Quem vai pagar pela vida tomada do menino Miguel Otávio?

por Sulamita Esteliam

Quase tenho uma síncope quando assisti ao vídeo do menino Miguel Otávio Santana da Silva no elevador, sendo mandado para a morte pela patroa da mãe, Sari Côrte Real. Ela conversa com ele, segurando a porta e depois, num gesto de resoluta impaciência aperta o botão do que parece ser o último andar.

A porta do elevador se fecha e a criança, de 5 anos, fica só naquele ambiente estranho. Toca outros botões e, alguns segundos depois, a porta volta a abrir-se, e o vídeo é invadido pela luz. Parei aí, porque sei o desfecho, está em todos os veículos locais e nacionais, e também nas redes sociais, repercutido por gente de todo o Brasil.

Meu coração não aguenta. Mas obrigada amigo Ruy Sarinho pela remessa  do vídeo.

Miguel desceu no 9º andar. Procurava pela mãe que tinha saído para passear com os cachorros de estimação da patroa. Deixara o filho sob os cuidados da mulher. A criança chorou e ela, ao invés de distraí-lo de alguma forma, fez o que não faria com uma cria sua.

O menino caiu de uma altura de 35 metros. Uma das estruturas do gradil de proteção do hall de máquinas se rompeu quando ele o escalou, gritando pela mãe; era de alumínio. Supostamente, Miguel teria visto Mirtes lá embaixo, e tentou ir ao seu encontro.

Sari Côrte Real foi presa e indiciada por homicídio culposo, aquele que não há intenção de matar. Pagou R$ 20 mil de fiança e vai responder o processo em liberdade. É o entendimento do delegado Ramón Teixeira, da Delegacia Seccional de Santo Amaro.

Quanto vale a vida de uma criança negra, filha de uma empregada doméstica diante de uma patroa branca e rica, além de tudo primeira dama de município turístico? O marido, Sérgio Hacker, é prefeito de Tamandaré, aprazível local de veraneio no litoral sul de Pernambuco.

Troque seu cachorro por uma criança pobre, diz um verso de música famosa nos anos 80.  Qual o quê!

E quanto vale o sentimento de uma mãe negra e pobre? E de uma avó também negra e pobre, quanto vale?

A Polícia Civil, o Estado, usa palavras ondulosas para esconder o óbvio: liberou a dona da casa-grande do flagrante com o enquadramento em homicídio culposo. E protegeu sua identidade, ao preço vil do privilégio de classe.

Não foi acidente. Foi desleixo, descaso, desprezo.

O que faria a polícia se os papeis fossem invertidos nesta tragédia anunciada? Sim, porque qualquer adulto de bom senso não deixaria uma criança de 5 anos entrar sozinha no elevador,  quanto mais marcar um andar mais alto. Qual a lógica?

Ainda que ela, criança, tivesse o hábito de navegar por este estranho veículo. Não era o caso do Miguel, criado em casa baixa, em bairro popular na periferia do Recife.

A patroa branca da mãe preta do menino negro de 5 anos sabia do risco e, deliberadamente, ou num acesso de raiva, ligou o dane-se!

E o delegado se omite no cumprimento de seu dever e da lei, embora haja controvérsias sobre a tipificação do crime. Uma amiga advogada criminalista me diz que, diante das primeiras informações, “o crime é, sim, culposo” no interpretar da lei. Segundo ela, isso pode mudar no decorrer do processo, quando mais detalhes forem agregados.

Mas quem duvida que se fosse a empregada negra a cometer a “negligência” com o filho próprio ou, pior, a cria da patroa, estaria presa, mesmo em se tratando de “homicídio culposo”?

Mirtes sabe disso, e botou a boca no trombone, também com a omissão do nome da patroa pela Polícia Civil. Ela só constatou a responsabilidade de Sari, quando viu as imagens do vídeo que me causou taquicardia.

– Se fosse eu, minha cara estaria estampada em todos os jornais e tvs. Eu estaria na Colônia Bom Pastor – presídio feminino no Recife – levando pancada das detentas por ter matado uma criança.

Mirtes e sua mãe trabalham para a família de Sari e Sérgio há tempos. Na terça-feira, a avó estava de folga e precisou tratar de assuntos particulares. A filha não teve alternativa que não levar a criança para o trabalho.

Tudo isso Euzinha leio em matérias de diferentes veículos, desde o café da manhã da quarta-feira, 3. Mas o Marco Zero traz reportagens completas, com detalhes preciosos.

Deveriam ambas estar em casa nesses tempos de pandemia. Trabalho doméstico não é atividade essencial.  Ainda mais que havia uma criança de 5 anos a ser cuidada. Acrescente-se o fato de que mãe, filho e avó contraíram Covid-19 na casa dos patrões. Nem assim foram dispensadas do trabalho.

O nome disso é racismo estrutural, institucional. Miguel é mais uma vítima.

Sua morte condenou mãe e avó a dor inimaginável, ao desespero da perda e da injustiça. A mão que o empurrou para o vácuo da eternidade não pode, entretanto, seguir intocável.

Há agravantes éticos na história: li na edição digital do Jornal do Commercio, informação de que o nome de Mirtes consta na Rais – Relação Anual de Informações Sociais da Prefeitura de Tamandaré, cujo titular é seu patrão.

Quer dizer: a trabalhadora doméstica do prefeito é paga com dinheiro público, o que é absolutamente ilegal. A funcionária, certamente, não dispõe de informação, e mesmo que assim fosse não teria condições objetivas de contestar o engodo.

Faz o prefeito o que é prática no setor privado: empresários normalmente incluem seus serviçais domésticos na folha de pagamento de suas empresas, retirando o custo de suas despesas pessoais.

É a velha confusão entre o público e o privado, que está na gênessi da sociedade brasileira.

Nesta sexta, dois atos de protesto pedem justiça por Miguel: às 13 horas, em frente ao Palácio da Justiça, na Praça da República, de lá segue para as torres gêmeas, local onde  a criança morreu. Lá se encontra com outro ato, programado pela família da criança morta para as 15 horas.

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Postagem revista e atualizada dia 05.06.2020, às 12:02 horas: inclusão de informações sobre o caso Miguel, no que diz respeito à relação trabalhista da mãe.


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