Mulheres nas ruas arrepiam a TFM

#PorTodasElas, mulheres lotam as ruas de Beagá - Foto: Maxwell Velasco/Jornalistas Livres
#PorTodasElas, mulheres lotam as ruas de Beagá – Foto: Maxwell Velasco/Jornalistas Livres
por Sulamita Esteliam

Jamais imaginei que viveria para ver e ouvir mulheres nas ruas de Belo Horizonte soltando os bichos e arrepiando o conservadorismo da Tradicional Família Mineira. Pois digo que o que vi, e ouvi, na noite deste 1º de junho, da Praça 7 à Liberdade, não tem preço.

Vi e ouvi um coro de milhares gritando, a plenos pulmões, pelo direito ao próprio corpo, em rimas inimagináveis tempos atrás: “Eta, eta, eta, eta, o Eduardo Cunha quer controlar minha buc…”

Vi e ouvi palavras de ordem cantadas em versos e prosa.

Vi e ouvi gestos e poemas que clamam pela sororidade de irmãs oprimidas pelo machismo, pela violência cultural que naturaliza o estupro, que torna comum molestar mães e filhas, e até crianças. Que criminaliza o direito de escolha – no sexo e na maternidade.

Vi homens, vários, caminhando junto às mulheres pela mesma causa.

IMG_20160601_191144871Luh – assim vou nomeá-la -, da Ocupação-Comunidade Dandara, no Céu Azul, subiu ao carro de som para contar, em meio a lágrimas, que sua menina de dois anos fora molestada, noite passada.

Maiara testemunhou, entre soluços, que sua mãe fora estuprada ainda mocinha, e gerou o fruto da violência apesar da falta de condições físicas, psicológicas e materiais de parir e de criar. Não conseguiu chegar ao fim do relato, que provavelmente revela que ela própria é filha do ato que denuncia.

O problema não é só os 33 que soltaram sua animalidade sobre uma garota de 16 anos, sem pudor nem piedade. São 11 estupros a cada minuto no Brasil.

A maioria absoluta das vítimas é formada por mulheres e meninas. E os agressores são homens, praticamente, na totalidade dos casos. Quase sempre, homens conhecidos, quando não familiares.

Alguém se lembrou de Dilma Vana Rousseff, estuprada em seus direitos de presidenta legitimamente eleita por 54 milhões de votos, e objeto de processo de impeachment sem crime de responsabilidade – em grande parte porque é mulher.

E o coro de milhares não poupou o usurpador em desgoverno provisório: “Mexeu com uma, mexeu com todas.” “Fascistas, machistas, não passarão!” “Fora, Temer!”

Belo Horizonte não está sozinha. As mulheres foram às ruas neste primeiro de junho em todo o País pelo fim da cultura do estupro e #PorTodasElas.

Dezenas de milhares em São Paulo, e milhares também no Rio, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Fortaleza, João Pessoa, Natal, Salvador e em várias cidades do interior.

Em Beagá, no carro de som, cedido pela CUT-MG, se revezavam em denúncias, palavras de ordem, canto e poesia. No chão, as mulheres empunhavam cartazes de protesto contra a violência e o retrocesso nas políticas sociais e de saúde, e reivindicações, como a descriminalização do aborto.

Um grupo de palhaças roubava a cena como suas performances de estímulo à sororidade entre as mulheres e de questionamento ao machismo entre os homens. Humor a favorecer a empatia.

IMG_20160602_144942559IMG_20160602_145017709Na capital mineira, a Vigília Feminista MG tomou providência importante, que tomara tenha se repetido nas demais cidades onde houve manifestação: imprimiram um cartão com orientações de como proceder em caso de estupro; no verso a listas dos hospitais/maternidades-referência para atendimento às vítimas de violência sexual em BH. É para ser levado na carteira.

#EstuproNuncaMais.

 

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PS: Devo desculpas pela ausência no blogue na quarta-feira, 1º. Tive que fazer uma pequena viagem para o interior de Minas, e fiquei sem acesso a computador – e também à internet a maior parte do tempo, por problemas de conexão do meu celular.

PS2: Postagem revista e atualizada às 20:37 horas: correção de erros de digitação e de gramática em diferentes parágrafos.


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