Seminário na UFBA debate o desastre em forma de óleo na costa brasileira

4 mil toneladas de óleo pesado foram recolhidas do litoral nordestino até agora. Não se sabe o volume submerso – Foto: UFBA
por Sulamita Esteliam

De onde afinal veio o derrame de óleo pesado, piche, que contaminou boa parte do litoral nordeste do Brasil, e que agora ameaça a costa do Sudeste?

Até agora, há pelo menos seis fontes supostas – e anunciadas aos quatro ventos, e descartadas dissimuladamente, bem ao caráter do desgoverno que nos assola.

Seis hipóteses equivalem a nada ao quadrado.

A única certeza é de que se trata de um dos, senão o maior, desastre ambiental da história recente do país.

Na verdade, há outras certezas, várias.

Falta organização. Falta empenho. Falta transparência. Falta credibilidade. Falta resposta. Sobra desinformação.

Há outras, várias, perguntas mais importantes do que saber de quem é a culpa, e certamente não é do mordomo ou do suposto filho.

Qual o impacto no ecossistema marinho e por quanto tempo? Que tipo de contaminação pode causar no alimento que abastece a espécie humana?

E no organismo do homem, o que pode provocar, não só o consumo de peixe e frutos do mar, mas o simples banho na águas batizadas pelos componentes do óleo diluído.

O que fazer para minorar as consequências ambientais, sociais e econômicas?

A respostas, minha amiga, meu amigo, não vem do vento nem de fake news improvisadas, mas da ciência: pesquisar, pesquisar, pesquisar.

E para isso é preciso, tempo, investimento e trabalho, muito trabalho.

Grosso modo, e de forma breve, o que escrevo é uma síntese do que se disse na abertura do seminário-relâmpago, e de suma importância, promovido pela da Universidade Federal da Bahia, na tarde desta quinta-feira, 21 em Salvador.

Organizado pela Pró-Reitoria de Pesquisa, Criação e Inovação, reuniu pesquisadores da UFBA que, desde o início do desastre, se debruçam sobre os diferentes aspectos do castigo em forma de derramamento de óleo que, há meses, assola a costa brasileira, sobretudo no Nordeste do país.

Pretende, no dizer do pró-reitor da área, ser um ponto de partida, não de chegada.

São pesquisadores da universidade que, desde o primeiro momento, se engajaram no esforço de determinar a origem geoquímica do óleo derramado e de orientar acerca das medidas a serem tomadas para mitigar os estragos em seus diversos níveis e áreas.

Criou-se um fórum de discussão para facilitar a troca de informações e estimular a facilitar a colaboração entre tais pesquisadores, oriundos de diversas áreas de conhecimento.

O seminário, realizado no auditório do Instituto de Geociência, em Ondina, apresenta, sucintamente. e coloca em debate, os principais aspectos do problema. Tudo em forma de painéis de, pasme, oito minutos cada.

No quadro acima os temas apresentados por cada pesquisador. Abaixo, o vídeo da transmissão ao vivo feita pela TV UFBA. Prepare a pipoca e a cervejinha – café só durante o dia -, porque vale à pena assistir.

Chamo atenção, especialmente, para a fala da professora Guiomar Germani, que detalha a atividade da pesca artesanal e denuncia a falta de ouvida dessa gente – pescadores, pescadoras e marisqueiras e comunidades pesqueiras que sobrevivem do mar e estão sendo impedidos de exercer sua atividade.

Na sequência os professores Miguel Acioly e Paula Pena, falam sobre a mobilização e condições de saúde dos trabalhadores e trabalhadoras na pesca.

Só para se ter ideia, um a cada 200 brasileiros é pescador artesanal, 45% mulheres.  Na Bahia são 130 mil pescadores artesanais, responsáveis por por 70% do pescado que circula no mercado. O Nordeste é responsável por 75% do pescado consumido no Brasil, no que se trata da pesca artesanal.

A fala da professora Guiomar e dos colegas que a sucedem é corroborada pelos depoimentos de trabalhadores e trabalhadoras a partir do ponto 2:51 minutos. 

Sem trabalho, não há renda nem subsistência. O crime ambiental aciona uma série de males em cadeia, para além da contaminação ambiental. A insegurança econômica retira a segurança alimentar, as condições de sobrevivência, a  segurança alimentar e o equilíbrio social, emocional e psicológico, as condições de saúde.

É mais um crime, grave, na verdade, mas o fato traz uma denúncia mais grave, para quem tem no mar, no mangue o espaço de trabalho e vivência cotidiana: a contaminação já existe, por metais pesados, fruto da exploração turística, da proliferação dos grupos hoteleiros, de resorts, da exploração de petróleo, do derrame de poluentes, do modelo de desenvolvimento que faz do mar um receptáculo de dejetos.

Quem me envia as informações é minha amiga Mana Coelho, das melhores fotojornalistas com quem já trabalhei na rua, como se diz no jargão da reportagem. Amigos são bençãos.

Pernambucana de origem, exerceu a profissão nas Minas Gerais, onde nos conhecemos. Tornou-se professora na área, na PUC Minas, e também de Sociologia, na Fafich/UFMG. Andou anos pelo MEC, corrijo, e agora está morando no sul da Bahia.

Integra o grupo com mais de 200 pessoas, muitos pescadores e muitas pescadoras e marisqueiras, de Serra Grande e norte de Ilhéus, que se mobiliza em defesa do ecossistema litorâneo, fonte de vida dessa gente, pescadores artesanais e povos tradicionais.

 

***** 

Postagem revista e atualizada ene vezes, a última às 22h49m:  correção de erros de digitação e informação; inclusão de relatos de trabalhadoras e trabalhadores da pesca artesanal e povos tradicionais.


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