De arbítrios, escárnios, mareadas, resistências e fraquejadas…

Ah, esse mar,

esse céu,

essa vontade de me dissolver

e renascer noutro elemento

sem lugar para a miséria humana…

por Sulamita Esteliam

Ando mareando sob qualquer brisa ou sol ardente. Mareada de evitar sair sozinha na rua, de precisar de um apoio ou escora por perto, sob pena de ir ao chão. Tomara seja a presença dos Anjos a amortecer, quem sabe, minha ansiedade.

Vamos convir que não está fácil viver nesse Brasil delirante, ópera bufa de milicianos, de arbítrios e escárnios soltos feito besta do apocalipse. Impossível não dar uma fraquejada.

Não, não tenho labirintite. Já estive sob suspeita, há alguns poucos anos, e passei no teste. O que tenho é antena por demais sensível, e aí, qualquer energia atravessada, meu cérebro entra em curto-circuito e deixa meu corpo sem chão. Melhor do que enxaqueca, a alternativa que ninguém merece. 

Pois é. Ocorre que no 8 de março fui obrigada a ficar em casa, exatamente, por que fiquei mareada. Acompanhei as manifestações pelas redes sociais.

Então, não há nada que eu possa escrever ou postar imagens a respeito que você já não tenha visto pela blogosfera ou, quiçá, num ou noutro veículo de comunicação convencional – eles publicam a respeito, será?

Não, não é ressaca do Carnaval que passou, embora tenha brincado até me acabar. Tive a quarta e a quinta inteiras para me refazer, e o fiz dando uma geral na casa que estava de ponta-cabeça e dando uma entrevista num programa de rádio especial sobre meu livro Em Nome da Filha, a propósito do Dia Internacional da Mulher.

Acordei disposta na sexta, passei a manhã ótima. Só não fui caminhar com o maridão porque iria para a passeata à tarde, e não sou assim irremediavelmente fissurada com exercício físico que não seja dança. Só não aguento ficar quieta. Em contrapartida, quando capoto é de vez, e aí nem um terremoto é capaz de me despertar.

De volta da caminhada, Júlio me alertou sobre um protesto numa das esquinas mais movimentadas de Boa Viagem. Moradores de um edifício icônico, o Holiday, bloquearam o tráfego na avenida que faz a ligação para a área central e zonas Norte e Oeste da cidade. O trânsito foi desviado para a beira-mar e o caos baixou sobre a Zona Sul.

Semelhante só no Carnaval, quando as autoridades resolvem faturar e montam blitz sobre o viaduto, como este ano na saída para Olinda pela Agamenon Magalhães. Engarrafamento de hora e meia. Desrespeito e desafio à vontade foliã.

Fomos lá conferir de perto a manifestação. Voltei caindo pelas tabelas.

Havia pouca gente, mas o ato foi bem organizado: havia cordas cercando o cruzamento e agentes da CTTU – órgão da prefeitura responsável pelo trânsito desviavam o tráfego. As TVs, todas, a postos. Alguns motoristas e motociclistas tentavam furar o bloqueio, mas eram desaconselhados pelos próprios manifestantes, respaldados pelos guardas e pelas câmeras.

O Holiday, visto a partir da Avenida Boa Viagem com Rua Ribeiro de Brito – Foto: SEsteliam-set/2017

O Holiday é um bairro dentro do bairro. Abriga perto de 3 mil pessoas nas quase cinco centenas de kitinetes, quarto e salas, e alguns dois quartos do prédio colossal em forma de meia lua. Um cortiço vertical de 17 andares, mal-cuidado, encravado no coração do bairro mais rico da Zona Sul. Fora o comércio de bebidas, comidas e gelo, que abastece moradores e a Praia de Boa Viagem.

Inaugurado em 1956, como exemplo de ousadia arquitetônica para uso de veraneio, o tempo e a falta de manutenção transformaram o edifício numa espécie de favela vertical. O condomínio diz que boa parte dos habitantes estão inadimplentes com a taxa de condomínio, e os “gatos” no quadro de energia são quase uma norma.

E é claro que a especulação imobiliária não tira os olhos do local.

Não é a primeira vez que os moradores protestam por motivo igual: corte de energia elétrica, na sexta havia três dias, segundo moradores com quem conversei.

A Celpe, faz tempo privatizada, desligou a energia por conta de um curto-circuito, ou se recusa a consertar o pipoco sem a regularização dos problemas. O prédio também está sem água, a sujeira salta aos olhos, sem coleta regular de lixo e, por consequência, proliferação de insetos e pragas de toda sorte.

O Corpo de Bombeiros diz que os moradores vivem sob risco e recomenda a interdição

Como assim? Para onde vão as famílias, a maioria de trabalhadores da praia, e dos edifícios do bairro, biscateiro, desempregados e aposentados? Há quase uma centena de idosos que moram ali. Há quem, inquilino, tenha se mudado. Mas a maioria não tem saída, ou fica, ou fica.

O Ministério Público examina a intervenção. A Prefeitura, após seguidas reivindicações nunca ouvidas, com a desculpa de se tratar de empreendimento privado, agora se dispõe a intermediar uma solução. Afinal é uma cidadela sob sua guarda.

E no meio do furdunço do protesto necessário, enquanto um motorista, certamente morador de um dos prédios ao redor, tentava furar o bloqueio no cruzamento interditado, um bêbado contido a custo pelo amigo, vociferava:

 – Não quer mudar, então pinta essa porra!

Se tudo fosse tão simples… A lógica etílica desconhece as nuances. Ou, como dizia minha mãe, fazendo dela o dito popular: “o que olhos não vê, o coração não sente”.

Ou o mais adequado seria “a necessidade faz sapo pular”.

Ou quem sabe o melhor é, “mesmo com todo emblema, todo problema, todo o sistema, a gente”  ir levando… Como naquela canção de Chico e Caetano, de 1978. Vale pro Holiday, um prédio-persona, e vale para o Brasil delirante, deitado em berço nada esplêndido tangido por mãos ineptas e mal lavadas:

 

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