O Marisa Letícia resiste e persiste, e você pode ajudar

por Sulamita Esteliam

O Acampamento Marisa Letícia está em campanha de financiamento coletivo através do sítio Vakinha. A meta é arrecadar R$ 9.600 para concluir as obras de infraestrutura e segurança do local, e ajudar na manutenção, particularmente no pagamento do aluguel do terreno, em torno de R$ 3 mil mensais.

Segurança passou a ser prioridade no acampamento depois do atentado a tiros que sofreu, na madrugada de 28 de abril, e que segue impune.  O ataque deixou duas pessoas feridas e há farto material com imagens do autor dos disparos.

Diante disso, e da decisão de parte dos acampados em se transferir para o alojamento alugado pelo PT e CUT-PR nas imediações da Vigília Lula Livre, a coordenação do acampamento decidiu tomar providências para reforçar a segurança das cerca de 150 pessoas que permanecem no local.

A Polícia Militar retirou as viaturas que, bem ou mal, poderiam servir de intimidação aos ativistas do ódio. Mas as provocações e ameaças se mantêm.

Motoristas que passam na movimentada rodovia onde se localiza o terreno no qual está instalado o acampamento, buzinam, gritam impropérios e coisas do gênero. Euzinha testemunhei vários, durante a meia hora em que fiquei no acampamento.

Só que, agora, a área foi cercada com tapumes e sacos de areia empilhados. Formam uma barricada que protege os acampados de atos de barbárie de que já foram alvo. Grafiteiros estão sendo convocados para, no próximo domingo, 10 vestirem os tapumes com sua arte.

Outra providência é melhorar a habitabilidade e o saneamento do local. Banheiros foram construídos, dotados de chuveiro quente e com piso cimentado; a Copel, empresa de energia de Curitiba, fez a ligação na sexta-feira.

Um barracão de madeira estava sendo coberto, quando estive lá, e também receberá piso de cimento grosso, onde as pessoas em trânsito possam colocar seus colchonetes.

Nesse trabalho, usam as habilidades de Ronaldo, outro mineiro, ex-morador de rua, que chegou ao acampamento para pedir ajuda e foi acolhido. Alegre e comunicativo, ele não se furta à causa que é a liberdade de Lula, como se pode constatar no vídeo abaixo.

Gabriel, filho de Edna Dantas – líder do acampamento-, que é pedreiro de ofício, gerencia o projeto e também põe mãos à obra.

O clima de Curitiba é bastante instável, e não é raro, sobretudo no outono-inverno, combinar frio com chuva e ventania. Mês passado, um temporal arrasou parte do acampamento, e este é outro motivo para PT e CUT migrarem a maior parte dos acampados para outro lugar, uma escola desativada, com acomodações mais dignas.

Quem ficou no Marisa Letícia, “está por sua conta e risco”, afirma o mineiro de Juiz de Fora, Thulio Siviero, que ora exerce o papel de coordenador-Geral do Marisa Letícia.

Por essas e outras, eles se autodefinem como “a resistência da resistência”.

A ajuda vem de militantes petistas locais, como Cláudia Mortari, que está sempre presente, inclusive na contribuição das despesas com a reforma.

É ela quem me apresenta alguns acampados com formação acadêmica, para provar que ali não é “abrigo de vagabundos e maconheiros”, como apontam detratores.

Thulio Siviero, com o casal de visitantes gaúchos

Enquanto  isso, Thulio ciceroneia outros visitantes, dentre eles um casal de gaúchos, com o filho adolescente, no caminho de volta para o Rio Grande do Sul. Quem vai à Vigília Lula Livre quer, necessariamente, conhecer o Marisa Letícia. Alguns vêm e vão. Outros ficam.

Um exemplo é paraibano Danilo Duarte de Sá, pós-graduado e doutorado em Ética e Filosofia Política e que hoje orienta o doutorado integrado da UFPB, UFRN e UFPE. Veio visitar e há 28 dias se incorpora ao acampamento.

Outro que também veio de visita e ficou é o professor de História paulistano, Jocimar Soares. Militante LGBT e do PT, é formado pela Mackenzie SP e pós-graduado em gestão política e com mestrado em História Política pela PUC SP.

Também o mineiro Kadosch Miranda, poeta e artesão, sentou praça. Expõe sua arte e oferece seus livros a quem queira comprar, ou quem deseje ler no local. Tornou-se responsável pela pequena biblioteca no centro da área de convivência do acampamento.

Não pude conhecê-lo, por que ele tinha “dado um pulinho” à terra natal, Ipatinga, para votar em nova eleição para o executivo, neste domingo, 3 de junho; o prefeito eleito teve o registro da candidatura indeferido.

Matheus, o cozinheiro, e sua cadela mascote

O cozinheiro-chefe do acampamento, Weyler Matheus Rodrigues Furtado, tem apenas 19 anos, e também é de Minas, de Ipatinga.

No entanto, não só de mineiros e curitibanos vive o Marisa Letícia. Além de Danilo, da Paraíba, lá está Wellington, do Recife, e outras dezenas de homens e mulheres dos sete cantos do país.

A questão é que, tirante Danilo Duarte, que é orientador de doutorado, e a própria Edna Dantas, que mantém uma espécie de brechó para roupas usadas, praticamente todos os acampados estão desempregados. Chamá-los de “vagabundos”, entretanto, num país onde a taxa de desemprego está acima dos 13% e em ascensão é mais do que cinismo e hipocrisia, é escárnio.

Curitibana, Edna Dantas fechou sua casa e se mudou de mala cuia com a filha e o filho para o local. Mortari me conta

Edna Dantas, ao centro, militante histórica, lidera o Acampamento Marisa Letícia – Foto: Facebook pessoal

 que foi ela quem conseguiu o terreno e negociou o preço do aluguel.

Militante do movimento social de luta pela moradia há 27 anos, formada em Gestão Pública, ela assessorou a senadora Gleisi Hofmann e foi candidata a vereadora pelo PT, nas últimas municipais.

Edna vale-se do bom trânsito que desfruta na comunidade para obter apoio e sustentação para o acampamento.

Tudo isso, fico sabendo da boca de Cláudia Mortari. Edna estava dormindo no momento da minha passagem por lá, e não pude falar diretamente com ela.

Cláudia Mortari na Vigília Lula Livre – Foto: Facebook pessoal

Cláudia é o exemplo de como nada é o que parece. Dona de casa, é casada com um major do Exército, maçon, com que tem dois filhos. Um é capitão do Exército, outro é advogado previdenciário, mas voltado para o Estado mínimo.

Filha de família tradicional de Londrina, norte do Paraná, reproduziu ao seu revés, uma típica família conservadora, de direita. Ela confessa que nunca foi muito ligada à política, mas votou em Lula em 2002 e, desde então, acompanha sua trajetória política.

Dá para imaginar a batalha diária que Cláudia trava para seguir o caminho que escolheu, e que, qualquer pessoa de bom senso sabe que é o lado certo da História. Entretanto, no seu âmbito familiar e de convivência, é taxada como louca por defender “um bandido chamado Lula”:

“Vi muita coisa mudar, para melhor, a partir de seus governos. E em 2013/2014 não aceitei o que estavam fazendo com Dilma Rousseff e resolvi abrir meu face para falar de política. Só arrumei confusão. Perdi amigos, parentes, mas descobri muitos loucos iguais a mim.

Acho que ir à Vigília e ao acampamento me aproxima muito do que sou e do que penso. Minha vida é uma luta diária pela esquerda e dentro de casa. Mas sinto uma frustração enorme de não ter conseguido trazer meus filhos e meu marido comigo. E eu só quero que reflitam, que deixem de ser manipulados.”

Os filhos de Cláudia Mortari são todos, com o perdão da palavra, Bolsonaro. 

Cada um e cada qual sabe onde lhe apertam os calos. Mas gente como essa paranaense não hesita em tirar os sapatos e seguir sua trilha, mesmo de pés descalços. O pessoal do Marisa Letícia tem sorte em tê-la como aliada.

Na sexta-feira, enquanto eu retornava a São Paulo, o Marisa Letícia recebia uma tribo indígena. Os Caingangues, do Rio Grande do Sul passaram o fim de semana alojados lá.

Todos os usuários fazem do acampamento a base para dormir, se higienizar e comer. Sustentação para se juntarem às atividades Vigília Lula Livre, garantem Siviero e Cláudia.

Não obstante, o detalhe mais comovente do lugar é o jardim, mantido com desvelo, a revelar carinho e cuidado. Recebeu o nome de Praça Dilma Rousseff, em homenagem à presidenta legítima, deposta num golpe parlamentar, jurídico e midiático que se aprofunda, dia a dia, e do qual a condenação e prisão de Lula é parte inerente e cruel.

Dilma estava sendo aguardada para batizar seu reduto na quinta-feira, mas a visita ao ex-presidente Lula demorou mais do que o previsto, e a “inauguração” foi adiada para sua próxima ida a Curitiba.

Na política como na vida, sempre há lugar para o imprevisto, o inusitado, o poético; sempre há lugar para a arte, para o divino e para o profano como lugar sagrado do prazer e da contraposição.

Lutar, resistir, mas sem perder a ternura, lembra-se?

Outra particularidade, impossível de relevar, é que à frente do terreno onde se instalou o Marisa Letícia, há uma ermida, com a imagem da padroeira do Brasil.

Depois do atentado e da cisão, a “capelinha” foi restaurada pelos acampados. Talvez, na esperança de que a Senhora Aparecida interceda junto ao Pai e ao Filho por eles e pelos deserdados desta Pindorama desvalida, onde o pior da nossa humanidade emerge sem pudor.

Valei-nos e livrai-nos de todo o mal, amém.

*******

A Tal Mineira passou o chapéu para estar no 6º BlogProg, dias 25 e 26 de maio, em São Paulo. Um esforço coletivo para viabilizar a viagem desde o Recife, traslados e estada, que inclui dois dias em Curitiba, aonde esta escriba chegou no início da tarde da última quarta-feira, retornando a Sampa nesta sexta, e daqui para o Recife na segunda à noite.

A estadia foi programada em função das ofertas disponíveis para as passagens aéreas com milhagem e benefícios.

Sou extremamente grata a cada uma e cada um d@s amig@s que até agora contribuíram para esta jornada. A começar pela minha caçula, Bárbara Esteliam, e o pai dela, que me transferiram milhas e/ou benefícios para garantir os votos.

Muito obrigada, Reiko Miúra pela acolhida em São Paulo, desde o primeiro dia. E obrigada à sobrinha Natália Areta e seu marido Rafael Coelho, por me receberem em sua casa a partir deste sábado e até segunda-feira.

Obrigada, também, Juliana Soares, filha do coração, a primeira a batizar a conta. E obrigada amigas, Mereh, Maria de Lourdes Fonseca e Lúcia Helena; e amigos, Ricardo Campos e Marcos Barreto.

Mas digo que continua valendo, pois ainda não atinge a meta baseada na estimativa das despesas com traslados, alimentação e hospedagem, em Curitiba. Quem puder e quiser contribuir, pode usar a seguinte conta para depósito:

Ideias e Letras Comunicação

Esteliam & Estelian Comunicação integrada Ltda (razão social)

cnpj: 13.602.046/0001-22

Caixa Econômica Federal

Agência 0867 Operação 022 Conta 238-6

Seguimos na batalha.

Abração.

Sulamita

 

 

 

 


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