Carta de São Paulo: blogueir@s exigem eleições livres e pedem a demissão de Pedro Parente

A plenária comandada por Altamiro Borges, presidente do Barão de Itararé, com Rodrigo Vianna, o Escrevinhador e representantes dos coletivos da juventude – Fotos: Blog da Dilma
por Sulamita Esteliam

O A Tal Mineira publica a Carta de São Paulo, aprovada ao final do 6º Encontro de Blogueir@s e Ativistas Digitais, em São Paulo, dias 25 de 26 de maio.

Registre-se que foio menor de todos os encontros, desde 2010, quando tudo começou: 175 comunicadores de 17 estados que fazem o contraponto à narrativa manipuladora e golpista da mídia venal. Há dois anos, em Beagá, que teve na abertura a presidenta Dilma Rousseff, em luta contra a farsa do impeachment, foram cerca e 500 pessoas.

Mas o formato, embora criticado por alguns, trouxe a novidade dos coletivos de mulheres e jovens da periferia paulistana, que fazem da blogosfera uma extensão da sua luta cotidiana por sobrevivência com respeito e dignidade: Preta Rara, Nós Mulheres da Periferia, Alma Preta. Relatos e diálogo enriquecedores, que merecem capítulo à parte, o que farei brevemente.

Tempos de crise, que não poupam ninguém. Impossível não notar a ausência da maioria das, digamos, estrelas do movimento. Mesmo que boa parte delas se baseie em São Paulo ou no Rio, que é vizinho à capital paulista.

Compreende-se que são profissionais cada vez mais ocupados em seus múltiplos afazeres. Mas muitos dos que se deslocaram, com sacrifício, de suas cidades, seus estados, não esconderam uma pontinha de frustração.

O mundo digital é movido a cliques. E de que vale um clique com uma blogueira anã, de um “blogue doméstico” – na expressão irônica de um blogueiro de calibre ao referir-se ao próprio blogue -, como A Tal Mineira, por exemplo?

Em contrapartida, destaque para a participação de pessoas de outros campos de atividade, que acompanham os blogues progressistas, e fazem a disputa contra-hegemônica por consciência política e ação de cidadania. Uma lição.

É o caso, por exemplo, da urbanista Carla Siqueira, de Vitória. Professora da Universidade Federal do Espírito Santo, foi escalada pelo pai, que edita um sítio sobre democracai.  Ou das professoras Vanda Costa, de Mossoró, e Conceição Castilho, da capital paulista, que foram ver de perto como é que o movimento se articula, e participaram ativamente do debate.

Até piloto de aviação comercial bateu ponto. E foi prazer imenso conhecer essas mulheres e alguns homens plugados na alteridade da mídia alternativa, contraponto indispensável ao jornalismo sabujo que vigora no País.

Edva Aguilar, conhecida na blogosfera e nos atos políticos por seu ativismo em prol da presidenta Dilma Rousseff, a legítima, mostra que não está para brincadeira.

Logo na abertura do #6BlogProg foi ao microfone requerer a inclusão da exigência de anulação do golpe na Carta de São Paulo. No dia seguinte, chegou de emenda em punho e a entregou à coordenação com o suporte de três dezenas de assinaturas; dentre elas, a desta velha escriba.

Emenda incorporada como segundo item da carta, que transcrevo com redação e edições de Rodrigo Vianna, o Escrevinhador:

O resistentes ou remanescentes

CARTA DE SÃO PAULO

 

  “A crise é deles, a resistência é nossa”

O 6º Encontro Nacional de Blogueir@s e Ativistas Digitais e Coletivos de Mídia ocorre num momento gravíssimo, de crise e resistência.

A crise é responsabilidade dos setores que, de forma irresponsável, atentaram três vezes contra a democracia e os direitos sociais: primeiro, com o golpe que derrubou Dilma em 2016; depois, com as reformas ilegítimas e sem respaldo popular que promovem o maior ataque aos direitos trabalhistas desde a Revolução de 1930; e, por fim, com a prisão de Lula – líder de todas as pesquisas eleitorais e que ameaça (se eleito) revogar as medidas ilegais aprovadas pelos golpistas.

A crise é dos golpistas, a resistência é nossa!

Nós, blogueir@s, ativistas digitais e coletivos de mídia de 17 estados do Brasil, reunidos em São Paulo nos dias 25 e 26 de maio de 2018, nos declaramos em estado de resistência permanente até que Lula esteja solto, até que as reformas tenham sido revogadas, até que o golpe tenha sido derrotado, e até que o assassinato de Marielle Franco tenha sido esclarecido, até que sejam realizadas eleições diretas, democráticas, e livres!

Exigimos a demissão imediata de Pedro Parente da presidência da Petrobrás e o fim da política destrutiva de reajustes de preços; manifestamos nosso repúdio ao uso das Forças Armadas para desobstruir as estradas; e declaramos apoio aos movimentos que exigem a revisão da política antinacional adotada por Parente e o PSDB à frente da estatal. São esses movimentos que ajudam a colocar em xeque o projeto neoliberal do governo golpista, impedindo também que a paralisação dos transportes em todo o país sirva para fortalecer um discurso extremista – e inaceitável – de “intervenção militar”.

Declaramos, ainda, que o papel daqueles que atuam na resistência da contra-informação é cada vez mais decisivo, quando sabemos que a Globo e seus parceiros menores do oligopólio midiático integram o núcleo duro de um golpe que já deixou mais de 13 milhões de desempregados.

Sem Globo, não haveria pato amarelo nas ruas. Sem Globo, não haveria juiz que “faz a diferença” – usando sua toga para proteger tucanos e perseguir lideranças populares.

Mais que nunca, é preciso resistir à máquina midiática da mentira.

É preciso resistir também ao bloco PSDB/Bancos/Globo que – com a cobertura dos setores golpistas do Judiciário, do Ministério Público e da Polícia Federal – promove o desmonte das políticas sociais, a entrega criminosa do Pré-Sal, e quer transformar o Brasil numa colônia dos Estados Unidos.

O Brasil é hoje dominado por um governo de traidores. Na presidência, um homem que traiu a companheira de chapa e o povo brasileiro. No Itamaraty, um traidor da memória de Marighella – um ministro que reduz o Brasil à posição de capacho dos interesses de Trump. Na Justiça, magistrados que traem a lei e a Constituição.

Nós, blogueir@s, ativistas digitais e coletivos de mídia, seguiremos a resistir. E, por isso, declaramos que:

1 – Lula é um preso político e exigimos a revogação imediata de sua prisão; Lula foi preso após um processo injusto e sem provas, cujo único objetivo é impedir que ele seja de novo eleito pelo povo brasileiro; o golpe contra Dilma e a prisão de Lula são partes de um golpe que interditou a democracia no Brasil, com apoio claro da imensa maioria da mídia comercial e golpista;

2 – repudiamos o impeachment fraudulento da presidenta Dilma, sem confirmação de crime de responsabilidade, e exigimos a anulação deste ato bem como a recondução imediata da presidenta ao cargo usurpado; o direito ao voto é garantido pela Constituição, assim como o respeito ao resultado das urnas;

3 – manifestamos todo apoio aos sindicatos e aos movimentos sociais, diante dos ataques promovidos por meios de comunicação que não respeitam o pluralismo e promovem a criminalização de quem luta por direitos sociais;

4 –  condenamos todo tipo de ameaça e violência contra comunicadores – sejam eles blogueiros, ativistas digitais ou jornalistas a serviço de empresas da mídia comercial e golpista;

5 – entendemos que um jornalista/comunicador obrigado a mentir, ou impedido de ouvir todas as versões de uma notícia, como tantas vezes acontece na mídia comercial e golpista, é também vítima de violência; a censura praticada por empresas de comunicação contra seus profissionais é hoje a maior ameaça à liberdade de expressão no Brasil;

6 – a Globo e seus parceiros menores do oligopólio midiático são os grandes promotores da mentira jornalística no Brasil; são eles – Globo, Folha e a quase falida editora Abril, entre outros – os maiores propagadores de “fake news”; essas empresas não têm moral para promover campanhas contra notícias falsas, menos ainda quando se aproxima um período eleitoral em que, historicamente, a mídia comercial age de forma partidarizada e mentirosa;

7 – alertamos para o risco de se aceitar “agências de checagem” das “fake news”, patrocinadas por grupos ligados às empresas comerciais de comunicação, o que põe em xeque o jornalismo independente que pode ter sua produção de conteúdo atacada pelas supostas agências;

8 – não aceitamos a entrega do Pré-Sal, riqueza que pertence ao povo brasileiro; exigimos a imediata revogação das regras que, aprovadas pelo governo ilegítimo de Temer, entregam o petróleo brasileiro às multinacionais que apoiaram o golpe;

9 – exigimos a imediata revogação da política de preços adotada pela Petrobras comandada por Parente/PSDB, que prefere favorecer os acionistas minoritários com aumentos baseados no mercado internacional do petróleo, sem levar em conta as necessidades do povo brasileiro; reafirmamos o caráter estatal da empresa – construída pelo esforço do povo brasileiro – e denunciamos a política criminosa de subutilização das refinarias brasileiras, abrindo nosso mercado para importação de derivados de petróleo, num claro favorecimento às multinacionais do setor; essa política é responsável pelos aumentos sucessivos do diesel e da gasolina e tem, por objetivo último, o sucateamento da Petrobras e a tentativa inaceitável de privatizar a empresa, velho projeto dos tucanos e liberais brasileiros;

10 – repudiamos a tentativa do governo Temer de privatizar o setor elétrico e de reduzir o papel dos bancos públicos na economia;

11 – exigimos que os assassinos de Marielle Franco sejam punidos; o assassinato dessa mulher negra e ativista LGBT, que completa quase dois meses sem solução, é a demonstração de que “intervenção militar” e polícia violenta não resolvem o problema da segurança pública no Brasil;

12 – manifestamos nosso compromisso de lutar contra o genocídio negro, que vitimiza principalmente os jovens das periferias de todo o Brasil; denunciamos as condições de vulnerabilidade em que se encontram comunicadores negros para denunciar essas violações de direito, em territórios onde o que se vive é puro Estado de exceção;

13 – reafirmamos que o golpe abriu caminho para um discurso fascista e de intolerância que seguiremos a combater nas redes e nas ruas, manifestando nossa solidariedade em especial aos negros, aos indígenas, às mulheres e ao povo LGBT – que estão entre as grandes vítimas da violência no Brasil; a situação é mais grave quando vemos que um pré-candidato presidencial defende abertamente a tortura e sente-se livre para incitar ataques a mulheres, gays e negros;

14 – lembramos que a mídia comercial e golpista, com programas de TV policialescos e cheios de incitação à violência, é corresponsável pelo clima de medo e insegurança nas grandes cidades brasileiras;

15 – alertamos para os perigos que a coleta – sem conhecimento e sem consentimento – dos dados pessoais e de todas as atividades digitais dos usuários da internet no Brasil representa para a privacidade, a liberdade de expressão e para a democracia; o uso indevido desses dados pode interferir nos rumos da política, alterar a cultura, modular comportamentos e hábitos de consumo; por isso, defendemos o Projeto de Lei de Proteção dos Dados Pessoais, em tramitação na Câmara dos Deputados [até o momento da redação desta Carta] sob o número 4060/2012;

16 – consideramos fundamental nossa aproximação dos movimentos que lutam pelo software livre, com objetivo de nos apropriarmos dos códigos e ferramentas da tecnologia da informação; levamos em conta que o código de computador tem papel decisivo no controle e disseminação da informação, no cruzamento de dados e, assim, quem controla o código pode controlar também a liberdade de expressão;

17 – declaramos nossa preocupação diante da crescente participação dos militares (sejam da ativa ou da reserva) em assuntos políticos; a corporação militar, que deveria se preocupar com a entrega da Amazônia e de nosso petróleo pelo governo golpista, volta a flertar com o autoritarismo;

18 – repudiamos os ataques covardes de Israel ao povo palestino, num massacre que conta com apoio dos EUA e de boa parte da mídia comercial e golpista brasileira;

19 – o governo golpista do Brasil não tem moral para repudiar ou criticar processos eleitorais em países vizinhos; instamos o corpo diplomático brasileiro a retomar a tradição de independência de nossa política externa, repudiando as tentativas de interferir no processo político de nações soberanas como é o caso da Venezuela; denunciamos o cinismo de boa parte da mídia comercial e golpista do Brasil que chama o presidente (re) eleito da Venezuela de “ditador”, ao mesmo tempo em que chama os generais-ditadores (e genocidas) Geisel e Figueiredo de “presidentes”;

20 – consideramos fundamental que os candidatos de forças progressistas – Lula/PT, Boulos/PSOL, Manuela/PCdoB e Ciro/PDT – manifestem seu apoio às pautas históricas defendidas por este movimento de blogueir@s e ativistas digitais, em especial a democratização dos meios de comunicação.

Hoje está muito claro que o Brasil não estaria sob ameaça se os governos Lula/Dilma tivessem enfrentado o poder da Globo e do oligopólio midiático.

Nós, blogueir@s, ativistas digitais e coletivos de mídia, seguiremos a lutar pelo restabelecimento da democracia, o que passa por garantir a realização de eleições livres e justas em 2018; bem como por evitar que o Judiciário e a PF sigam a ser usadas como instrumentos políticos.

A crise é deles, a resistência é nossa!

O Brasil resiste ao desmonte!

Fora Temer! Fora Globo!

Lula Livre!

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A Tal Mineira passou o chapéu para estar no 6º BlogProg, dias 25 e 26 de maio, em São Paulo. Um esforço coletivo para viabilizar a viagem desde o Recife, translados e estada, que inclui dois dias em Curitiba, aonde esta escriba chegou no início da tarde desta quarta-feira.

Sou extremamente grata a cada uma e cada um d@s amig@s que até agora contribuíram para esta jornada.

Mas digo que continua valendo. Quem puder e quiser pode usar a seguinte conta para depósito:

Ideias e Letras Comunicação

Esteliam & Estelian Comunicação integrada Ltda (razão social)

cnpj: 13.602.046/0001-22

Caixa Econômica Federal

Agência 0867 Operação 022 Conta 238-6

Seguimos na batalha.

Abração.

Sulamita


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