A cultura do estupro mata, todos os dias

por Sulamita Esteliam

Custei a sair do torpor, depois que vi, e comentei, a denúncia na TL do meu neto mais velho. Fui despertada por amigas das redes sociais e, particularmente por um grupo chamado Coalas Minas, no Zap-Zap. Minha filha Carol fez a reverência, e me incluiu. E eu mergulhei, e acabei entrando na proposta de gravar um vídeo, que resultaria em produção coletiva, para veiculação polifônica nas redes nesta quinta de feriadão.

Um aperitivo da nossa indignação contra a pior das violências, a violação do nosso templo, o corpo das mulheres e meninas, que só  a elas pertence.

Seguem, um após  o outro, os vídeos produzidos pelas mulheres-meninas mineiras em algumas horas da tarde do dia 26 de maio de 2016 – com a promessa de que outros virão, e outros mais…. As meninas, todas juntas dizem NÃO!

  1. As meninas, todas juntas, num grito coletivo: NÃO!

 

 

2. Euzinha, que acabei parte do todo…

 

 

Entro em estado de choque toda vez que me deparo com barbáries como essa do estupro coletivo de uma menina em Santa Cruz, Rio de Janeiro. Esta semana, 30 homens, 29 deles manietados por um agressor abandonado, estupraram uma garota. Nenhum deles, foi capaz de dizer NÃO, ou ainda, PARE!, como observou a j0vem amiga pernambucana, Luh Lima, no Instagram.

As notícias da noite e madrugada, já da sexta, dão conta da prisão de quatro dos agressores da garota que, agora se sabe, tem 16 anos. Isso, na mídia convencional. No Twitter que nos leva ao FB/Preto Zé, a informação de que, fora os quatro, “dois foram barbaramente mortos”.

Não é pela violência que vamos dissolver a cultura do estupro. Barbárie não extermina barbárie. E a violência sexista, no mais das vezes, mora dentro da nossa própria casa. Infelizmente.

E a nossa arma, de todas as mulheres e meninas, é denunciar. Na certeza ou na dúvida, LIGUE 180.

De qualquer forma, o Rio não está só. No interior do Piauí, no mesmo fim de semana, na sexta, uma menina de 17 anos foi estuprada por cinco rapazes, um deles seu ex-namorado. Foi encontrada em local ermo, amarrada e amordaçada com a própria calcinha, nos moldes da garota morta há um ano, em outra cidade do mesmo estado.

Há quatro anos, em Queimadas, interior da Paraíba,  duas mulheres foram estupradas e assassinadas numa festa de aniversário em que outras cinco também foram vítimas de estupro coletivo, presente de aniversário de um irmão para o outro.

Isabela rejeitara Luciano, que pediu a Eduardo uma vingancinha básica como presente de aniversário. Michele, amiga próxima, foi a cereja do bolo, deglutidas até a morte – porque poderia reconhecer os agressores. As demais, serviram como adereço.

Dez homens participaram do crime hediondo. De inicio, só o mentor do crime foi denunciado. Dois anos depois, pegou 108 anos de prisão por homicídio, formação de quadrilha, cárcere privado, corrupção de menores e lesão corporal.

A grita da sociedade levou ao indiciamento dos demais, e quando se deu a condenação de Eduardo, o irmão produtor da festa, Luciano e outros cinco, maiores de idade à época do crime, já cumpriam de 26 a 44 anos de prisão por cárcere privado e estupro.

Não obstante, quantas outras, Isabelas, Micheles, Marisas, Robertas, Marias são alvo Brasil e mundo afora, cotidianamente, todos os dias, sem que se tornem manchetes da mídia ou viralizem nas redes sociais?

A cultura do estupro é um câncer que extrapola o machismo. É a cultura da posse, da dominação e do ódio; do ódio às mulheres que se traduz em misoginia – ao poder que elas representam, e que não se submete à força bruta, ainda que mortas sejam.

Fico por aqui.

 

Mas não posso deixar de compartilhar, a propósito, a intervenção poética, direta e reta, de Luara Colpa, no  BHAZ.

Além de tudo, oferece os caminhos para denúncia de casos de tamanho horror – para além do Disque 180!

Estupro-2016_n

 

Trinta Homens

 

Trinta.

Vinte e nove

Vinte e oito

Vinte e sete

Vinte e seis

Vinte e cinco

Vinte e quatro

Vinte e três

Vinte e dois

Vinte e um

Vinte

Dezenove

Dezoito

Dezessete

Dezesseis

Quinze

Quatorze

Treze

Doze

Onze

Dez

Nove

Oito

Sete

Seis

Cinco

Quatro

Três

Dois

Um

Nenhum.

Eu tiraria todos – um por um – de cima de você neste momento, irmã.  Eu limparia seu corpo, tiraria o som dos seus ouvidos, o cheiro deste lugar, as lembranças. Se o tempo voltasse, eu os impediria de terem saído de casa. Todos eles.

Eu desligaria os celulares, os computadores, tiraria baterias dos carros, dos ônibus. Eu faria feitiço, veneno, poção, dor de barriga para todos. Trinta.

Eu te levantaria daí e te levaria pra ver o pôr do Sol no Arpoador, se o mundo girasse ao contrário… Mas o mundo não gira.

Foram Trinta.

Um ex-companheiro e vinte e nove “amigos”. Nenhum deles se compadeceu. Vinte e nove seres humanos toparam se unir a um criminoso.

Trinta.

Trinta e um agora compartilharam. Trinta e dois riram. Trinta e três justificaram. Trinta e quatro se excitaram, trinta e cinco procuram o vídeo neste momento.

Agora o número se torna uma projeção geométrica. A misoginia aparenta infinita, o ódio e o machismo aparentam grandiosos demais. A primeira reação do público masculino em geral é ver o vídeo.

No entanto, quando pensei que fôssemos só nós duas, olhei para o lado e vi três, quatro, cinco. Chegaram seis, sete, oito, trinta.

Em segundos fomos noventa, cem, mil, somos milhares por você. Aquele som, aquele cheiro… Queremos que sua memória apague, mana!

E que o mundo nos ouça: “A CULPA NUNCA É DA VÍTIMA”. Que ecoe.

Que ecoe: Daqui vocês não passam.  Não passarão.

Que cada uma de nós seja porta voz do ocorrido¹. Se a grande mídia não denuncia a violência contra a mulher periférica, que nossas mãos sejam denúncia.

Na violência contra a mulher todas metemos a colher.

 

DENUNCIE!

No site do Ministério Público, Polícia Federal e disque 180. Mexeu com uma, mexeu com todas.

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Disque 180.

¹- Em tempo: Acaba de ser noticiado via redes sociais, que uma garota “Bia” fora estuprada por 30 homens no RJ. O motivo é vingança do ex namorado, que convidou mais 29 “amigos” para estuprar a vítima. Nenhum se absteve, nenhum deles parou os amigos, nenhum saiu do local, nenhum deles se compadeceu com a vítima (que neste momento está hospitalizada).

Não obstante, filmaram o ocorrido, postaram no twitter e muitos outros homens compartilharam em suas redes sociais, fizeram piada e justificaram o crime.

Em segundos, milhares de mulheres se uniram na tarefa da conscientização de umas às outras, da denúncia formal, via PF, MP e Disque 180.

“O correto, nesses casos, não é denunciar o perfil do divulgador do material pela “timeline” da rede social.

Ajudem a denunciar, copiando a URL dos twittes e colando nos locais de denúncia dos sites :

– http://denuncia.pf.gov.br/
– http://www.safernet.org.br/site/
– http://www.humanizaredes.gov.br/disque100/

Na ouvidoria no site do Ministério Público do RJ (mprj.mp.br/cidadao/ouvidoria) É importante se identificar.

O Ligue 180 também é um caminho para denunciar.”

__________________________________________________________________

Luara Colpa é brasileira, tem 28 anos. É mulher em um país patriarcal e oligárquico. Feminista e militante por conseguinte. Estuda Direito do Trabalhador e o que sente, escreve. 


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