Prece dos desvalidos

por Sulamita Esteliam

Pai, sei que me escuta.
Então, diga que não nos abandonastes.
Clamo feito Teu Filho no Monte das Oliveiras.
Não temo a morte.
Tateio em busca de luz.

Diga que, cedo ou tarde, enviarás um lume para alumiar o horizonte.
Diga que o flagelo que açoita a minha gente está perto do fim.
Diga que não deixarás que seja o desprezo a alimentar a barca de Creonte.
O escárnio cumpre o papel de carrasco para a escória que nos amofina.
Vais permitir, até quando, Meu Pai?

Até que não reste mais fibra para suportar a tortura de imaginar o próximo a cair no abismo infindo?
Até que a morte se canse de colher vidas tristes, ignorantes, desvalidas ou afoitas e, insaciável, se deixe atrair pelo brilho das raridades?

O frio do aço sobre corpos inocentes.
Da boca da hidra se cospem balas de revólver, escopetas, fuzis.
Sangue lavando o asfalto inerte, onde passeia a fome.
A carne preta a soldo da fúria da besta.
Cabeças já não se contam: cinco, dez, vinte, cento e cinquenta, todas senis.

Nenhum neurônio que valha o desespero.
É esse, Meu Pai, o seu legado?

Antídotos a granel: manter a crença em tudo que tem propósito.
Reacender a esperança.
Recusar-se a perder a vergonha.
A profissão de fé já não me alcança.
Mas o que a boca negaceia não chega ao coração.

Diga-me, pois, Senhor que a tudo vê: qual é a conta de chegar?
Cem, trezentos, 500 mil vidas, um milhão?

Pergunto-me, e torno a perguntar.
Insisto, não me canso: foi para isso que nos criastes, nos fazer carcaça em vida?
Foi para saciar orgias de tiranos que nos fizestes à imagem e semelhança de Teu Filho?
Sangue, suor e lágrima para nos desmancharmos ante mais um árbitro genocida?
Tudo no mesmo balaio, enquanto ignoras os desgraçados pela margem.

Está certo, a humanidade endoideceu.
Perdeu o liame com a retidão dos Teus caminhos.
Pregam em Teu nome de dia, e trapaceiam com a fé nas sombras da noite.
Erguem as mãos sobre as cabeças no templo,
e ali mesmo as estupram, pisam na garganta de suas vítimas e as saqueiam.

Até quando permitireis, que usem Teu Reino como moeda de troca e vilipêndio?
Que Teus ensinamentos sejam lançados ao vento, deles se façam redemoinho?

Diga-me, Oh, Pai! Eu Te escuto.

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