‘Histórias que ninguém leu’, um livro sobre o lendário Jornal de Minas

por Sulamita Esteliam

Vou mudar um pouco o rumo da prosa, sem sair da biruta que norteia este blogue anão e atrevido.  É que o assunto urge: o lançamento do livro Jornal de Minas – histórias que ninguém leu, neste sábado 11 de agosto, na Livraria Ouvidor, em Beagá, minha Macondo de origem. Horário que mineiro gosta de flanar na Savassi num sábado, de 11h às 14 horas.

O livro reúne textos de 34 jornalistas que passaram pelo Jornal de Minas, e que escrevem livremente suas experiências. Contam a história do jornal, que já não existe mais desde 1988, através de episódios marcantes da conturbada vida política brasileira durante a ditadura civil-militar que oprimiu o País por 21 anos.

Uma das histórias centrais é o assassinato do jornalista Vladimir Herzog, no DOI-Codi em São Paulo, em outubro de 1975, pelo qual o Estado brasileiro foi condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, mês passado. Aliás, o Ministério Público Federal vai reabrir as investigações do crime, considerado de lesa-humanidade.

O amigo jornalista, Jurani Garcia, um dos autores do livro, me enviou o texto – devo a ele as orelhas do meu primeiro livro, Estação Ferrugem, que faz 20 anos neste 2018, e o trabalho preciso e árduo de revisão.

Aproveito para dizer que em breve terei novidades a respeito dessa minha atividade de contadora de histórias mais ou menos consistentes.

Por impecável, e porque estou de saída daqui a pouquinho para um compromisso com uma amiga no Antigo, transcrevo o texto promocional.

Saboreie a pena da colega Mirian Chrystus, que faz a assessoria para a Páginas Editora neste evento. Pena que não estou por lá para curtir e rever a galera.

Herzog, 43 anos depois

 O assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em uma cela do DOI-Codi, em São Paulo, em outubro de 1975, pelo qual o Estado brasileiro foi condenado, no início do mês passado, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos, é um dos episódios centrais do livro Jornal de Minas – histórias que ninguém leu, que será lançado pela Páginas Editora na Livraria Ouvidor (Rua Fernandes Tourinho, 253, Savassi, Belo Horizonte), no dia 11 de agosto, das 11h às 14h.

Uma semana depois de Herzog ter sido torturado e morto pela ditadura militar, o “Jornal de Minas” endossaria, em editorial de capa, de página inteira, a versão oficial de que ele teria cometido suicídio. A manifestação explícita das afinidades do jornal com a ideologia e as práticas do governo militar fez com que boa parte da Redação se demitisse e deu origem ao tabloide alternativo “De Fato”, no qual se poderia alimentar o sonho de resistir à ditadura.

As ligações da direção do jornal com o regime militar, até então, eram sabidas, mas não transpareciam no dia a dia da Redação. Campanhas contra a mineradora MBR, que devastava a Serra do Curral, contra a fábrica de cimento Itaú, que cobria de poluição a cidade de Contagem, e contra as mazelas do governo do Estado mostravam o lado combativo e independente do “Jornal de Minas” e animavam os jornalistas que nele trabalhavam.

Eram, na maioria, iniciantes na profissão, com todo o pique para aprender as trilhas do ofício com os mais experientes e cumprir sua parte na missão de mudar o mundo. Mesmo com salários quase sempre atrasados, filas no final do mês para receber vales e condições de trabalho precárias, lá estavam eles, com entusiasmo, produzindo todo dia o jornal que o vendedor Sapo, gritando com seu vozeirão manchetes inusitadas, começava a distribuir de madrugada pelos bares da boemia de Belo Horizonte.

O livro reúne textos de 34 jornalistas que passaram pelo “Jornal de Minas”, contando livremente suas experiências, resgatando fatos marcantes da conturbada vida política brasileira e rememorando situações insólitas ou pitorescas do ambiente de trabalho naqueles “anos de chumbo”. Nos espaços da Redação circulavam livremente cachorros da raça dálmata, gente pouco amistosa como o famigerado Zeca Diabo, a quem se atribuíam dezenas de mortes como pistoleiro, e agentes da censura, que os editores costumavam ludibriar com criatividade e artifícios.

Também são contados no livro os antecedentes do “Jornal de Minas”, que teve origem no antigo “O Diário”, de orientação católica, criado em 1935 e mantido pela Arquidiocese de BH. O chamado “Diário Católico” sobreviveu até 1972, quando foi comprado por um grupo de empresários, entre eles Afonso de Araújo Paulino, do setor de exploração de pedras preciosas. Afonso Paulino, o Minhoca, que seria anos depois presidente do Clube Atlético Mineiro, era o big boss do jornal no período em que aconteceram quase todos os fatos narrados no livro.

Em entrevista que encerra a publicação, feita por um grupo de jornalistas que trabalhavam no “Jornal de Minas” naquela época, a única em que falou sobre seu envolvimento com a ditadura, o polêmico dirigente, agora com 81 anos, responde, ora de modo contraditório ou evasivo, ora com informações minuciosas, a todas as perguntas que lhe foram feitas, com destaque para as que se referem a seu apoio ao regime militar e às acusações de ter participado de torturas.

O jornal acabaria em 1988, já sem expressão no cenário mineiro. Mas por um bom período, em que havia boa dose de liberdade editorial, ousadia e independência, ao lado de tensões e contradições, e ao mesmo tempo de uma convivência fraterna, deixaria muitas lembranças e aprendizado para uma legião de jornalistas que por ele passaram.


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