‘Macunaíma Gourmet’, antropofagia como retrato do Brasil

Reprodução do livreto de divulgação
por Sulamita Esteliam

Acompanhada de minha filha Carol, assisti a estreia do espetáculo comemorativo dos 10 anos do grupo Pigmalião Escultura que Mexe,  no Teatro Francisco Nunes, no Parque Municipal, Centro de Beagá. Macumaíma Gourmet é o título, uma releitura de Macunaíma de Mário de Andrade, em viagem para o presente de um Brasil desmantelado, quebrado na emenda.

Texto forte, encenação criativa, corajosa, instigante; na expressão de Carol, “audaciosa”. Digo que é um soco no estômago na antropofagia e acomodação verde-amarela. Gostei muito, e recomendo.

É a primeira vez que os vejo no palco, mas quem acompanha o trabalho do grupo sabe que a ousadia é sua marca indelével. Orgulho de ter no elenco a sobrinha de coração, Liz Schrickte, companheira do meu sobrinho primogênito, Coninho; faz uma Ápia acolhedora, dentre outras personagens.

Pigmalião é conhecido por percorrer a fronteira entre as Artes Cênicas e Visuais. Reconfigura técnicas tradicionais do teatro de marionetes para produzir espetáculos que provoquem filosoficamente a sociedade.

A proposta “explora as potencialidades hipnóticas da marionete, e leva ao  palco uma obra que, a um só tempo, retrata e faz refletir o povo brasileiro”. Especialmente importante no atual cenário tupiniquim, de grave crise ética e moral das instituições.

Fica em cartaz até o dia 30 de setembro. No dia seguinte o grupo viaja para temporada no Norte-Nordeste, a partir de Palmas, no Tocantins. Palco itinerante, mas com outra peça: O Quadro de Todos Juntos, no Projeto Palco Giratório, patrocinado pelo Sesc. Em novembro desembarcam em Pernambuco, com apresentações em Goiana, Garanhuns e Arcoverde.

A escolha de Macunaíma, o “herói sem nenhum caráter” do romance-símbolo do Modernismo, escrito em 1928, é emblemática nesta quadra que o Brasil atravessa, o Brasil despudorado, acovardado, sem-vergonha de oprimir. O povo como pasto e iguaria a ser comida.

Presta-se à discussão, necessária, do Brasil do aprofundamento das desigualdades, do “Brasil contraste, luxo, pobre, corrupto, corporativo, exótico, absurdo”; um Brasil atormentado, anestesiado diante da cisão de suas estruturas socieconômicas, políticas e culturais.

A direção cênica é de Eid Ribeiro, diretor convidado, ator, roteirista e autor. Macunaíma Gourmet tem, na dramaturgia, a assinatura de Eduardo Felix, diretor do Pigmalião em parceria com Marina Viana, do grupo Primeira Companhia, da nova geração das artes cênicas de Minas Gerais.

O diretor do grupo também assina a trilha sonora.

Felix explica as escolhas:

“Dez anos merecem uma grande comemoração e, para isso, queríamos trazer para os palcos um novo Pigmalião, que um olhar de fora enriquece enormemente. Eid e eu somos parceiros de trabalho de longa data, foi uma seleção natural. Na construção do texto fui percebendo que precisava trabalhar uma dramaturgia mais polifônica, dinâmica, que é a cara da Marina.”

Para dar corpo ao projeto, Pigmalião trouxe artistas para ministrar oficinas preparatórias. Andréia Duarte Figueiredo fez workshop e consultoria etnológica, compartilhando experiências trazidas de vivência com índios Kamayurá, no Alto Xingu na preparação de corpo dos atores-manipuladores. Di Souza, multi-instrumentista, compositor e arranjador cuidou da preparação musical. Ana dos Montes Miguel veio de Madri para trabalhar com o grupo na montagem de figurinos e adereços.

Vale à pena, demais, assistir ao espetáculo. Além da emoção de rever o Chico Nunes por dentro, muitos anos passados. O teatro foi reformado de forma personalíssima, fruto da adoção pelo Instituto Unimed BH. Está deveras bonito e confortável.

Vida longa ao Pigmalião Escultura que Mexe!

SERVIÇO

Macunaíma Gourmet:  10 anos de Pigmalião Escultura que Mexe

14 a 24 de setembro (quinta-feira a domingo) e 27 a 30 de setembro (quarta-feira a sábado), sempre às 20:00hs

Ingressos: R$10,00 (inteira) e R$5 (meia-entrada). Vendas antecipadas pelo sympla.com

Lugares: 500

Classificação Indicativa: 18 anos

Direção: Eid Ribeiro e Eduardo Felix

Dramaturgia: Eduardo Felix e Marina Viana

Elenco: Aurora Majnoni, Cora Rufino, Eduardo Felix, Igor Godinho, Liz Schrickte, Mariana Teixeira, Marina Arthurzzi, Preto Amparo e Rômulo Braga

Teatro Francisco Nunes Av. Afonso Pena, s/n – Centro, Belo Horizonte (MG) Telefone: (31) 3277-6325

 

Projeto Palco Giratório

O Quadro Todos Juntos

OUTUBRO

03/10 – Palmas (TO)

07/10 – Roraima (RR)

10/10 – Cruzeiro do Sul (AC)

13/10 – Rio Branco (AC)

15/10 – Vitória (ES)

21/10 – Paraty (RJ)

23/10 – Ponta Grossa (PR)

26/10 – Cascavel (PR)

29/10 – São Miguel do Oeste (SC)

31/10 – Chapecó (SC)

NOVEMBRO

02/11- Concórdia (SC)

04/11- Xanxerê (SC)

06/11 – Joaçaba(SC)

08/11 – Caçador (SC)

10/11 – Lages (SC)

12/11 – Natal (RN)

14/11 – Mossoró (RN)

18/11 e 19/11 – Belém (PA)

21/11 – Goiana (PE)

23/11 – Garanhuns (PE)

25/11 – Arcoverde (PE)


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