No rastro do temporal, destruição e dor

por Sulamita Esteliam

O dilúvio encobriu minha Macondo de origem de água, lama e escombros. Os mortos se contam às dezenas – 13 em Belo Horizonte, 47 em Minas Gerais, 4 desaparecidos e 65 feridos. Se contar todo o período chuvoso, desde fins de outubro, início de novembro, chegam a 57 óbitos.

A capital e região metropolitana estão sendo duramente castigadas: Beagá, sobretudo o Barreiro e Zona Oeste, região da Pampulha, Venda Nova, Nordeste da cidade; Contagem, Betim, Raposos, Santa Luzia, Macacos, a própria Brumadinho e tantas outras não escapam.

Mas os estragos se espalham por Minas inteira, sobretudo nas zonas da Mata, Nordeste e Triângulo. Há 101 municípios em situação de calamidade pública, já decretada pelo governo do Estado. Já são 16,6 mil desalojados e 3,3 mil desabrigados.

Sim, os escombros e os cadáveres, como em qualquer desastre natural, não são reserva cativa dos pobres. Mas são eles que habitam as margens dos córregos, rios, as encostas e os morros. Periféricos, humilhados e perdidos em suas carências e remendos.

Um ano após o desastre-crime da Vale em Brumadinho, quando a cidade e o estado ainda choram 272 mortos e a agonia do Rio Paraopeba, mais tristeza e miséria. Luto.

São as partes da história não têm nada de natural. E é uma conta que é preciso ser cobrada. Não há lugar para esquecimento.

No presente, ainda que tenha chovido como nunca nos últimos 110 anos de Beagá, que acaba de completar 122 anos. Isso mesmo. Palavra do serviço meteorológico, desde que se iniciou a série de medição pluviométrica.

O sol voltou a aparecer, mas apenas brevemente. A previsão é de mais chuva até quarta-feira, 29. Muita.

A região do Barreiro, meu território ampliado, uma cidade dentro da outra, que antecede a célula-mater, foi engolida por 198 mm de chuva na quinta e sexta-feiras.  É chuva para seis meses em tempo das águas. E tome desabamentos, e mortes, e desalento. Só na Vila Bernadete, sete pessoas se foram em soterramentos.

O bairro periférico em que cresci, uma ilha chamada Bairro das Indústrias, escapa das inundações, porque é uma ilha. Entre o Córrego Ferrugem, o Rio Arrudas, o inicio da Av Tereza Cristina – que cobre o ribeirão e liga o Barreiro à Zona Oeste de Beagá -, e o bairro que chamo de BDI, há os trilhos da linha férrea,  na divisa com Contagem. Do outro lado, onde a avenida-rio faz a curva, ainda na direção oeste, o anel rodoviário o protege..

Do lado de cá, é Belo Horizonte, do lado de lá Contagem. Ali, onde os dois municípios se confundem – na expressão feliz  cunhada pelo meu amigo Jurani Garcia nas orelhas do meu livro Estação Ferrugem, há mais de 20 anos.

E minha gente que ainda mora lá, está muito longe do desespero que ronda a vida dos vizinhos de bairro, a Vila São Paulo, ou mesmo a parte da Vila Betânia que margeia a Teresa Cristina, já novamente em Beagá. O que os une, além da proximidade geográfica e convivência, é o sofrimento solidário.

Resta nada do pouco com que os ribeirinhos sobreviviam e do muito esforço com que sustentam as próprias dificuldades, sempre.

Ocupações, sim, em boa parte. Há os oportunistas, também, em grande escala. No entanto, parcela vultosa, senão a maioria, não tem alternativa.  Cabe ao Estado protegê-los, abrigá-los, dar-lhes condições de vida digna, não desalojá-los, criminalizá-los, violentá-los.

Até porque, as “soluções” de engenharia e urbanização têm se mostrado inadequadas ao longo do tempo. E a memória apaga a destruição passada. E a necessidade é uma pressa sem tamanho, onde não cabe medo ou prudência.

Cobrir rios é política desde o tracejamento da cidade das Alterosas. E expulsar os sem eira ou beira também. Todo ano a chuva cai, em menor ou maior volume, e explode com a beleza plástica e, para além dos efeitos especiais, deixa um rastro de estrago e, quase sempre, dor.

Em Tempo: 

A Cruz Vermelha pede doações para os sobreviventes da chuva: alimentos não perecíveis, produtos de limpeza, produtos de higiene pessoal, água mineral, fraldas.

As doações podem ser entregues nos seguintes endereços:

Ponto de apoio da Cruz Vermelha – Avenida Úrsula Paulino, 1.555, Bairro Betânia;

– Sede da Cruz Vermelha – Alameda Ezequiel Dias, 427, Centro. 

Informações: (31) 3239-4200.

O Sindicato dos Jornalistas de Minas Gerais e a Casa dos Jornalistas também estão recebendo doações, de segunda a sexta-feira, horário comercial: Av. Álvares Cabral, 400, Centro.

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Com informações de: Estado de Minas, Hoje em Dia, O Tempo e BHAZ

 

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