O efeito bumerangue da truculência

 

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Campanha do segundo turno começou pelo Nordeste em alto astral. Na foto, encontro com apoiadores no Museu do Ritmo, Salvador/Ba, dia 09 – Foto: Ichiro Guerra/Dilma13/Fotos Públicas

 

por Sulamita Esteliam

Saí paramentada para minha caminhada matinal nesta sexta: adesivo Dilma 13 no peito e colados (vários) na mochilinha de tecido cru, que trouxe de herança do último encontro de blogueiros,”sujos”, em São Paulo. É que do exercício mais ou menos rotineiro seguiria a cumprir tarefas na rua.

É curioso como o olhar das pessoas vai direto para o adesivo, e só depois para a sua cara. Não, não fui molestada, mas meio que olhada como bicho raro, no percurso de 4 km pela orla de Boa Viagem. Curiosidade ou espanto, e alguma aprovação. Mas sempre foi assim.

Depois de me exercitar, passei pelo banco, e a parada seguinte foi no mercado. Mal botei os pés porta adentro e o vendedor de fiada de caranguejo abriu o sorriso e disse, polegar direito em sinal de positivo: “É isso, é Dilma, e só dá ela! Aquele traste tem que aprender a respeitar uma senhora…”

Devolvi o sorriso e a glosa: “Traste é um bom nome para o rapaz”. E segui entrando, mas o moço gritou, perguntando “tem mais desse aí?” Queria adesivo, como só tinha os que carregava comigo, ofereci para ele escolher um dos que estavam colados na capanga. Aceitou feliz, retirou um e o colou no próprio peito. “Valeu, a cola também é boa…!”

Rimos juntos.

O vendedor de macaxeira entrou na conversa, ansioso para também manifestar sua opinião: “Que home é aquele, dona!? Só vai pra TV para falar mentira… e ainda por cima agride mulher. Voto num cabra desse nada…”

Claro que emendei um “faz muito bem”, e tornei a oferecer um adesivo usado, que ele também aceitou com alegria. E assim foi na banca de chapéus e produtos artesanais – sempre passo lá para conferir se há novidades -, na de castanhas e também na lojinha onde compro queijo de coalho.

Aecio e o odio_79O assunto da manhã no mercado popular de Boa Viagem era, não o debate de ontem no SBT, mas a truculência do candidato tucano com Dilma Roussef, candidata à reeleição. Uma agressividade que chama a atenção, e da qual se ele e seus seguidores – a palavra adequada talvez fosse asseclas – se vangloriam, só eles próprios acham graça.

Confesso que não compreendo o que o candidato quer passar, ou a quem acha que engana quando representa o papel de aviltado. Acusa a presidenta da República de ser “leviana” e “mentirosa”. Logo ele, presa fácil da botija.  Fala para os de sempre.

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“Firmeza ou covardia”, pergunta Rodrigo Vianna em artigo no Escrevinhador que vai no cerne da questão. Lembra algo que não é detalhe: a agressividade se dá quando o embate é com mulher, nunca com homens.

“Cordato com os homens, virulento com as mulheres que ousam desafiá-lo, este parece ser o perfil de Aécio Neves – um político que nunca teve dificuldades nem contrariedade na vida”, escreve o colega jornalista e blogueiro.

Na minha terra o nome disso é covardia mesmo. Que traduz despreparo emocional para lidar com o contraditório. O comportamento do 1º Neto é de filho de avô, mimado, birrento e mal-educado, que desconhece limites e não vislumbra o que seja respeito. Como pode governar um país?

Penso cá com meus botões o que leva uma mulher a votar num sujeito que se mostra o supra-sumo do machismo e da misoginia…

como_conquistar_13_votos-01A postura do 1º Neto é de um cinismo mórbido, uma virulência gratuita, característica, aliás, do jeito tucano e de todo o espectro direito se expressar; pessoalmente e nas redes. Sei que há excessos também, de parte da militância petista. Por isso é interessante que a campanha de Dilma tome a iniciativa de recomendar cautela.

Todavia, parte do lado tucano o mau exemplo nesta campanha, especialmente neste segundo turno. A entrevista em que FHC, mentor de Aécio, descarrega preconceito contra o eleitor nordestino, que vota no PT “por que é menos informado”, é prova da infelicidade do estímulo.

E depois a culpa é da Dilma que escolheu o embate. Ela não pôde fugir do enfrentamento, o que é muito diferente.

Causa-me espanto ver jornalistas experimentados na cobertura política, e a quem respeito, falar de “desencanto” e “baixaria” de parte a parte. Ora, há mais de um ano que a presidenta, candidata à reeleição, e seu governo, são bombardeados, desancados pela mídia venal. Foi inclusive criticada por não reagir. Uma tentativa de desconstrução que espanta até a comunidade internacional e depõe contra o país.

Na verdade, a campanha do opositor em pauta sequer precisa dar-se ao trabalho de definir uma linha. Segue o diapasão midiático, a oposição que conta e que não tem pudor de desconsiderar os fatos, ou os usam como lhe convém.

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Imaginava-se que a barbárie tivesse tido seu ápice na solenidade de abertura da Copa do Mundo. Como esquecer o dia e a situação em que a elite predadora nacional, reforçada por dúzia de globais, se achou no direito de mandar a presidenta da República ir tomar naquele lugar. Mas não.

O problema maior é que não fica no verbal, tem evoluído para lamentáveis episódios de violência física, particularmente em São Paulo, onde um militante foi morto no primeiro turno por fazer campanha para o PT. Mas também no Rio de Janeiro e em outras partes do país. Como escreve Matheus Piconelli, em bela crônica em Carta Capital, “a apologia do extermínio deu as caras nesta eleição”.

Exemplifico com o amigo Ênio Barroso, blogueiro paulistano, e cadeirante, atacado por um grupo de bate-paus  na noite da última terça-feira, na Praça Rooseevelt, centro de São Paulo. O relato está no Facebook e também no Blog da Cidadania, do Eduardo Guimarães.

Ênio é pessoa muito querida no movimento de blogueiros. Militante histórico do PT é doce e divertido, apesar de sua condição, e de ter penado cadeia e tortura durante a ditadura – e que seja a última e derradeira que o país viveu.

Mas nosso amigo é democrata intransigente, e gravou um vídeo de agradecimento pela solidariedade que recebeu nas redes sociais e na blogosfera. E aproveitou para fazer um apelo ao fim da beligerância política, que não pode vigorar, para o bem da nossa ainda jovem e incompleta democracia.

É com Ênio Barroso que finalizo, com votos de que a próxima e última semana de campanha seja de paz  e do bom combate.

 

 


6 comentários sobre “O efeito bumerangue da truculência

  1. Bravo Sulamita!!!!! Adorei tua publicação, digna de ser compartilhada!

    A política e o machismo! Ou o machismo e a política? É, a ordem não altera os fatos…

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