direito de se manifestar sem ser reprimido.

O golpe é contra o povo e contra a nação. O golpe é misógino. O golpe é homofóbico. O golpe é racista. É a imposição da cultura da intolerância, do preconceito, da violência.

Peço às brasileiras e aos brasileiros que me ouçam. Falo aos mais de 54 milhões que votaram em mim em 2014. Falo aos 110 milhões que avalizaram a eleição direta como forma de escolha dos presidentes.

Falo principalmente aos brasileiros que, durante meu governo, superaram a miséria, realizaram o sonho da casa própria, começaram a receber atendimento médico, entraram na universidade e deixaram de ser invisíveis aos olhos da Nação, passando a ter direitos que sempre lhes foram negados.

A descrença e a mágoa que nos atingem em momentos como esse são péssimas conselheiras. Não desistam da luta.

Ouçam bem: eles pensam que nos venceram, mas estão enganados. Sei que todos vamos lutar. Haverá contra eles a mais firme, incansável e enérgica oposição que um governo golpista pode sofrer.

Quando o presidente Lula foi eleito pela primeira vez, em 2003, chegamos ao governo cantando juntos que ninguém devia ter medo de ser feliz. Por mais de 13 anos, realizamos com sucesso um projeto que promoveu a maior inclusão social e redução de desigualdades da história de nosso país.

Esta história não acaba assim. Estou certa que a interrupção deste processo pelo golpe de estado não é definitiva. Nós voltaremos. Voltaremos para continuar nossa jornada rumo a um Brasil em que o povo é soberano.

Espero que saibamos nos unir em defesa de causas comuns a todos os progressistas, independentemente de filiação partidária ou posição política. Proponho que lutemos, todos juntos, contra o retrocesso, contra a agenda conservadora, contra a extinção de direitos, pela soberania nacional e pelo restabelecimento pleno da democracia.

Saio da Presidência como entrei: sem ter incorrido em qualquer ato ilícito; sem ter traído qualquer de meus compromissos; com dignidade e carregando no peito o mesmo amor e admiração pelas brasileiras e brasileiros e a mesma vontade de continuar lutando pelo Brasil.

Eu vivi a minha verdade. Dei o melhor de minha capacidade. Não fugi de minhas responsabilidades. Me emocionei com o sofrimento humano, me comovi na luta contra a miséria e a fome, combati a desigualdade.

Travei bons combates. Perdi alguns, venci muitos e, neste momento, me inspiro em Darcy Ribeiro para dizer: não gostaria de estar no lugar dos que se julgam vencedores. A história será implacável com eles.

Às mulheres brasileiras, que me cobriram de flores e de carinho, peço que acreditem que vocês podem. As futuras gerações de brasileiras saberão que, na primeira vez que uma mulher assumiu a Presidência do Brasil, a machismo e a misoginia mostraram suas feias faces. Abrimos um caminho de mão única em direção à igualdade de gênero. Nada nos fará recuar.

Neste momento, não direi adeus a vocês. Tenho certeza de que posso dizer “até daqui a pouco”.

Encerro compartilhando com vocês um belíssimo alento do poeta russo Maiakovski:

“Não estamos alegres, é certo,
Mas também por que razão haveríamos de ficar tristes?
O mar da história é agitado
As ameaças e as guerras, haveremos de atravessá-las,
Rompê-las ao meio,
Cortando-as como uma quilha corta.”

Um carinhoso abraço a todo povo brasileiro, que compartilha comigo a crença na democracia e o sonho da justiça.”

 

 


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