A República sob jogo de culpas e o jugo do cinismo

por Sulamita Esteliam

Eram oito horas da manhã. Estava numa conexão no Rio de Janeiro – transformada em escala por conta da chuva e do tempo curto -, a caminho do Recife, quando recebo pelo zap-zap mensagem da amiga-irmã Eneida, em resposta ao meu bom-dia!

Dizia: “A República caiu: Janot manda prender Renan, Sarney e Jucá. Para Sarney, tornozeleira. Leia O Globo. Deve ter no avião.”

Não tinha, mas viva a internet móvel. E lá estava a manchete do jornal carioca, que se pretende nacional – assim como os outros dois jornalões paulistas, todos do PIG -, do dia 07 de junho de 2016.

Aí, quando se lê a reportagem, sabe-se que o ministro Teori Zavaski está com o pedido há mais de uma semana. Foi mais ágil com o Delcídio Amaral, ex-tucano e agora também ex-PT e ex-senador; cassado por falta de decoro, pouco antes da votação da abertura do processo de impedimento da presidenta legítima Dilma Rousseff.

Pau que dá em Chico, dá em Francisco. Será, mesmo Rodrigo Janot, ministro Zavaski?

E a pergunta seguinte é: por que vazar, e logo para O Globo, o jornal dos Marinho, ponta de lança do golpismo midiático contra Dilma, defensor do Cunha, do Temer, o usurpador, e de qualquer um que possa melhor gerir seus interesses?

Pressão sobre o Supremo? E o STF vai ceder à chantagem? E o Senado repetiria com Renan, que o preside, e Jucá o que fizeram com Delcídio?

E o Eduardo Cunha quando será preso? E o Temer, até quando?

Tereza Cruvinel, em seu blogue, escreve sobre estas e outras questões indissociáveis do caso.

A propósito, sugiro a leitura, também, do artigo de Miguel do Rosário no Cafezinho, de onde retiro a charge que ilustra esta postagem.

No entanto, Sarney poderia ser um caso à parte. E representar uma brecha para prender o alvo principal de todo esse processo golpista, incensado pela “moralidade” que se pretende com a Operação Lava Jato, sob o comando da República de Curitiba: prender Lula, com ou sem substância legal, e torná-lo inelegível para 2018.

Sarney, ex-governador do Maranhão (Arena-PDS-PFL) ex-vice de Tancredo Neves em eleição via Colégio Eleitoral, ex-presidente da República que herdou no luto. E que lhe chegou em mais uma manobra de fim de ditadura que, teoricamente, não aceitaria a assunção do presidente da Câmara, deputado Ulysses Guimarães (PMDB “autêntico”). Ex-senador pelo Amapá (PMDB), ex-presidente do Congresso Nacional e, é preciso dizer, ex-aliado dos governos Lula e Dilma.

Todavia, o melhor ainda estava por vir: este mesmo Sarney – que o povo do Maranhão conhece muito bem, e também a seus rebentos-sucessores -, divulgou nota externando sua  “perplexidade, indignação e revolta” com o pedido do PGR.

E é sobre esta reação que trata o texto a seguir, que capturei no FB, e que transcrevo com autorização da autora:

Charge original: Jarbas para o Diário de Pernambuco

Charge original: Jarbas para o Diário de Pernambuco

 

A nota de Sarney

por Eneida da Costa – no FB

Depois do vazamento do pedido de prisão de José Sarney, pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o ex-presidente soltou uma nota se dizendo perplexo, indignado e revoltado.

Eu também estou perplexa, indignada e revoltada com a nota.

Sarney, do alto do delírio de estar acima da lei e da ordem, conspira contra o Estado Brasileiro e esbraveja por ter sido pego no pulo.

Esbraveja tal como quando, em julho de 2009, foi flagrado em prática de nepotismo, ao mandar nomear o namorado, Henrique, da neta, Bia, para a vaga do irmão dela, Bernardo que pedira demissão do cargo de assessor parlamentar.

No anteontem da história, Sarney disse em coletiva que, como membro e ex-presidente tinha direito de “usar o Senado”.

Cínico, volta a jogar na cara do povo brasileiro que dedicou “sessenta anos de vida pública ao País”.

Traduzindo, ocupou por sessenta anos cargos públicos e usou e abusou dessa condição para espalhar ramificações no Senado, usando a Casa como propriedade de sua família como ficou provado na Operação Boi Barrica, rebatizada pela Polícia Federal de Operação Faktor.

Ficou provado, mas não deu em nada. A plutocracia, com sessenta anos de atividade, anulou as provas contra os Sarney. O processo que anulou provas da Polícia Federal na Boi Barrica correu em tempo recorde. O relator do caso, no STJ, em seis dias, publicou o voto em favor dos réus acusados de formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e tráfico de influência.

Ao ter ciência do seu pedido de prisão, domiciliar com monitoramento por tornozeleira, Sarney reivindica seu direito divino e mente “Jamais agi para obstruir a Justiça”.

E blasfema: “O Brasil conhece a minha trajetória, o meu cuidado no trato da coisa pública”. Talvez, o Brasil oficial, do Senado, do Planalto pode conhecer as artes e as manhas de Sarney, mas as brasileiras e os brasileiros sabem muito pouco sobre a trajetória política de Sarney. Quando estiveram perto de saber alguma coisa, os tentáculos enredados nos corredores do poder calaram a investigação.

Numa tentativa ridícula de se vitimizar, o velho marimbondo de fogo reivindica respeito, quando, no papel de ex-presidente da República, devia dar o exemplo, respeitar as autoridades e as instituições, principalmente no momento crítico para a estabilidade política do país.

Sarney, que se despediu do Senado dizendo que a política perdera a graça, reaparece na retranca policial da política. Reivindicando o direito de usar da coisa pública a seu bel prazer, atestando que se serviu do país como se serve do seu quintal, se achando acima da justiça e das instituições. Candidato a prisão domiciliar com monitoramento por tornozeleira.


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