O Brasil arde sob fogo, fúria e fome

por Sulamita Esteliam

Meses atrás, minha caçula me perguntava qual era a maior frustração da minha vida, dentre outras questões que poderiam soar incômodas para quem não se permite vasculhar.

Felizmente não é o caso desta velha escriba.

Respondi que é a frustração de toda a minha geração: ver que a luta de toda nossa existência foi jogada por terra; nos batemos desde a juventude por um país mais justo, com menos desigualdade, com mais educação, por cidadania, sem criança exposta na rua mitigando a fome e o abandono, sem miséria.

Tivemos muito perto de alcançar a dignidade coletiva. Nos governos Lula e Dilma, a miséria não acabou, mas o Brasil saiu do mapa da fome e o povo vislumbrou a cidadania.

O golpe nos jogou no poço infindo. Agora, o país arde – sob fogo, fúria e fome.

Sobra horror, ignorância e deboche. Nas palavras do professor Fernando Haddad, fruto do que em latim se chama “aura sacra fames, fome de dinheiro”.

O IBGE divulga dados sobre o avanço carniceiro da fome nos lares brasileiros: 10,3 milhões de pessoas vivem sob insegurança alimentar.

E esse número avassalador é de 2018, antes portanto do furacão CCC que se abateu sobre nós – o do capiroto et caterva, mais a pandemia do novo Coronavírus.

Falta de segurança alimentar é um eufemismo para dizer que não têm comida em quantidade suficiente para comer, adultos e crianças. Você consegue imaginar o que é isso?

Prevê-se uma hecatombe social diante da ausência de perspectivas de melhora. O desemprego, que já anda na casa dos 14% da população economicamente ativa, tende a piorar com o fim do auxília emergencial de renda.

Negar ou mentir não torna a realidade menos grave.

Leio no Brasil 247, a partir de matéria publicada na Folha SP, que uma em cada quatro empresas do setor de serviços pretende demitir ou até encerrar as atividades quando acabar os programas emergenciais – linco a íntegra ao fim da postagem.

Vamos convir que está cada dia mais difícil não se deixar abater.

E era só acabar com Dilma, Lula e o PT! Jornada inócua e perversa.

Sobre a fome, vale muito à pena ler o que escreve o colega Fernando Brito no Tijolaço. Transcrevo:

“Insegurança alimentar”? O nome é fome

por Fernando Brito – no Tijolaço

O título do press release do IBGE – 10,3 milhões de pessoas moram em domicílios com insegurança alimentar grave – não dá ideia do que, em bom português se chama, simplesmente, passar fome.

A definição oficial da expressão fala mais: insegurança alimentar é a “redução quantitativa de alimentos também entre as crianças, ou
seja, ruptura nos padrões de alimentação resultante da falta de alimentos entre todos os moradores, incluindo as crianças. Nessa situação, a fome passa a ser uma experiência vivida no domicílio”.

O quadro, porém, é pior, porque um grau acima está a “insegurança alimentar moderada”, que é a comida racionada entre adultos, que atinge 18,1 milhões de pessoas.

Ou seja, 15 em cada 100 brasileiros estão em condições de subnutrição. De novo, passando fome estão 28,4 milhões de brasileiros como eu e você.

Mas os números são de 2018 e basta andar por aí para ver que a miséria aumentou. E olhe que nem se leva em conta que há centenas de milhares que não aparecem em pesquisas domiciliares como esta porque, de novo falando claro, estão na rua, por falta de uma casa ou mesmo um barraco para morar.

Há apenas sete anos, em 2013, eram 17,5 milhões, o que já era uma vergonha que, apesar disso, vinha diminuindo desde o início do milênio.

Na outra ponta, entre os brasileiros que gozam de segurança alimentar – ou seja, têm acesso regular e permanente a alimentos de
qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais estamos abaixo do patamar de 16 anos atrás: agora, nem dois em cada três brasileiros comem, sem luxos, mas comem: 63,3%.

Um país que tem quase 30 milhões de seus cidadãos em situação de fome ou subnutrição não pode tratar isso como “um problema social”; Não, é uma emergência, que não pode ficar subordinada a “tetos de gastos” e menos ainda à conversa mole de que mitigar este problema é “assistencialismo” e um estímulo à ociosidade.

Cadáveres, ainda que caminhem, não podem ter educação nem emprego.

Mas o mais importante hoje é o Ministério Público e os senhores juízes, com seu gordurosos salários, a nos dizerem o que presta e o que não presta, a polícia, para espaldeirar a periferia e, claro, a “gestão” eficiente dos negócios (negócios, não os serviços) públicos.

O fim, próximo, do auxílio emergencial vai piorar esta situação, mas estamos discutindo se os nossos sacrificados banqueiros e os paupérrimos acionistas das empresas podem suportar mais alguns míseros impostos, muito abaixo dos que se paga em países mundo afora.

Quem duvidar, consulte esta tabela elaborada pelo Nexo Jornal, a partir de dados da OCDE e verá que, embora nossa carga tributária seja alta, apenas um terço dela corresponde a tributos sobre a renda, lucros, ganhos de capital e propriedade.

Os miseráveis brasileiros, quando conseguem comprar arroz, feijão e farinha pagam, proporcionalmente, muito mais imposto que os super-ricos em seus luxos.

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