Troca-se leite condensado por vacinas, oxigênio e um governo

por Sulamita Esteliam

É claro que a farra do leite condensado no desgoverno federal foi o assunto do dia nas redes sociais. Obscureceu a entrega de mais um pedido de impeachment do despresidente da República na Câmara dos Deputados. É o 63º, assinado por entidades e personalidades cristãos – católicos e evangélicos de consciência crítica. Trato disso mais abaixo.

Só que a notícia de que se gastou a bagatela de R$ 15 milhões – isso mesmo – com leite condensado no Executivo da Nação, em 2020, vamos combinar, já é piada que chega pronta.

Quem levantou a lebre foi o Metrópoles, sítio alternativo de notícias do Distrito Federal. Em reportagem domingueira, tratou de clarear os gastos do desgoverno do capiroto, cujo titular é viciado confesso em pão lambrecado com leite condensado. Na noite desta terça, o Portal da Transparência foi tirado do ar.

Mas da lista de 140 itens do levantamento constam outras estranhezas e guloseimas como goma de mascar, achocolatados, batatas fritas, vinho e até alfafa. Nem tão esquisito assim, quando se sabe a quem se destina.

Logo, logo, tinha gente fazendo contas de quantas doses de vacina contra Covid-19 seria possível adquirir com o dinheiro investido na alimentação da tropa e comitiva.

Sim, porque, no todo, sabe-se que se gastou R$1,8 bilhões de reais com alimento no Executivo – que inclui a Presidência da República, a vice e todos os ministérios e órgãos afins, 20% mais do que em 2019.

Desse total, um terço ao menos foram para o Ministério da Defesa, nada menos que R$ 632 milhões. Também, as Forças Armadas abrigam e alimentam 370 mil pessoas sob suas armas, defende-se. Será que o menu inclui alfafa, ou apenas na ração das cocheiras?

O Ministério da Educação vem na sequência, bem modesto na comparação: R$ 60 milhões. Não, não inclui merenda escolar, que é obrigação das unidades federadas e municípios, cada um nas respectivas etapas da educação.

Ah, o Metrópoles revela, ainda, que austero general Hamilton Mourão tem gosto refinado quando se trata de seu próprio conforto com dinheiro público – o seu, o meu, o nosso dinheirinho. Em dois anos gastou nada menos que R$ 194 mil na reequipagem da residência oficial do vice-presidente, o Palácio do Jaburu.

Lençóis de algodão egípcio, aparelho de jantar em porcelana, taças de vinho e licor, tábua para pizza em mogno africano. E mais equipamentos esportivos e coisas do gênero. Tudo especificado em edital.

Todavia, voltemos ao leite condensado, porque adoçar a vida é preciso, ainda mais em tempos de trevas. Há alguns pontos da galhofa a serem revistos sob a lógica e a logística, que não é a do Pazuello; pode não ser o que parece, hein!

Primeiro, não foi a Presidência da República, mesmo ocupada por quem é, que consumiu toda a carga de leite condensado. Fosse isso, o titular estaria morto; o açúcar teria feito o serviço que o Covid-19 não deu conta.

A lembrar que o capiroto tem problemas intestinais que já lhe valeram cirurgia, transmutada em operação de emergência para corrigir estragos de uma suposta facada pré-eleitoral.

Segundo, a nota diz que o desgoverno pagou R$ 162,00 pela unidade de leite condensado. Mais abaixo está a informação de que se trata de “caixa 395g”. E que houve dispensa de licitação.

No supermercado, a lata ou caixa de leite condensado da marca mais famosa, custa em torno de 6 reais. Um superfaturamento monstro. Será? Tamanha estupidez não cabe nem na cabeça de quem é afeito a rachadinhas para sugar dinheiro público, e não está nem aí para o decoro e a ética.

Uma googleada, entretanto, é o bastante para ver que não é bem assim. Uma caixa-padrão de leite condensado, da marca “Meu Bom”, da Piracanjuba, por exemplo, vem com 27 unidades. Custa R$ 135,84, em oferta R$128,87. Faz mais sentido.

De qualquer forma, haja brigadeiro e pudim para R$ 15 milhões 641mil 777 reais e 44 centavos de leite condensado. E não me consta que os restaurantes universitários, por exemplo, sirvam as iguarias de sobremesa para os estudantes.

Terceiro é a pergunta de quem é o fornecedor do produto, e qual o possível interesse além do comercial, como sugeriu o ex-deputado federal . Na nota é possível ver que não houve licitação.

A resposta não vem de jornalista, mas da médica e deputada federal, Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que foi à caça, e recebeu contribuições de seguidores no Twitter:

 

Bom vê se que se trata de empresa individual, uma eireless, com o capital mínimo para esse tipo de empreendimento, R$ 100 mil. Até aí, nada demais, pode representar o fabricante.

Só que, nesse caso, quem emitiria a nota não seria a representação – a menos que ela mantenha estoque para atender demandas urgentes, como a dispensa de licitação em casos de calamidade pública.

A compra foi feita em regime de dispensa de licitação, como se pode ver na imagem da nota publicada antes. Mas, leite condensado é emergência!?

Evangélicos e católicos, unidos, entregaram nesta terça-feira, 26, a um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. É mais um pedido de impeachment a dar entrada na Câmara dos Deputados.

Sobre o novo pedido de impeachment: baseia-se na denúncia dos crimes de responsabilidade relativos à saúde durante a pandemia de Coronavírus. 

Há milhões precisando de vacinas, milhares sem leitos e oxigênio em UTIs, e dinheiro para comprar comida e produtos de higiene.

Há um Brasil precisando de governo.

Mas que tal pão com leite condensado e alfafa com farelo na sobremesa? No umbral se come batatas fritas?

Sobre o 63º pedido de impeachment, que une católicos e evangélicos de boa vontade: relaciona o desprezo e o estímulo ao desrespeito das regras sanitárias, o manejo criminosos das políticas no setor: retenção de verbas orçamentárias emergenciais destinadas à contenção do avanço do vírus; propagação do tratamento precoce com uso de cloroquina, hidroxicloroquina, invectina e que tais, a despeito das recomendações científicas em contrário, devido à ineficácia  no caso e aos efeitos colaterais danosos; o não acesso à vacina e a propaganda de descrédito.

Enfim, a violação de diversos artigos da Constituição federal, caracterizada no desprezo pela vida de brasileiras e brasileiros, destituídos do direito à saúde e à cidadania no que há de mais elementar: a saúde e a subsistência com um mínimo de dignidade. 

O pedido é assinado pela Frente Ampla Cristã, com apoio do Conic – Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil , da Comissão Nacional Justiça e Paz – órgão ligado à CNBB -, a IEAB – Câmara Episcopal da Igreja Anglicana do Brasil, a ABB – Aliança de Batistas do Brasil e várias lideranças católicas e evangélicas.

Redigido pela Associação dos Juristas pela Democracia, a representação tem 76 páginas. O Tal Mineira publica um extrato, retirado do GGN que publicou a íntegra –  clique para acessar

 

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